terça-feira, janeiro 25, 2022

NUVENS CORRENDO NUM RIO

 




NUVENS CORRENDO NUM RIO

Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.



Natália Correia 

segunda-feira, janeiro 24, 2022

NÃO SEI SE É AMOR QUE TENS


Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
.
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
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 Já que o não sou por tempo, 
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 Seja eu jovem por erro. 
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 Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso. 
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 Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
 É verdadeira. Aceito. 
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 Cerro olhos: é bastante. 
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 Que mais quero? 
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 RICARDO REIS
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Imagem Tamara de Lempicka 1898/1980

sexta-feira, janeiro 21, 2022

QUANDO


 QUANDO

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Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
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O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
.
Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei
.
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
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ÁLVARO DE CAMPOS
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Foto de Ulvi Magerramov

ECO

 


ECO


Vagas são as promessas e ao longe,

muito longe, uma estrela.

 

Cruel foi sempre o seu fulgor:

sonâmbulas cidades, ruas íngremes,

passos que dei sem onde.

 

Era esse o meu reino e era talvez essa

a voz da própria lua.

Aí ficou gravada a minha sede.

Aí deixei que o fogo me beijasse

pela primeira vez.

 

Agora tenho as mãos vazias,

regresso e sei que nada me pertence

- nenhum gesto do céu ou da terra.

Apenas o rumor de breves sombras

e um nome já incerto que por mágoa

não consigo esquecer.

 

FERNANDO PINTO DO AMARAL

 

Foto de Olga Maleeva


sexta-feira, dezembro 10, 2021

CANÇÃO DA NÉVOA

 



CANÇÃO DA NÉVOA

Tristezas leva-as o vento;
Vão no vento; andam no ar...
Anda a espuma à tona de água
E à flor da noite o luar...
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Vindes dum peito que sofre?
De uma folha a estiolar?
Donde vindes, donde vindes,
Tristezas que andais no ar?
.
Eflúvios, emanações,
Saídas da terra e do mar,
Sois nevoeiros de lágrimas
Que o vento espalha, no ar...
.
Suspiros brandos e leves
De avezinhas a expirar;
Ermas sombras de canções
Que ficaram por cantar!
.
Brancas tristezas subindo
Das fontes, que vão secar!
E das sombras que, à noitinha,
Ouve a gente murmurar.
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Saudades, melancolias,
Que o Poeta vai aspirar...
Melancolias e mágoas,
Que são almas a voar.
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E o Poeta solitário
Fica a cismar, a cismar...
Todo embebido em tristezas,
Levadas na onda do ar...
.
E o Poeta se transfigura,
É a voz do mundo a falar!
E aquela voz também vai
No vento que anda no ar...
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TEIXEIRA DE PASCOAES
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Teixeira de Pascoaes. Nascido a 2 de novembro de 1877 na freguesia de São Gonçalo de Amarante, morreu a 14 de dezembro de 1952 no Solar de Pascoaes em Gatão, pertença da sua família, de onde retirou o seu nome literário pelo qual ficou conhecido
.
Art Gloria DeArcangelis

domingo, dezembro 05, 2021

PLENA NUDEZ


 


PLENA NUDEZ

Eu amo os gregos tipos de escultura:
Pagãs nuas no mármore entalhadas;
Não essas produções que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero um pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres: de carne exuberante e pura
Todas as saliências destacadas...

Não quero, a Vênus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
De transparente túnica através:

Quero vê-la, sem pejo, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, os seios
Nus... toda nua, da cabeça aos pés!

Raimundo Correia

(1860-1911)

quinta-feira, setembro 16, 2021

JÁ NÃO SE ENCANTARÃO OS MEUS OLHOS ...

 



Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.
.
Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.
.
Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.
.
Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.
.
Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.
.
...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.
.
Pablo Neruda
(Chile 1904-1973)

Foto de Karyakin Valeriy

sábado, julho 10, 2021

AS ESTRELAS

AS ESTRELAS. 

 Boas amigas, imortais estrelas,
 Eu vos comparo, oh níveas criaturas, 
 Ao ver-vos caminhar n'essas Alturas,
 A um rebanho de lúcidas gazelas.
.
 Bem se assemelha o vosso olhar ao delas, 
 Ninho de amor e ternas amarguras,
 Mas sois mais puras que as gazelas puras, 
 Boas amigas, imortais estrelas! 
.
 As vezes, levo as noites, fielmente, 
 A vos seguir aí nas nebulosas 
 Planícies como um cão triste e dormente...
 . 
 Mas vós fugis de mim!—silenciosas 
 Mergulhais no Infinito, de repente, 
 Como um bando de letras luminosas.
.
 Luís Guimarães Junior

 Foto de ALLOXA

domingo, julho 04, 2021

MAS QUE SEI EU

 


MAS QUE SEI EU
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Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
.
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
.
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
.
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
.
RUY BELO

Nasceu a 27 Fevereiro 1933
(Rio Maior, Portugal)
Morreu em 08 Agosto 1978
(Queluz, Portugal)

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Rui de Moura Belo foi um poeta e ensaísta português.
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Foto de Irina Z. 

sábado, julho 03, 2021

ANSEIOS

 



Anseios

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!...
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!

Não estendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar!...

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

domingo, junho 20, 2021

OLHAR DE AMOR... e MAR

 



Olhei bem
no fundo dos teus olhos!
Vi onde o mar se acaba,
ressoando dentro de mim
um arquipélago de sonhos
vagueando sem rumo
na sombra dos teus lábios…

Vi a tua volúpia de onda
exultante nos meus braços
quando, no teu sorriso brando,
secretamente me sorriste
entre a espuma e o céu…

Vi sede que não cessa,
transcende e enlouquece,
atrai e arrebata,
que nos faz viver
e de prazer nos mata!

 


Albino Santos

NUVENS CORRENDO NUM RIO

  NUVENS CORRENDO NUM RIO Nuvens correndo num rio Quem sabe onde vão parar? Fantasma do meu navio Não corras, vai devagar! Vais por caminhos...