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terça-feira, março 03, 2009
sábado, outubro 18, 2008
JOSÉ-AUGUSTO DE CARVALHO
CANTARES
Eu canto as horas amargas
das cargas e das descargas
das barcas de arrojo e pinho...
Eu canto os longes das rotas
abertas pelas gaivotas
com asas de níveo linho...
Eu canto as horas sombrias
de medos e de agonias
no mais além da tormenta...
Eu canto as horas de luto,
naufrágios, febre, escorbuto,
sabor de cravo e pimenta...
Eu canto no Cabo Não
o sim de passar ou não,
mas nunca o retroceder...
Eu canto os Cabos da Dor!
Gil Eanes -- Bojador,
tormentas de estarrecer...
Eu canto as Áfricas virgens,
feridas desde as origens
de mágoas e predadores...
Eu canto as Índias da História,
cobiças, dramas e glória
de incenso e de roxas cores...
Eu canto os áureos Brasis,
a cana em negro matiz
de açúcar de acres sabores...
Eu canto a nesga europeia
do Poeta e da Epopeia
do Fado das nossas dores...

A FLOR DA FANTASIA
Em terras do Alentejo, há muito emurcheceu,
no sonho de Aladim, a flor da fantasia.
Sem noites de luar, o canto emudeceu
e um manto de tristeza o nada silencia.
O sol é um incêndio, um caos de idolatria,
que o tempo-amar-e-ser há muito corrompeu...
Em terras do Alentejo, há muito emurcheceu,
no sonho de Aladim, a flor da fantasia.
Ai, que assombrada voz meu sono escureceu!
Que pesadelo em mim só me anoitece o dia...
O dia que eu queria e nunca amanheceu!
Saudade do que fui! A flor da fantasia,
em terras do Alentejo, há muito emurcheceu...

SONETO PARA SHERAZADE
O grito que ressoa acorda o sonho antigo
As crinas dos corcéis ondulam anelantes
Nas dunas do deserto em fogo onde me abrigo
Os teus apelos de alma e coração distantes
No tempo e no lugar, as sedes de outras fontes
Em ti o lago pleno, ocaso de afluentes
Depois de ti não pode haver mais horizontes
Que mais, além de ti, se tudo em ti consentes
Escondes sob o véu os lábios purpurinos
Sedentos de áurea lava em tragos de ambrosia
Prometes no teu ventre anseios levantinos
Gemidos de luar de cálida estesia
Teu grito no meu grito, o grito definido
Aurora recusando o tempo interrompido
José-Augusto de Carvalho é natural de Viana do Alentejo.
Aconselho uma visita ao seu blog TEMPOS DO VERBO
segunda-feira, janeiro 23, 2006

PEDRA FILOSOFAL
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
Desmistificação
Trago nos pés o cansaço
que há em todas as estradas!
Palmilhei-as passo a passo
e nunca as dei por andadas!...
Descansei junto aos valados
Dormia comigo a lua,
e a meu lado, toda nua,
os dois, num só, abraçados!
O sol vinha com o orvalho,
acordar-nos!
Eu voltava ao meu trabalho;
ela, ao céu, já manhã cedo.
Até que à noite, em segredo,
vinha de novo abraçar-nos...
(José Augusto de Carvalho- Natural de Viana do Alentejo)
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