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terça-feira, março 03, 2009

JOSÉ-AUGUSTO DE CARVALHO

Foto de Zuleva-Olhares (clique na imagem para a ver em tamanho maior)



CAMINHOS

Ai, caminhos de nada e ninguém,
de fantasmas em louco vaivém!

Não encontro nem perco,
nem procuro,
para além deste cerco...
Só o longe futuro,
hoje verde, amanhã amarelo maduro

Ai caminhos de névoa, rasgados
p'los meus pés obstinados!

Na pureza das asas da infância,
a vertigem do espaço cruzei...
Desvendei
a distância
e uma física nova inventei!

Ai, caminhos de oculto segredo,
de ansiedade, fracassos e medo!

Do composto que sou não separo
qualquer parte do todo
da matéria... de argila? de lodo?
Donde venho? Onde vou? Quando paro?


José-Augusto de Carvalho

O Poeta nasceu em Viana do Alentejo, a 20 de Julho de 1937.


sábado, outubro 18, 2008

JOSÉ-AUGUSTO DE CARVALHO



CANTARES

Eu canto as horas amargas
das cargas e das descargas
das barcas de arrojo e pinho...

Eu canto os longes das rotas
abertas pelas gaivotas
com asas de níveo linho...

Eu canto as horas sombrias
de medos e de agonias
no mais além da tormenta...

Eu canto as horas de luto,
naufrágios, febre, escorbuto,
sabor de cravo e pimenta...

Eu canto no Cabo Não
o sim de passar ou não,
mas nunca o retroceder...

Eu canto os Cabos da Dor!
Gil Eanes -- Bojador,
tormentas de estarrecer...

Eu canto as Áfricas virgens,
feridas desde as origens
de mágoas e predadores...

Eu canto as Índias da História,
cobiças, dramas e glória
de incenso e de roxas cores...

Eu canto os áureos Brasis,
a cana em negro matiz
de açúcar de acres sabores...

Eu canto a nesga europeia
do Poeta e da Epopeia
do Fado das nossas dores...







A FLOR DA FANTASIA

Em terras do Alentejo, há muito emurcheceu,
no sonho de Aladim, a flor da fantasia.
Sem noites de luar, o canto emudeceu
e um manto de tristeza o nada silencia.

O sol é um incêndio, um caos de idolatria,
que o tempo-amar-e-ser há muito corrompeu...
Em terras do Alentejo, há muito emurcheceu,
no sonho de Aladim, a flor da fantasia.

Ai, que assombrada voz meu sono escureceu!
Que pesadelo em mim só me anoitece o dia...
O dia que eu queria e nunca amanheceu!
Saudade do que fui! A flor da fantasia,
em terras do Alentejo, há muito emurcheceu...






SONETO PARA SHERAZADE

O grito que ressoa acorda o sonho antigo
As crinas dos corcéis ondulam anelantes
Nas dunas do deserto em fogo onde me abrigo
Os teus apelos de alma e coração distantes

No tempo e no lugar, as sedes de outras fontes
Em ti o lago pleno, ocaso de afluentes
Depois de ti não pode haver mais horizontes
Que mais, além de ti, se tudo em ti consentes

Escondes sob o véu os lábios purpurinos
Sedentos de áurea lava em tragos de ambrosia
Prometes no teu ventre anseios levantinos
Gemidos de luar de cálida estesia

Teu grito no meu grito, o grito definido
Aurora recusando o tempo interrompido





José-Augusto de Carvalho é natural de Viana do Alentejo.

Aconselho uma visita ao seu blog TEMPOS DO VERBO


segunda-feira, janeiro 23, 2006





PEDRA FILOSOFAL

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão






Desmistificação


Trago nos pés o cansaço

que há em todas as estradas!

Palmilhei-as passo a passo

e nunca as dei por andadas!...





Descansei junto aos valados

Dormia comigo a lua,

e a meu lado, toda nua,

os dois, num só, abraçados!





O sol vinha com o orvalho,

acordar-nos!

Eu voltava ao meu trabalho;

ela, ao céu, já manhã cedo.

Até que à noite, em segredo,

vinha de novo abraçar-nos...


(José Augusto de Carvalho- Natural de Viana do Alentejo)

INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...