Avançar para o conteúdo principal

NOCTURNO





Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!"

ANTERO DO QUENTAL

Comentários

MARIA disse…
" E tu entendes o meu mal sem nome " ...
Como é profundo e belo neste poema Antero de Quental.
tulipa disse…
Olá querido amigo

nem sei como
vim cá ter
e recordar outros tempos
que era assídua visitante.

Por vezes
perdemo-nos
e, um dia
regressamos.

Gosto de Antero de Quental,
obrigado pela partilha.

Leio
várias pessoas dizendo
que todos nós temos,
num dado momento,
vontade de nos afastarmos deste mundo virtual,
onde às vezes a mentira e a intriga crescem como ervas daninhas.

Já pensei afastar-me daqui,
mas não consegui.
Fechei o kalinka
e, que fiz eu?
Abri logo 2 blogues
em vez de um...
Porque a necessidade de escrever e partilhar é muito maior.
E cá estou
e estarei enquanto puder.

EU PRECISO.

Hoje convido a ver
o que captei ontem
assim que cheguei ao local
onde se faziam os preparativos
para a REGATA no Tejo.

Improvisei
umas palavras minhas
juntei às imagens que fiz
e...eis um novo post.

Agradeço que veja
e, muito sinceramente
dê a sua opinião.

abraços
de muita amizade.
Não sou poeta mas gosto de poesia.
E aqui vai uma à laia de desabafo.

O dia ainda tardava,
e o camponês caminha,
p'ró trabalho que distava,
e a chuva cai miudinha,
ao nascer do Sol,começava
o labor,até à noitinha.
Mas se a chuva não parava,
sua faina então largava.

Mas por vezes acontecia,
após grande caminhada,
dada a chuva que caía,
ficar a roupa encharcada,
e esperando que o Sol viria,
p'ra poder ganhar a jornada.
Mas se a chuva não parar,
volta a casa sem ganhar.

Como não bastasse o cansaço,
pela enorme caminhada,
e não dobrar o espinhaço,
devido à grande chuvada,
nem dinheiro p'ró bagaço,
tinha,e em casa agastada,
dizia-lhe então a mulher:
-Pois seja o que Deus quizer!.

Mesmo de sol a sol trabalhando,
levando uma vida amargurada,
o camponês mal ia ganhando,
para comporar a sua enxada,
e o merceeiro lá ia fiando,
pois a jornada era minguada.
Só o médio ou grande lavrador
lucravam com a penúria e a dôr.

Mensagens populares deste blogue

Cantiga para não morrer de Ferreira Gullar

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve. 
.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
.
Ferreira Gullar

Como a noite descesse...

Como a noite descesse e eu me sentisse só,
só e desesperado diante dos horizontes que se fechavam,
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível Aurora!
e vi logo que só as estrelas é que me entenderiam.
Era preciso esperar que o próprio passado desaparecesse,
ou então voltar à infância.
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo:
- É por aqui!

Onde, entretanto, quem me disesse
ao espírito cego:
- Renasceste: liberta-te!

Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...
se só as estrelas é que me entenderiam?

Emílio Moura



Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902Dores do Indaiá28 de setembro de 1971Belo Horizonte) foi um poetamodernista, integrante do grupo de modernistas mineiros que ajudaram a revolucionar a literatura brasileira na década de 1920. Foi redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais. Moura foi também professor universit…

SE FOSSES ...

Se fosses luz serias a mais bela De quantas há no mundo: – a luz do dia! – Bendito seja o teu sorriso Que desata a inspiração Da minha fantasia! Se fosses flor serias o perfume Concentrado e divino que perturba O sentir de quem nasce para amar! – Se desejo o teu corpo é porque tenho Dentro de mim A sede e a vibração de te beijar! Se fosses água – música da terra, Serias água pura e sempre calma! – Mas de tudo que possas ser na vida, Só quero, meu amor, que sejas alma!

António Botto
Foto de Aleksandr Krivickij