QUANDO EU MORRER...
Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos,
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro
como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se então tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.
Eu, Marco Pólo,
farei a nebulosa travessia,
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento. Abarca
nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.
Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.
Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul, do céu, cansado de lá estar.
E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora
assim, mente. E se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino!
(Alvaro Feijó)
Álvaro de Castro e Sousa Correia Feijó (1916-1941)
Poeta, nascido a 5 de Julho de 1916, em Viana do Castelo, morreu, a 9 de Março de 1941, quando ainda não completara os vinte e cinco anos de idade. A sua obra poética, imbuída de um erotismo juvenil e de simbologias viradas para antigas vivências assume características revolucionárias, tendo sido publicada em revistas como: Sol Nascente, O Diabo, Altitude e Seara Nova e, postumamente, no Novo Cancioneiro.
Foto de Sonja Hunecken
1 comentários:
É tão lindo este poema, tão extraordinariamente belo. Sinto cada uma das suas palavras como uma lágrima que cai encantada sobre a pele e a enche de calor e brilho, ou como beijos. É lindo.
Eu que sempre imaginei morrer ainda jovem sonhava morrer assim nos braços de quem amasse por forma a não me perder deles na nova forma que o meu espírito adoptasse . Beloooooo! Obrigado
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