quinta-feira, setembro 16, 2021

JÁ NÃO SE ENCANTARÃO OS MEUS OLHOS ...

 



Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.
.
Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.
.
Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.
.
Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.
.
Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.
.
...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.
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Pablo Neruda
(Chile 1904-1973)

Foto de Karyakin Valeriy

sábado, julho 10, 2021

AS ESTRELAS

AS ESTRELAS. 

 Boas amigas, imortais estrelas,
 Eu vos comparo, oh níveas criaturas, 
 Ao ver-vos caminhar n'essas Alturas,
 A um rebanho de lúcidas gazelas.
.
 Bem se assemelha o vosso olhar ao delas, 
 Ninho de amor e ternas amarguras,
 Mas sois mais puras que as gazelas puras, 
 Boas amigas, imortais estrelas! 
.
 As vezes, levo as noites, fielmente, 
 A vos seguir aí nas nebulosas 
 Planícies como um cão triste e dormente...
 . 
 Mas vós fugis de mim!—silenciosas 
 Mergulhais no Infinito, de repente, 
 Como um bando de letras luminosas.
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 Luís Guimarães Junior

 Foto de ALLOXA

domingo, julho 04, 2021

MAS QUE SEI EU

 


MAS QUE SEI EU
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Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
.
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
.
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
.
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
.
RUY BELO

Nasceu a 27 Fevereiro 1933
(Rio Maior, Portugal)
Morreu em 08 Agosto 1978
(Queluz, Portugal)

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Rui de Moura Belo foi um poeta e ensaísta português.
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Foto de Irina Z. 

sábado, julho 03, 2021

ANSEIOS

 



Anseios

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!...
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!

Não estendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar!...

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

domingo, junho 20, 2021

OLHAR DE AMOR... e MAR

 



Olhei bem
no fundo dos teus olhos!
Vi onde o mar se acaba,
ressoando dentro de mim
um arquipélago de sonhos
vagueando sem rumo
na sombra dos teus lábios…

Vi a tua volúpia de onda
exultante nos meus braços
quando, no teu sorriso brando,
secretamente me sorriste
entre a espuma e o céu…

Vi sede que não cessa,
transcende e enlouquece,
atrai e arrebata,
que nos faz viver
e de prazer nos mata!

 


Albino Santos

sexta-feira, junho 18, 2021

INTIMIDADE

 



INTIMIDADE
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No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,
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Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,
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No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
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JOSÉ SARAMAGO, in "Os Poemas Possíveis"
.
16 Nov 1922 // 18 Jun 2010
Escritor [Nobel 1998]
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Foto de Olga Maksimova 

quarta-feira, junho 16, 2021

De longe te hei de amar

 



De longe te hei de amar,
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo a constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?

E, no fundo do mar,
a estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.

Cecília Meireles
(1901-1964)

Art de Ann Rhoney

quarta-feira, junho 02, 2021

DESPEDIDA

 



Despedida


Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos

quando anunciaste a despedida,

e eu que habitara lugares secretos

e me embriagara com os teus gestos,

recolhi as palavras vagabundas

como a tempestade que engole os barcos

porque ama os pescadores.

 

Impossível separarmo-nos

agora que gravaste o teu sabor

sobre o súbito

e infinito parto do tempo.

 

Por isso te toco

no grão e na erva

e na poeira da luz clara,

a minha mão

reconhece a tua face de sal.

 

E quando o mundo suspira

exausto

e desfila entre mercados e ruas,

eu escuto sempre a voz que é tua,

e que dos lábios

se desprende e se recolhe.

 

Ali onde se embriagam

os corpos dos amantes,

o teu ventre aceitou a gota inicial

e um novo habitante

enroscou-se no segredo da tua carne.

 

Nesse lugar

encostámos os nossos lábios

à funda circulação do sangue,

porque me amavas

eu acreditava ser todos os homens,

comandar o sentido das coisas,

afogar poentes,

despertar séculos à frente

e desenterrar o céu

para com ele cobrir

os teus seios de neve.

 

Poema de Mia Couto

, in ‘Raiz de Orvalho’


terça-feira, junho 01, 2021

Angela Adonica

 


Angela Adonica

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.

Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.

Pablo Neruda

Pintura de Jacques Louis David

segunda-feira, janeiro 27, 2020

EM TUAS ÁGUAS ...




EM TUAS ÁGUAS ...

Em tuas águas navego
Em ti
resumo o périplo
da minha volta ao mundo.
Fora de ti,
não há saída ou rumo
É em ti
que me salvo
... ou que me afundo.
Propício Ancoradouro
amena Enseada
em ti fundeei minha jangada
em tuas águas balouça
o meu escaler.
Fora do teu Mar
eu não sou nada
sou peixe
que estrebucha na areia calcinada
da praia
... até morrer
Em ti criei raiz
Em ti habito
Em ti me reconheço
Em ti palpito
Em ti eu esmoreço
Em ti resisto
Em ti eu caio
Em ti eu me levanto
Em ti eu choro e rio
Em ti eu desisto e recomeço
Em ti eu vivo
... Em ti pereço.
É de ti
que me nutro.
Em ti mergulho
Tu és Partida e Meta
a Flecha e o Alvo.
Em ti se anula e esbate
o meu orgulho
É em ti que me perco
... ou que me salvo

ANTÓNIO MELENAS

A MINHA MUSA



MINHA MUSA

Minha musa é a lembrança
Dos sonhos em que eu vivi,
É de uns lábios a esperança
E a saudade que eu nutri!
É a crença que alentei,
As luas belas que amei
E os olhos por quem morri!

Os meus cantos de saudade
São amores que eu chorei,
São lírios da mocidade
Que murcham porque te amei!
As minhas notas ardentes
São as lágrimas dementes
Que em teu seio derramei!

Do meu outono os desfolhos,
Os astros do teu verão,
A languidez de teus olhos
Inspiram minha canção…
Sou poeta porque és bela,
Tenho em teus olhos, donzela,
A musa do coração!

Se na lira voluptuosa
Entre as fibras que estalei
Um dia atei uma rosa
Cujo aroma respirei…
Foi nas noites de ventura,
Quando em tua formosura
Meus lábios embriaguei!

E se tu queres, donzela,
Sentir minh’alma vibrar,
Solta essa trança tão bela,
Quero nela suspirar!
E dá repousar-me teu seio…
Ouvirás no devaneio
A minha lira cantar!

ÁLVARES DE AZEVEDO - Lira dos vinte anos

Foto de Sergey Ryzhkov

sexta-feira, novembro 29, 2019

O INCÊNDIO



O Incêndio
- "Ao convento! ao convento!" - Uiva de longe o vento.
É noite. E a multidão, descalça, esfomeada,
à luz de archotes, sobe a ladeira empedrada,
praguejando e gritando: - "Ao convento! ao convento!"

A onda do povo cresce e galga num momento.
Chispam ferros no ar. A porta, chapeada
de bronze, range, oscila e cai à machadada.
Nem um frade. Deserta a casa de S. Bento.

A multidão convulsa invade a portaria:
- "Fogo ao convento! fogo à igreja, à sacristia!"
O incêndio lavra, estoira o vigamento a arder.

Em baixo, o povo dança. E uma mulher grosseira
grita, rouca, atirando um Missal à fogueira:
- "Tanto livro, e ninguém nos ensinou a ler!"
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JÚLIO DANTAS
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quinta-feira, novembro 21, 2019

ÁGUAS PASSADAS





ÁGUAS PASSADAS

Sobre uns conceitos íntimos da vida
Interroguei as águas caudalosas:
As que me dão na sua voz sentida
Uma impressão de coisas tenebrosas.

Interroguei as águas que distante
Do que deixaram passam a cantar
E cuja vida é caminhar avante
Desde a nascença até fundir-se em mar.

Águas que amaram os cristais e as flores
Pelas vertentes frias das montanhas,
Cantando-nos seus límpidos amores
Em germinais de convulsões estranhas.

Águas que ouviram íntimos segredos
À rocha nua, aos lábios do granito,
Azul do céu, estrelas e arvoredos...
— Que as águas são espelhos do infinito.

E recordando-lhe os cristais e as rosas
Interroguei as águas caudalosas
Sobre o que seja esta ânsia de viver:

E ouvi então à sua voz sentida
Num tom convulso dum adeus dizer:
— Viver? É a vida sempre em despedida.

AFONSO DUARTE - Joaquim Afonso Fernandes Duarte (Ereira, 1 de Janeiro de 1884 — Coimbra, 5 de Março de 1958) .

Foto de Boris Bekelman

JÁ NÃO SE ENCANTARÃO OS MEUS OLHOS ...

  Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos, já não se adoçará junto a ti a minha dor. . Mas para onde vá levarei o teu olhar e para...