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sexta-feira, abril 28, 2017

O tempo, subitamente solto ...


o tempo, 
subitamente solto 
pelas ruas e pelos dias, 
como a onda de uma tempestade 

a arrastar o mundo, 
mostra-me o quanto te amei 
antes de te conhecer. 
eram os teus olhos,

labirintos de água, 
terra, fogo, ar, 
que eu amava 

quando imaginava 
que amava. 
era a tua, a tua voz 
que dizia as palavras da vida. 
era o teu rosto. 
era a tua pele. 

antes de te conhecer, 
existias nas árvores 
e nos montes e nas nuvens 

que olhava ao fim da tarde. 
muito longe de mim, 

dentro de mim, 
eras tu a claridade. 
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José Luís Peixoto

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Foto de Vladimir Isaev
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sexta-feira, julho 19, 2013

AMOR




Amor
o teu rosto à minha espera, o teu rosto 
a sorrir para os meus olhos, existe um 
trovão de céu sobre a montanha. 

as tuas mãos são finas e claras, vês-me 
sorrir, brisas incendeiam o mundo, 
respiro a luz sobre as folhas da olaia. 

entro nos corredores de outubro para 
encontrar um abraço nos teus olhos, 
este dia será sempre hoje na memória. 

hoje compreendo os rios. a idade das 
rochas diz-me palavras profundas, 
hoje tenho o teu rosto dentro de mim. 

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"


Foto de Sergey Ryzhkov

quinta-feira, setembro 08, 2011

UMA BRISA...




"Uma brisa ergue-se no interior da terra e chega a mim, à consciência de mim: o meu rosto, os meus lábios, o meu corpo tocado por essa brisa. Caminho por entre essa brisa a passar por mim, como se atravessasse uma multidão invisível. A brisa, ao tocar os meus olhos, transforma-se em lágrimas que descem frias pelo meu rosto. Os meus lábios. Sinto-as e sinto a memória das vezes que chorei o desespero parado, mais triste, de lágrimas que descem lentamente pelo rosto. O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que a consiga imaginar e as lágrimas, que eram apenas a brisa a tocar os meus olhos, começam a ser lágrimas de desespero verdadeiro. Paro no passeio. O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim."

JOSÉ LUIS PEIXOTO; excerto de "Lunar"


Foto de Piotr Kowalik

segunda-feira, agosto 03, 2009

Um dia...





um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

José Luís Peixoto –A Criança em Ruínas



sábado, fevereiro 07, 2009

TODO O AMOR DO MUNDO NÃO FOI SUFICIENTE...




todo o amor do mundo
não foi suficiente
porque o amor não serve de nada.
ficaram só os papéis e a tristeza,
ficou só a amargura
e a cinza dos cigarros e da morte.
os domingos e as noites
que passámos a fazer planos
não foram suficientes
e foram demasiados
porque hoje são como sangue no teu rosto,
são como lágrimas.
sei que nos amámos muito e um dia,
quando já não te encontrar em cada instante,
cada hora, não irei negar isso.
não irei negar nunca que te amei.
nem mesmo quando estiver deitado,
nu, sobre os lençóis de outra
e ela me obrigar a dizer
que a amo antes de a foder.


JOSÉ LUIS PEIXOTO

IN A CRIANÇA EM RUÍNAS


Foto:Fluffytek

quarta-feira, agosto 15, 2007

No tempo em que éramos felizes...




no tempo em que éramos felizes não chovia.
levantávamo-nos juntos, abraçados ao sol.
as manhãs eram um céu infinito. o nosso amor
era as manhãs. no tempo em que éramos felizes
o horizonte tocava-se com a ponta dos dedos.
as marés traziam o fim da tarde e não víamos
mais do que o olhar um do outro. brincávamos
e éramos crianças felizes. às vezes ainda
te espero como te esperava quando chegavas
com o uniforme lindo da tua inocência. há muito
tempo que te espero. há muito tempo que não vens.

José Luis Peixoto
(A criança em ruínas)

Foto de Pascal Renoux

sábado, novembro 18, 2006

foto de Brigitte Carnochan




na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu, depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho, mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


(José Luís Peixoto – A Criança em Ruínas)

sábado, junho 03, 2006

foto de Jacek Pomykalski




"o teu rosto à minha espera. o teu rosto
a sorrir para os meus olhos. existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras. vês-me
sorrir. brisas incendeiam o mundo.
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos.
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas.
hoje tenho o teu rosto dentro de mim."



(José Luís Peixoto, A Casa, A Escuridão)

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Foto de Piotr Kowalik (Fotografia na Net)



"Em cada página,o teu olhar,em cada montanha,
a tua voz.Deixa-me falar contigo.
Lembro-me tão bem de tudo o que me disseste.

As palavras existem.Eu quero encontrar-te sempre,
em cada noite,sobre a mesa dos papéis desarrumados
onde limpo a nossa vida.

Em página,os céus,em cada montanha,tu a chamares.
As páginas são,outra vez,o dia em que nasceste.
Lembraste tão bem de tudo.

Passam anos sobre as palavras.Os dias existem.
Seguro o livro como se segurasse a tua voz e,
quando alguém diz o teu nome,
eu continuo a responder."

(José Luís Peixoto)

(Um beijo para Lena/Cabana de Palavras pela maravilhosa oferta)

sábado, janeiro 28, 2006





"não me arrependo das horas que perdi a esperar-te quando ainda havia a esperança.
a esperança que havia ainda quando, a esperar-te, perdi horas de que não me arrependo.

um instante na memória de chegares é mais valioso do que jardins.
do que montanhas. do que anos de tempo.

arrependo-me de ficar ao sol, de sorrir, de esquecer que devagar passam os dias.
os dias passam devagar, esquecendo-se de sorrir ao sol e de ficar onde me arrependo."

(José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão)

segunda-feira, agosto 01, 2005

Hoje o tempo não me enganou...

(freeimages)




HOJE O TEMPO NÃO ME ENGANOU. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas sim em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.





(José Luis Peixoto in Nenhum Olhar (excerto)

INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...