sexta-feira, novembro 29, 2019

O INCÊNDIO



O Incêndio
- "Ao convento! ao convento!" - Uiva de longe o vento.
É noite. E a multidão, descalça, esfomeada,
à luz de archotes, sobe a ladeira empedrada,
praguejando e gritando: - "Ao convento! ao convento!"

A onda do povo cresce e galga num momento.
Chispam ferros no ar. A porta, chapeada
de bronze, range, oscila e cai à machadada.
Nem um frade. Deserta a casa de S. Bento.

A multidão convulsa invade a portaria:
- "Fogo ao convento! fogo à igreja, à sacristia!"
O incêndio lavra, estoira o vigamento a arder.

Em baixo, o povo dança. E uma mulher grosseira
grita, rouca, atirando um Missal à fogueira:
- "Tanto livro, e ninguém nos ensinou a ler!"
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JÚLIO DANTAS
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quinta-feira, novembro 21, 2019

ÁGUAS PASSADAS





ÁGUAS PASSADAS

Sobre uns conceitos íntimos da vida
Interroguei as águas caudalosas:
As que me dão na sua voz sentida
Uma impressão de coisas tenebrosas.

Interroguei as águas que distante
Do que deixaram passam a cantar
E cuja vida é caminhar avante
Desde a nascença até fundir-se em mar.

Águas que amaram os cristais e as flores
Pelas vertentes frias das montanhas,
Cantando-nos seus límpidos amores
Em germinais de convulsões estranhas.

Águas que ouviram íntimos segredos
À rocha nua, aos lábios do granito,
Azul do céu, estrelas e arvoredos...
— Que as águas são espelhos do infinito.

E recordando-lhe os cristais e as rosas
Interroguei as águas caudalosas
Sobre o que seja esta ânsia de viver:

E ouvi então à sua voz sentida
Num tom convulso dum adeus dizer:
— Viver? É a vida sempre em despedida.

AFONSO DUARTE - Joaquim Afonso Fernandes Duarte (Ereira, 1 de Janeiro de 1884 — Coimbra, 5 de Março de 1958) .

Foto de Boris Bekelman

quarta-feira, novembro 20, 2019

OUTONO




OUTONO
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Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono…Tanto sono!

É bom dormir ao deus-dará…)
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E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo…
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Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto…
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Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo…?
.
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.
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David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996

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segunda-feira, novembro 18, 2019

ESPERO



Espero!


Espero!
Cada minuto é uma eternidade.
Dilúvios de saudade.
Tormentos de dor e sofrimento.
Furacões que aumentam no tempo.
Separados no vendaval da vida
Passa o que resta da corrida.
Vulcão que exala seu fogo ardente,
Tal como o sentir do amor presente.
E nesta convulsão desespero!

Que mundo atribulado
Que sentir magoado
Que viver ultrajado.

Confiante, espero!

MARIA ANTONIETA ALENTADO OLIVEIRA

sábado, setembro 14, 2019

AS PALAVRAS

AS PALAVRAS
.
São como cristal
as palavras.
Algumas, um punhal
um incêndio.
Outras
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
.
barcos ou beijos
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes
leves.
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Tecidas são de luz
e são a noite.
.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim
cruéis, desfeitas
nas suas conchas puras?
.
Eugénio de Andrade
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Pintura de Bernardino Licinio
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QUE ENCANTO É O TEU ?



QUE ENCANTO É O TEU ?
.
Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

JORGE DE SENA.

Foto de Margo_Koshevarova

sexta-feira, setembro 13, 2019

PÉTALAS DE AMOR



PÉTALAS DE AMOR
.
O amor é o carinho,
É o espinho que não se vê em cada flor.
É a vida quando
Chega sangrando aberta
em pétalas de amor.
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Vinícius de Moraes

RECORDANDO RAUL DE CARVALHO






Alvito, Baixo Alentejo
1920/09/04 - 1984/09/03

Poeta português, natural de Alvito.

Foi colaborador das revistas Távola Redonda e Árvore e Cadernos de Poesia, que, na década de 50, conglomeravam de forma irregular, mas activa, poetas de várias sensibilidades.
A obra deste poeta, onde se encontram evocações da sua infância alentejana, revela a sua ligação ao neo-realismo. A fidelidade ao humano e o estilo enumerativo e anafórico são marcas da sua poesia.
Os seus títulos englobam As Sombras e as Vozes (1949), Poesia, (1955), Mesa de Solidão (1955), Parágrafos (1956), Versos - Poesia II (1958), A Aliança (1958), Talvez Infância (1968), Realidade Branca (1968), Tautologias (1968), Poemas Inactuais (1971), Duplo Olhar (1978), Um e o Mesmo Livro (1984) e Obras de Raul de Carvalho — I — Obra Publicada em Livro (editada postumamente em 1993).
Recebeu, em 1956, o Prémio Simón Bolívar, do concurso internacional de poesia realizado em Siena, Itália.

( http://www.astormentas.com/multimedia.aspx?t=autor&id=Raul+de+Carvalho)





ANTÓNIO REBORDÃO NAVARRO-Lendo este seu trabalho, em Alvito, em 22 de Abril de 2006, no Centro Cultural, durante o I Encontro de Blogs, aí realizado e onde homenageámos os Poetas Alvitenses.









RAUL DE CARVALHO : alguma obra


Por António Rebordão Navarro



Três vectores essenciais se evidenciam na poesia de Raul de Carvalho: a solidão, o amor, a terra.
Já no seu primeiro livro, As Sombras e as Vozes, de 1949, num poema intitulado “Terra Mãe”, mais tarde reeditado numa antologia (1), se nos deparam estes versos:


Rua das Manhãs
Rua da Alegria
Quem te pôs o nome,
rua, não sabia
quanta solidão
nessa rua havia…



Ora, esta breve sextilha, com um leve sabor a Manuel Bandeira, tornar-se-á singularmente programática de uma das mais preponderantes linhas de força da importante e, apesar de tudo, discreta obra que nos legou, quase sempre editada a expensas suas e em reduzidas tiragens. Obra em que, durante trinta e cinco anos, Raul de Carvalho edificou um universo poético, um canto cheio de luz e sombra, de frescura e ardência, onde as paisagens reais e imaginárias se confundem e interpenetram, os lugares não se habitam, são criados e vivos, os espaços se compõem de carne e sonho e, em cada verso, em cada ritmo, em cada poema, a solidão persiste.
Mas, se As Sombras e as Vozes poderia ser, ao tempo da sua publicação, uma estreia feliz, ou, pelo menos, auspiciosa, no jargão crítico da época, será posteriormente à sua passagem pela revista Árvore, de que foi um dos directores e que constituiu um relevante marco na moderna poesia portuguesa, que a lírica de Raul de Carvalho mais como voz sem sombra se define, num livro simplesmente intitulado Poesia (1955).
Segundo Fernando Guimarães, que dedica parte substancial de um capítulo do seu livro Simbolismo, Modernismo e Vanguardas precisamente à ‘Revista Árvore e a definição de uma nova concepção de Poesia’, aquela publicação surgia numa altura em que


Era a uma superfície verbal cada vez mais valorizada e, ao mesmo tempo, à relação aí implicitamente assumida quanto ao homem e à cultura que, na criação literária, se começava a prestar especial atenção; havia a considerar na linguagem não só o papel que ela desempenhava como suporte de reflexão, mas também a possível função constituidora que teria relativamente aos seres e aos valores.
/

E, mais adiante:

O que, implicitamente ou, até dum modo inconsciente, se tinha em vista atingir de acordo com certas ideias que andavam no ar, tendo por base um pressuposto existencialista sobretudo defendido po Heidegger, era a possibilidade de pela própria palavra se desvendar o ser (2)

Com efeito, parece-nos que a estas premissas e à descoberta do ser pela palavra se manteve sempre fiel, a partir do seu segundo livro, a poesia de Raul de Carvalho.
Porque se, de facto, os poemas de As Sombras e as Vozes (refiro-me aos seleccionados no volume da Colecção Poesia e Ensaio) indiciavam certas características muito pessoais: anáforas, epanáforas, epanapleses, enumerações, é em Poesia, torrencial volume de 259 páginas editado pela saudosa Portugália Editora em 1955, época em que muitos romances não atingiam semelhante dimensão, que essas determinantes mais se destacam, se transformam em estilo, ou, se quiser, dão cunho à forma.
É nas três partes desta grande, muito bela e, quiçá, por então inesperada obra ( valendo-nos hoje a perspectiva de um canto global), a primeira das quais será composta por seis livros, respectivamente intitulados `Ágil e Só´, `Passatempo´, `Acordéon Selvagem´, `Sistema Solar´, `Amor e Prazer das Coisas´e `Cântico´- não se subintitulando a segunda parte e a terceira, que termina com este excepcional poema imbuído da estética que caracteriza a revista Árvore:


Lanceolada de espumas e sagrada
por vastos e remotos vendavais,
aqui me tens, indestrutível força,
e absoluta solidão do homem--,


que outros sinais específicos surgem pela primeira vez: as grafias em
itálico – são em itálico, aliás, o primeiro e o último poema de Poesia – as datas apostas em várias composições.

(Sobre o grafismo, abramos um parênteses. Ao procurar na estante os livros do poeta, saltou de um deles, A Aliança, composto e impresso na Tipografia Ideal, em Lisboa, em Outubro de 1958 (tiragem de 250 exemplares), um cartão seu que, sob a data 29-X-58, trazia, na sua caprichosa letra, estas palavras:


Meu Caro António Rebordão Navarro,
--Lembro-me de lhe dizer…
As «indicações» q. me permiti dar para a tipografia (no res-
peitante ao poema que lhe enviei) foram-me ditadas tão-só,
esclareça-se, pela ideia q. faço de que: assim composto (não
sei se em corpo 14 (como indiquei) ou 12 it.) é tal composição
a q. melhor se ajusta ao estilo, chamemos-lhe, do poema.


Creio que se referia são texto «Salve-Rainha da Vida, publicado no
nº 67, correspondente a Dezembro daquele ano, da revista Bandarra, dirigida por meu pai, mas o que mais importa é salientar o excepcional cuidado que o poeta dedicava aos seus trabalhos, cedendo-os de bom grado, mas sob a condição de rever provas, de lhes vigiar atentamente a estrutura impressa.)

Fechemos o parênteses, regressando a Poesia, onde os sistemas desbordam, as imagens exorbitam dos leitos confortáveis das palavras, onde, caudalosas, vertiginosamente, as metáforas decorrem, onde as enumerações, muitas vezes caóticas, abordam as margens do delírio.
Poesia rica, de luxuriosa linguagem, muitas vezes ultrapassando a barreira ténue, se é que a mesma existe, com a prosa (Raul de Carvalho e, posteriormente, Jorge de Sena demonstrariam o contrário, o que havia de confundir muitos espíritos), Poesia constitui-se como espaço pleno, poderoso, em que todas as orquestrações são possíveis, como uma exuberante polifonia ou um fundo alicerce, um arsenal bem apetrechado onde se originariam todas as obras subsequentes, como cintilações várias dos diversos filões de portentosa mina.
Abriria Mesa da Solidão (1955) com um poema glosando a epígrafe de Lucien Becker, «La solitude est partout», naquela forma tão cara ao poeta das enumerações consecutivas, oriunda, por certo, daqueles inventários do Surrealismo, surrealismo esse do qual a sua poética nunca se alhearia, dentro daquela mesma concepção analisada pelo autor de Simbolismo, Modernismo e Vanguardas em que «para o advento do homem social» (expressão de Ramos Rosa) «seria necessário não só evitar, como é óbvio, a escrita imediata e pura dos surrealistas, mas também a `má escrita´- como justamente dizia Cesariny-do Neo-Realismo, sem que, no entanto, se deixasse de aproveitar a experiência que revertia dessas duas atitudes» (ob. cit. P. 103).
Mesa da Solidão (que valeria ao Autor uma medalha do Prémio Simon Bolívar, atribuído pela revista italiana Ausonia e instituído e financiado pelo poeta Edoardo Crema) termina com o poema `Irei no Signo da Paz e dos Olhos´, texto dividido em diversos poemas, alguns autónomos, como o subordinado à epígrafe «Voici le temps de la raison ardente», de Apollinaire, outra forma muito peculiar a Raul de Carvalho e que será retomada no livro seguinte, Parágrafos (1956), considerando-se este, como creio deve ser considerado, um longo e unitário poema, ainda em Uma Estética da Banalidade (1972) e em outras várias obras. Mesa da Solidão é um livro em que as impetuosas torrentes de Poesia foram dominadas, depuradas, em que os poemas atingiram um grau de nitidez absoluta de primeiros planos e os próprios versos constituem claríssimos sinais, cristais de solidão.
Poesia, Mesa da Solidão e Parágrafos deveriam ser, de acordo com uma nota «não explicativa», inserta pelo poeta neste último livro, «considerados como fazendo parte de aquilo a que chamo `a minha fase polémica´. Isto ajudaria a explicar, embora desnecessariamente, as respectivas datas de publicação. E afastaria talvez (é como queiram…) a benemérita ideia das precipitações».
Uma incontida força criadora levaria, no entanto, Raul de Carvalho a publicar, em 1958, em cuidadas edições de autor mais dois livros: Versos (Poesia II) e A Aliança.
Valeria a pena salientar no primeiro os textos introdutórios retirados da Esthétique de Max Jacob: «Avoir une âme» e «La minute contient sa douleur ou sa joie et c´est de douleur ou de joie qu´est faite la poésie» e esta estrofe do poema inicial: «Num verso…Essa espécie de infinito / Que é lágrima e é luz, que é sombra e grito!», estabelecendo o tom, não somente rítmico, mas temático da obra em que, como perfeitos salmos, se inseriam momentos líricos como estes:


Amores que não amei, que passaram, que morrem.
E contudo em meu peito eternamente existem.


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Não pensas. Não sabes. Não queres. Não morreste. Dormes.
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Até para morrer se faz
Imensamente tarde


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Improvisadamente, o ar me toca…
Improvisadamente, o distribuo…
Se a hora é boa ou má, pouco me importa…
Ao nada me habituo.
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Factos. Factos. Dêem-me factos. Pois bem,
O facto, hoje, é este simplesmente:
Que eu acredito no impossível possivelmente.

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O que faz com que a gente
finalmente se habitue
a tanta mágoa em campo santo,

É ter de há muito tempo
Secado em nós o pranto.

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Concêntrico é o ser
quando tranquilo.


Dois versos de San Juan de la Cruz, « Para venir a serio todo, / no quieras ser algo en nada» antecederiam A Aliança, poema que adquire a profunda sonoridade de hino ecoando sob sólidas abóbadas e onde a condicionante se, abrindo grande parte das estrofes, não contem a carga sobre-humana de Kipling, nem a irónica acutilância de O´Neill, antes suporta, posto que em tempo a vir, lúcida, a razão:


Se o Canto não perturba nem engana
É porque está inscrito
À entrada do pórtico

Que há-de passar por aqui
Um novo Génesis

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O mundo vai abrir-se (…)


findando em som de trombeta, iluminado prenúncio:


Até que Deus suprima
A confusão dos gestos.


Poderíamos dizer que com A Aliança se encerrava um ciclo poético de Raul de Carvalho, a quem, na primeira edição da 3ª série de Líricas Portuguesas (3), Jorge de Sena dedicava esta nota:

É, pelo fôlego torrencial e pela intensidade vibrante da expressão
que tudo carreia, desde os entusiasmos fugazes às emoções mais profundas, desde as atitudes formais à dolorosa consciência da dignidade humana, um dos maiores líricos deste período. Revelada tardiamente, esta poesia, no entanto capaz da mais discreta e comovida contenção, surge, nas suas virtudes admiráveis e nos seus defeitos de excessiva enumeração apostrófica e paralalística, como uma dramática encruzilhada de cinismo e de sentimentalismo, de amoralismo e de delicado pudor, na qual perpassa um desespero anárquico constantemente dividido entre um terno sentimento e uma solidão angustiosa. Mas, da caótica desordem das emoções e do orgulhoso descuido, tão hábil, dos poemas, ficarão uma atmosfera muito peculiar de excitação poética-literária e poesias vigorosas, de uma segurança e de uma força exemplares ou de uma simplicidade perfeita.


No ano de 1959, publicaria Raul de Carvalho, em separata da revista Vértice, o poema Carta ao Pintor Desesperado Manuel Ribeiro de Pavia, mais tarde (1971), incluído em Poemas Inactuais, sucedendo-se a esta fase amplamente produtiva um concentrado silêncio de nove anos.
Singularmente, não seria de poemas, mas um longo poema em fragmentos, ditado pela pura e ressuscitante memória que os poetas possuem e manobram, o livro intitulado Talvez Infância (1968), a romper um mutismo todavia fértil, como seria demonstrado pelas datas inscritas nos poemas de Realidade Branca e de Tautologias que viriam a público no mesmo ano, em que também saiu o volume incluindo a reedição de Mesa da Solidão, de Versos (Poesia II), de A Aliança e uma selecção, por Afonso Cautela, Liberto Cruz e pelo próprio Autor, do primeiro livro, de Poesia (I) e de Parágrafos: a já referida Poesia, 1949-1958.
Cremos que Talvez Infância fosse, com o peso justo da adversativa, o título mais adequado à obra sobre um tempo passado, reconstituído milagrosamente pela escrita. Mas também Talvez Infância se pudesse chamar Talvez Solidão, Talvez Serenidade, pois de uma e de outra se compunha, entre a reelaboração, a revivicação de seres e objectos («Um dia Jano recordou-se tanto… que via as coisas por dentro e por fora… como se fossem vivas… Almas do outro mundo, vivas…», o preenchimento de desérticos lugares («Não há ninguém agora, a solidão é vasta e cúmplice; para falar só se fosse de amor»), a abolição de pavores («uma solidão que não mete medo, que não se arrepende nem pergunta, que não quer saber de nós, que ali estamos»), a reconstrução do mistério por elementos simples: «Lavar as mãos com sabão…Comer pão com azeitonas… Ter a cama junto duma parede branca, onde eu possa encostar as mãos e sentir fresco…// Vem depois o vento e leva-nos… E só deixa ficar a recordação».
`O Dia Difícil´, datado de 1955, havia muito anunciado e constituindo a primeira parte de Realidade Branca, poderia dizer-se um canto de amor sublimado em que Deus e o ser amado se perseguem muitas vezes e outras chegam mesmo a fundir-se. Os símbolos religiosos e litúrgicos são aqui evidentes e não estaria deste livro distante uma atenta leitura das obras dos místicos espanhóis. Seriam incontáveis os exemplos.
Proporemos alguns:


Deus ajuda-me a ver-te e a louvá-Lo.

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Deus serve-se de ti:

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Pergunto a Deus o que é que nos separa.

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É tempo de louvar-Te. O dia nasce.

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Ao quente coração que se abandona
Dá Deus o lençol e a cama.


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Beijar-te fora o mesmo
Que esboçar uma Cruz
Na tua boca.

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Não abandona, Deus, a pedra dos altares;

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O copo, a água, a mesa…

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Deus conversa com ele
Num tom que não se ouve

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Umas pequenas salas
Com poucas visitas
São as nossas almas
--Pequenas e aflitas
.

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Que nunca tenhas existido,
É coisa em que nunca acreditei.
Foi Deus que te criou e Deus
Não consentiria nisso.


Ainda de 1955, Religião do Mar é também um poema celebrando o amor, dimensionando-o já não como supra, teológica ou metafísica categoria, mas relacionando-o com o mar, como limpidez e extensão.
Realidade Branca, o conjunto de poemas que dá nome ao volume, é uma síntese entre símbolos místicos e profanos, resolvendo-se na celebração do corpo:


O universo não passa de dois dedos
que pertencem às tuas mãos
que o máximo que abrangem
é uma cintura.

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Agora, as minhas mãos
Voltam a ser de novo
O que eu não sou.

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Já sei que sou feliz unicamente
Quando regresso aos lábios silenciosos


Não seria despiciendo, parece-me, chamar a atenção para a epígrafe (e em Raul de Carvalho as epígrafes são muito importantes) a que o poeta subordina o texto não datado deste livro. É de René Guy Cadou e diz precisamente: «Ah! Et que je ne suis pas métaphisique…»
Como Realidade Branca, Tautologias, última obra de que nos ocuparemos, abrangeria vários livros: « Um Conto de Crianças», datado de 1957, «Tautologias», de 1958, «Taberna», de 1955, «Aleluia dos Camponeses» e «Horóscopo», de 1967.
Se o primeiro deles constituía uma maravilhosa fábula, Tautologias, encontrando a sua epígrafe-- «o tempo imovivel…»---em Irene Lisboa, a quem era dedicado, caracterizar-se-ia por um tom lapidar, despojado, incisivo («Hoje igual a ontem. / E é tudo»--«Limpar a alma / com uma vassoura. / Fora! Fora tudo o que está a mais») que talvez fizesse Jorge de Sena acrescentar, na sua nota da 3ª edição das Líricas Portuguesas que anteriormente terminava «de uma simplicidade perfeita», esta outra frase: «parecendo ser esta tendência a que ultimamente predomina».
Patentar-se-ia em «Taberna» uma angústia existencial, sartreana, mas seria em «Horóscopo», com poemas como `Família´`Se há coisa que eu sinta´ e, principalmente, em `Aleluia dos Camponeses´, que o poeta regressaria aos lugares de origem, compondo mesmo neste último livro, onde as primeiras pessoas do singular e do plural por vezes se confundem, um coral sinfónico, espraiado, pungente, tendo por tema a terra alentejana:


Tem raízes na terra o nosso canto. Daqui não saímos. Morremos para melhor saber o gosto à terra. Cantamos. Estamos sós e unidos.
Vamos matá-lo! Ao Sol!
Não há água, não há sombra, não há luz. A isso que queima, não é luz, não se chama luz. É venenoso e cruel como os nossos patrões, o Sol.



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Para nós, senhores, não chegará a hora.
Temos da morte conhecimento em vida.
Somos camponeses.


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Foi a Beleza que me procriou.


NOTAS

1) Raul de Carvalho, Poesia 1949-1958, Colecção Poesia e Ensaio, Lisboa, Editora Ulisseia, 1965, p. 10.

2) Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1982, pgs. 103, 104.

3) Líricas Portuguesas, 3ª Série, Selecção, Prefácio e Notas de Jorge de Sena. Lisboa, Portugália Editora, 1958; 3ª ed. I vol. Lisboa, Edições 70, 1984, p. 332


NAVARRO, António Rebordão (1986) COLÓQUIO Letras, número 94 Novembro de 1986 (33:41)


António Augusto Rebordão e Cunha Navarro nasceu no Porto em 1 de Agosto de 1933. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi funcionário de uma Caixa de Previdência, Delegado do Ministério Público, Director da Biblioteca Pública Municipal do Porto e Director Editorial, tendo exercido a advocacia. Secretariou e dirigiu a Revista Literária Bandarra, fundada por seu pai, o escritor Augusto Navarro. Foi co-director de Notícias do Bloqueio e director-adjunto da revista literária Sol XXI. Colaborou em diversas publicações e encontra-se representado em várias antologias. Fez parte da direcção e foi Presidente da Assembleia Geral da Associação de Jornalistas e Homens das Letras do Porto e é Vogal do Conselho Fiscal da Sociedade Portuguesa de Autores.

Romances publicados: Romagem a Creta (1964), Um Infinito Silêncio (Prémio Alves Redol, 1970), O Discurso da Desordem (1995), O Parque dos Lagartos (1981), Mesopotâmia (Prémio Internacional Miguel Torga 1984), A Praça de Liège (Prémio Círculo de Leitores, 1988), As Portas do Cerco (1992) e Parábola do Passeio Alegre (1995). Contos: Dante Exilado em Ravena (1989). Crónicas: Estados Gerais (1991). Teatro: O Ser Sepulto (1972) e Sonho, Paixão, Mistério do Infante D. Henrique. Ensaios: Domingos Pinho e o Sistema das Representações Simultâneas e Juro que sou Suspeito – O Processo de Adultério em Camilo em 15 Alíneas. Poesia: As Três Meninas e Outros Poemas (Porto,1952, Edições Augusto Navarro); Outro Caminho do Mar (Porto, 1953, Colecção Bandarra, nº 2); O Mundo Completo (Porto, 1955, Colecção Bandarra, nº 6), Os Animais Humildes (Porto, 1956, Edição do Autor); Poema para Anne Frank (Coimbra, 1958, Separata da Revista Vértice); O Dia Dentro da Noite (Porto, 1960), Notícias do Bloqueio, Aqui e Agora (Lisboa, 1962 – Ed. Sagitário); O Inverno (Porto, 1978 – Ed. O Oiro do Dia); 27 Poemas (Porto, 1988, Editora Justiça e Paz); A Condição Reflexa (Poemas, 1952-1982) (Lisboa, 1990, Imprensa Nacional-Casa da Moeda).

(In Projecto Vercial)

quarta-feira, setembro 04, 2019

A VERDADE É QUE FOMOS




A VERDADE É QUE FOMOS de RAUL DE CARVALHO 
.
A verdade é que fomos 
feitos do mesmo sangue 
violento e humilde 
.
A verdade é que temos 
ambos a graça de compreender 
todos os homens e todas as estrelas 
.
A verdade é que Deus 
nos ensinou 
que este é o tempo da razão ardente. 
.
Deus hoje deu-me um pouco 
do que toda a vida lhe pedi 
foi esta calma e simples aceitação 
de que é preciso que estejas 
longe de mim 
para que amando eu possa conservar 
o meu coração puro. 
.
As ruas hoje pareciam mais largas 
e mais claras 
.
As casas e as pessoas 
pareciam diferentes 
.
Foi só o tempo de pedir a Deus 
que prolongasse o generoso engano. 
.
Tu ensinaste-me as palavras simples 
as palavras belas 
as palavras justas 
.
E fizeste com que eu já não saiba 
falar de outra maneira. 
.
O amor substitui 
o Sol — que tudo ilumina. 
.
Sonhar contigo é quase como 
saber que existo para além de mim. 
.
Se basta que de mim te lembres 
para que o sono facilmente venha 
porque não hás-de dar-me amor a paz 
com que o meu coração de há tanto tempo sonha 
.
Vês como é tão simples 
ter o coração 
tão perto da terra 
e os olhos nos olhos 
e a alma tão perto 
da tua alma 
.
Por que será 
que quanto mais repartimos 
o coração 
maior e mais nosso ele fica? 
.
Raul Maria de Carvalho (Alvito, 4 de Setembro de 1920 — Porto, 3 de Setembro de 1984), foi um poeta português.

Foi incluído no lote dos 100 melhores poetas do século XX português, por Jorge de Sena e Eduardo Lourenço considerou-o herdeiro de Álvaro de Campos.
.
Em 1997, a Câmara Municipal de Alvito instituiu o "Prémio de poesia Raul de Carvalho". Para além de homenagear o poeta local, este prémio pretende ainda apoiar e divulgar de novos talentos.
.

terça-feira, setembro 03, 2019

RESERVO-ME O DOMINGO PARA A BUSCA



RESERVO-ME O DOMINGO PARA A BUSCA


Reservo-me o domingo para a busca
receosa e teimosa da alegria.
Meu coração devia ser alegre
como um pássaro novo,
meu coração devia ser alegre
como o vinho ou o fogo
No entanto, onde está a alegria?
onde estão as sementes da alegria?
onde vive a alegria? No entanto,
pergunto às coisas e às gentes
de domingo onde está a alegria.
Mesmo que a não encontre
destino-lhe o domingo,
este e outros domingos,
este sol e outros ventos,
este mar e outras ruas,
estas mãos e estes olhos.
Assim acho razão para não estar triste.



António Rebordão Navarro

O Dia Dentro da Noite
Poemas (1952 - 1982)


Foto de Vladimir Evdokimove


segunda-feira, setembro 02, 2019

INTIMIDADE





INTIMIDADE
.
A um floco de nuvem
murmurei segredos
que se tornaram
doces palavras de Amor
sopradas aos ouvidos do tempo…
É assim a magia
de contigo estar
em todos os momentos…
.
e em cada desencontro
Procuro-te…
recebo o teu braço na brisa,
o teu sorriso na luz,
a tua palavra em cada linha traçada
e assim…naturalmente
se tecem todos os encontros
.
Ana Fonseca,

in No Leito do Meu Pensamento 

domingo, junho 23, 2019

A AUSENTE


A AUSENTE


Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranquilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...
Vinícius de Moraes


Foto de Andrey Voytsekhov 

quinta-feira, junho 20, 2019

RETRATO DO POETA QUANDO JOVEM



RETRATO DO POETA QUANDO JOVEM
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
JOSÉ SARAMAGO

quarta-feira, junho 19, 2019

O FAROLEIRO




O FAROLEIRO
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Apenas este ilhéu é que é pequeno
O resto é tudo grande: o tédio, a vida,
O dia enorme, a noite mais comprida,

E o mar, calmo ou feroz, rude ou sereno;
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O tempo, esse narcótico veneno,
A dor, essa letárgica bebida,
O desejo, essa voz enrouquecida,
E a saudade, o distante e branco aceno.
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Tudo profundo, imenso, na amplidão,
Eterno quási na desolação
E sobrenatural na solidão.
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A luz vermelha a reflectir-se além…
Nenhum vapor que vai, nenhum que vem…
Farol e faroleiro – e mais ninguém
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CABRAL DO NASCIMENTO
1897/1978

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sábado, junho 15, 2019

EU QUERIA ...



Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
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Eu queria trazer-te uns versos muito lindos.
colhidos no mais íntimo de mim...


Suas palavras

seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...


Sim! uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.


Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel...


Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!
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Mario Quintana
(1906-1994)

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sexta-feira, junho 14, 2019

AS ROSAS



PARA QUEM TANTO GOSTA DE ROSAS...

As rosas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto de Joaquim Simões.

quarta-feira, junho 12, 2019

QUANDO ...



Quando no meu bolso não tenho nada
tenho poemas
quando no frigorífico não tenho nada
tenho poemas
quando no coração não tenho nada
nada tenho.
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ABBAS KIAROSTAMI

Abbas Kiarostami foi um poeta, cineasta, roteirista, produtor e fotógrafo iraniano.
1940-2016
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segunda-feira, abril 01, 2019

MEUS VERSOS



MEUS VERSOS de ALBANO MARTINS
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Meus versos, gritos do vento nas ramagens, 
são a minha própria alma angustiada 
a refletir imagens 
duma lenda, em mim iniciada.
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São a ternura destas mãos que escrevem 
desatinadas palavras de ansiedade. 
Meus versos são a voz da minha voz, a margem 
que há entre o sonho e a realidade.
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Meus versos 
são encontros da sombra com a luz. 
São perfis irregulares, talhados 
na emoção que os revela e os traduz.
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Meus versos 
são distâncias várias dum único caminho. 
Pássaros que abandonaram 
o calor e o âmbito do ninho.
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Albano Martins

Albano Dias Martins (Fundão, 6 de agosto de 1930 – Vila Nova de Gaia, 6 de junho de 2018) foi um poeta português.
Formado em Filologia Clássica clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa,
À data da sua morte, era professor na Universidade Fernando Pessoa, do Porto.
Foi um dos fundadores da revista Árvore e colaborador da Colóquio-Letras e Nova Renascença.
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quarta-feira, março 27, 2019

CANÇÃO



CANÇÃO
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Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
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Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
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O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
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Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
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Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
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CECÍLIA MEIRELES
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Nasceu a 07 Novembro 1901
(Rio de Janeiro, Brasil)
Morreu em 09 Novembro 1964
(Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil)
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Cecília Benevides de Carvalho Meireles foi uma poetisa, pintora, professora e jornalista brasileira. É considerada uma das vozes líricas mais importantes das literaturas de língua portuguesa.
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O INCÊNDIO

O Incêndio - "Ao convento! ao convento!" - Uiva de longe o vento. É noite. E a multidão, descalça, esfome...