sexta-feira, outubro 07, 2016
ODE PAGÃ
Viver! - O corpo nu, a saltar, a correr
Numa praia deserta, ou rolando na areia,
Rolando, até ao mar... (que importa o que a alma
anseia?)
Isto sim, é viver!
O Paraíso é nosso e está na terra. Nós
É que temos o olhar velado de incerteza;
E julgamos ouvir a voz da Natureza
Ouvindo a nossa voz.
Ilusões! O triunfo, o amor, a poesia...
Não merecem, sequer, um dia à beira-mar
Vivido plenamente, - a sorver, a beijar
O vento e a maresia.
Viver é estar assim, a fronte ao céu erguida,
Os membros livres, as narinas dilatadas;
Com toda a Natureza, em espírito, as mãos dadas
- O resto não é vida.
Que venha, pois, a brisa e me trespasse a pele,
Para melhor poder compreendê-Ia e amá-Ia!
Que a voz do mar me chame e ouvindo a sua fala,
Eu vá e seja dele!
Que o Sol penetre bem na minha carne e a deixe
Queimada para sempre! As ondas, uma a uma,
Rebentem no meu corpo e eu fique, ébrio de espuma,
Contente como um peixe!
Carlos Queiros
José Carlos de Queirós Nunes Ribeiro, ou simplesmente Carlos Queirós (Lisboa, Santos-o-Velho, 5 de Abril de 1907 – Paris, 27 de Outubro/28 de Outubro de 1949), foi um poeta português.
Foto de José Ferreira-Olhares
sexta-feira, setembro 30, 2016
AS RAÍZES DO NOSSO AMOR

Amo-te porque tudo em ti me fala de África,
duma forma completa e envolvente.
Negra, tão negramente bela e moça,
todo o teu ser me exprime a terra nossa,
em nós presente.
Nos teus olhos eu vejo, como em caleidoscópio,
madrugadas e noites e poentes tropicais,
- visão que me inebria como um ópio,
em magia de místicos duendes,
e me torna encantado. (Perguntaram-me: onde vais?
E não sei onde vou, só sei que tu me prendes...)
A tua voz é, tão perturbadoramente,
a música dolente dos quissanges tangidos
em noite escura e calma,
que vibra nos meus sentidos
e ressoa no fundo da minh'alma.
Quando me beijas sinto que provo ao mesmo tempo
o gosto do caju, da manga e da goiaba,
- sabor que vai da boca até às vísceras
e nunca mais acaba...
O teu corpo, formoso sem disfarce,
com teu andar dengoso, parece que se agita
tal como se estivesse a requebrar-se
nos ritmos da massemba e da rebita.
E sinto que teu corpo, em lírico alvoroço,
me desperta e me convida
para um batuque só nosso,
batuque da nossa vida.
Assim, onde te encontres (seja onde estiveres,
por toda a parte onde o teu vulto fôr),
eu te descubro e elejo entre as mulheres,
ó minha negra belamente preta,
ó minha irmã na cor,
e, de braços abertos para o total amplexo,
sem sombra de complexo,
eu grito do mais fundo da minh'alma de poeta:
- Meu amor! Meu amor!
Geraldo Bessa Victor
Luanda-1917 / Lisboa-1990
Foto de Marc Hoppe
quarta-feira, setembro 28, 2016
PRAIA
PRAIA
Feliz, quem sabe, o vento. Sem memória,
beijando-me nos lábios, ele abraça
o meu destino às cegas na paisagem.
É sempre nesse instante que regresso
à poalha do céu onde começa
talvez a maldição, talvez o encanto
de invocar-te em silêncio. Porque, eu sei,
entre palavras morre a cor dos sonhos,
o vão pressentimento de estar vivo.
Feliz talvez o vento e no entanto,
arrasta ainda areia e vagas vozes
na praia ao abandono. A luz da tarde
encobriu-se de névoa, só o mar
ficou perto de mim - agora é simples:
as ondas trazem novo o teu sorriso,
movem o seu abismo nos meus olhos,
mas lágrimas nenhumas vão salvar-me o corpo,
a alma, as cinzas, esta vida.
Fernando Pinto do Amaral
Pintura - Betty Martins
Pintura - Betty Martins
terça-feira, setembro 20, 2016
PALAVRAS
Palavras que se dizem ao ouvido
quando nos queima a febre do desejo
e só ganham sentido
se saírem dos lábios como um beijo.
quando nos queima a febre do desejo
e só ganham sentido
se saírem dos lábios como um beijo.
Palavras murmuradas no calor
da mútua entrega
a deixar claro que o amor
nunca sossega.
Palavras revestidas de veludo
para afagar a vida
e que no meio da corrida
são elas próprias quase tudo.
Torquato da Luz
Pintura de Betty Martins
terça-feira, setembro 13, 2016
TER - TE
Ter-te longe
e desejar-te aqui,
onde o frémito do corpo acontece.
Aqui, lugar onde
o vício dos olhos e das mãos me inquieta.
e desejar-te aqui,
onde o frémito do corpo acontece.
Aqui, lugar onde
o vício dos olhos e das mãos me inquieta.
Ah, ter-te perto
suster a respiração,
cerrar os olhos
e deixar que tudo comece
e acabe em ti.
suster a respiração,
cerrar os olhos
e deixar que tudo comece
e acabe em ti.
Ensaiar o voo da águia
e suavemente planar sobre a superfície
sinuosa do teu corpo perfeito
no asa-delta da paixão.
e suavemente planar sobre a superfície
sinuosa do teu corpo perfeito
no asa-delta da paixão.
Ter-te perto,
sentir o perfume da tua presença
pelo calor do corpo,
pela claridade dos olhos
e pensar
que o sol e a alegria
de cada manhã,
nascem exatamente em ti.
sentir o perfume da tua presença
pelo calor do corpo,
pela claridade dos olhos
e pensar
que o sol e a alegria
de cada manhã,
nascem exatamente em ti.
MIGUEL AFONSO ANDERSEN, in “Circum-Navegações” (Raiz perturbada)
Foto de Oleg Obukhov
Foto de Oleg Obukhov
domingo, setembro 11, 2016
AMOR AMANTE
Ah, esse teu perfume que me deixa
saudade e desperta doce lembrança,
ainda está em minhas mãos…
Ah, esse teu olhar que minh’alma invade
e me desnuda a ser em louco desejo,
e desperta doce lembrança,
ainda está em meu olhar…
Ah, esse teu corpo que se entrega
e se perde na carícia, no beijo,
e que recebe meu corpo quase cego,
e desperta doce lembrança,
ainda sinto ao meu lado…
Ah, esse amor que me consome,
maltrata sufoca e conforta,
é alimento, é vida, sabor de pecado…
faz renascer minh’alma quase morta…
Ah, essa saudade que sinto a
todo instante…
e desperta doce lembrança,
a certeza de que vivo,
de que amo… e sou amante…
Carlos Saad
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Pintura de Rodica Toth Poiata
sábado, setembro 10, 2016
ORDEM DO DIA

ORDEM DO DIA
Homens novos temperados pela guerra,
das fábricas enormes e cinzentas
- rasgai poemas na terra
com as vossas ferramentas!
.
Homens das oficinas e dos cais,
dos campos e da faina sobre o mar
- porque não ensinais
os poetas a cantar?
dos campos e da faina sobre o mar
- porque não ensinais
os poetas a cantar?
.
Algemados - não importa por que leis -
seja qual for a vossa raça e a vossa casta,
vinde dizer o que sabeis!
- Por agora é quanto basta.
seja qual for a vossa raça e a vossa casta,
vinde dizer o que sabeis!
- Por agora é quanto basta.
.
Vinde das minas, dos fornos, das caldeiras,
vergados da descarga do carvão!
Vinde! Porque chegou enfim o dia
de apressar a tarefa inconcluída!
vergados da descarga do carvão!
Vinde! Porque chegou enfim o dia
de apressar a tarefa inconcluída!
.
- E a poesia, esta poesia,
é um facho que vai de mão em mão
pelos caminhos da vida.
é um facho que vai de mão em mão
pelos caminhos da vida.
.
Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "Companheira dos Homens"
(1920-1982)
In "Companheira dos Homens"
Pedro Sidónio de Araújo Muralha (Lisboa, 28 de julho de 1920 - Curitiba, 8 de dezembro de 1982) foi um escritor português.
Ainda muito jovem colaborou com revistas e publicações literárias de algum modo associados ao que viria a ser o neo-realismoportuguês (como por exemplo "Mocidade Académica" e "Solução").
Em 1941, incentivado por Bento de Jesus Caraça, publicou o seu primeiro livro de poesia: Beco. Integrou o movimento neo-realista e os agrupamentos lisboetas desta corrente literária, onde em conjunto com Armindo Rodrigues, Joaquim Namorado, Fernando Namora ou Mário Dionísio foi uma das figuras de proa. Com a obra Passagem de Nível(Coimbra, 1942) fez parte do chamado Novo Cancioneiro, coleção que reuniu obras poéticas de vários autores contestatários do regime salazarista.
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Pintura de Tarsila do Amaral.
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quinta-feira, setembro 08, 2016
A LOUCURA DO POETA

Que a voz do Poeta não se cale
Que os olhos do Poeta não se fechem
Que os seus versos sejam a sirene
Que alerta toda a gente à sua volta
Que o poema seja o grito inconformado
Dos braços que se erguem na revolta
Contra os braços curvados e a cerviz
Submissa ao peso da opressão
Que o poema seja sempre vertical
Um relâmpago enorme em noite escura
Que o Poema seja uma canção
E rasgue o medo em mil pedaços
Com versos de amor e de ternura
Espalhados por mil bocas e mil braços
Que o Poeta seja mais que um ser humano
E que tanja a lira do seu canto
Elevando a Poesia até ao céu
E que entregue aos homens o seu Fogo
Assumindo o papel de Prometeu..
Quando o Poeta escreve por Amor
A palavra torna-se a armadura
Com que o Homem vence a própria dor
E destrói o vírus da amargura...
É louco, o Poeta? Deixem lá:
O mundo precisa da loucura...
FERNANDO PEIXOTO
No Palco da Saudade : Fernando Peixoto
http://www.jornalaudiencia.pt/index.php/opiniao/4315-no-palco-da-saudade-fernando-peixoto
quarta-feira, setembro 07, 2016
SE UM DIA A JUVENTUDE VOLTASSE

Se um Dia a Juventude Voltasse
se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida
sulcaria com as unhas o medo de te perder...eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor
depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo
mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição
Al Berto
in 'Rumor dos Fogos'
Foto de ilya Shubin
terça-feira, setembro 06, 2016
ÁRVORE DE FRUTOS
Cheiras ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.
Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.
No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.
Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!
do meu bairro antigo do musseque!
- António Mendes Cardoso - poeta angolano
Foto de Pascal Renoux
quarta-feira, julho 22, 2015
AMOR VIVO
AMOR VIVO
Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser - e não só beijos
Dados no ar - delírios e desejos -
Mas amor... dos amores que têm vida...
Que penetre o meu ser - e não só beijos
Dados no ar - delírios e desejos -
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará o sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?
© ANTERO DE QUENTAL
In Sonetos, 1861
In Sonetos, 1861
Foto de Eriks Racenis
sexta-feira, julho 17, 2015
UM ROSTO
Um Rosto
Apenas
uma coisa inteiramente transparente:
o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu
próprio, que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.
uma coisa inteiramente transparente:
o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu
próprio, que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.
NUNO JÚDICE
Foto de Sergey Eliseev
sexta-feira, junho 19, 2015
EM FRENTE DO MAR
Pergunto a mim próprio em que noite nos perdemos?,
que desencontro nos levou de um a outro lado das
nossas vidas? e que caminhos evitámos para que os nossos
passos se não voltassem a cruzar ? Mas as perguntas que
te faço, hoje, já não têm resposta. Sento-me contigo,
nesta mesa da memória, e partilho o prato da solidão. Tu
na cadeira vazia onde te imagino, sacodes o cabelo com
um aceno de ironia. E dou-te razão: as coisas podiam
ter sido de outro modo. Não te disse as palavras que
esperaste; e havia o mar, com as suas ondas, nessa tarde
em que me puxaste para longe da cidade, como se
a noite não nos obrigasse a voltar, quando o horizonte
se apagou à nossa frente. Depois disso, nenhuma
pergunta tem resposta. O que é absurdo há-de continuar
absurdo, como o horizonte não se voltou a abrir,
trazendo de volta os teus olhos que me pediam que
os olhasse, até que a noite me impedisse de o fazer.
NUNO JÚDICE
O Estado dos Campos
O Estado dos Campos
Foto de Alex Krivtsov
quarta-feira, maio 27, 2015
POEMA PARA TI !
POEMA PARA TI !
Habitas o silêncio dos meus olhares
Ainda que minhas mãos me delatem
Tem a saudade esta urgência desmedida
Desejosa por ser expressa, anunciada
Grafitando os muros contidos da ausência
Os dedos surpreendem a vigília dos olhos
E é teu nome que transborda na página
Deixando-se escrever nos lábios da palavra
Sobram-me ternuras, quando digo-te em mim
Sobram-me vontades, quando penso-me em ti
Enquanto me faltas, insinuo-me em poesias
São meus versos ressonâncias de ti
Melodias inequívocas, que te dedilham
Entrelaçando sensações e gestos
Que cedem as confissões do recordar
Apascenta-me o percorrer das minhas mãos
Pela alameda das letras, onde vou esculpindo
Horizontes apenas pretendidos e sonhados
Sussurrando e afagando as metáforas
Que nem sempre as linhas adivinham
Nada sei dessas tuas distâncias de mim
Não assimilo ou percebo esta ausência
Nem qualquer hiato no saber de ti
Guiam-se para ti os barcos do meu pensar
Quando em qualquer rota, destino-me
E sinto em mim tua boca tão próxima
Que a ânsia do meu beijo, mistura-se ao teu
Meus mapas somente conhecem os caminhos
Onde nossos olhares se unem
Em algum lugar chamado saudade
Fernanda Guimarães
Foto de Giada Lysa
quinta-feira, maio 21, 2015
RAZÕES DE AMOR
Razões de amor...
I
Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...
Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...
Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...
Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...
Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...
Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...
II
Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;
de teu ventre – uma enseada
– porto sem cais e sem mar –
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;
– do teu corpo só de alvuras
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...
Gosto de ti
desesperadamente;
gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...
(J.G. de Araújo Jorge)
Foto de Sergey Ryzhkov
terça-feira, maio 19, 2015
POEMA DA DESPEDIDA
Poema da despedida
Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo
MIA COUTO
sexta-feira, maio 01, 2015
SAUDADE
SAUDADE.
Por que sinto falta de você? Por que esta saudade?
Eu não te vejo mas imagino suas expressões, sua voz, teu cheiro.
Sua amizade me faz sonhar com um carinho,
Um caminhar, a luz da lua, a beira mar.
Saudade este sentimento de vazio que me tira o sono
me fazendo sentir num triste abandono, é amizade eu sei, será amor talvez...
Só não quero perder sua amizade, esta amizade...
Que me fortalece me enobrece por ter você.
Machado de Assis.
Machado de Assis (1839 - 1908) foi um escritor e poeta brasileiro. Foi o fundador da Academia Brasileira de Letras.
foto de Александр Макеев
domingo, abril 26, 2015
QUANDO TE VI
QUANDO TE VI
A manhã era clara, refulgente.
Uma manhã dourada. Tu passaste.
Abriu mais uma flor em cada haste.
Teve mais brilho o sol, fez-se mais quente.
E eu inundei-me dessa luz ardente.
Depois não sei mais nada. Olhei... Olhaste...
E nunca mais te vi. . . - Raro contraste! –
A madrugada transformou-se em poente.
Luz que nasceu e apenas cintilou!
Deixou-me triste assim que se apagou,
às vezes fecho os olhos; vejo-a ainda...
E há tanto sol dourando esses trigais!
Olhaste, olhei, fugiste... Ai, nunca mais,
nunca mais tive outra manhã tão linda!
Virgínia Vitorino
1895-1967
Foto de Alla S.
domingo, abril 19, 2015
REGRESSO
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina (1943 - 2012)
.
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domingo, abril 12, 2015
SONETO DO CATIVO
Soneto do Cativo
Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;
o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;
se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;
não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!
David Mourão-Ferreira.
sábado, março 28, 2015
NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS
NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS
Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos
ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.
e por dentro das casas onde nos amámos
ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.
Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor.
Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes
a nossa alma líquida e atormentada
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor.
Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes
a nossa alma líquida e atormentada
desvendará em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.
Joaquim Pessoa.
Foto de Hamanov Vladimir
quinta-feira, março 05, 2015
AMIZADE
De mais ninguém, senão de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: "Espera e confia!"
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.
Carlos Queirós (Poeta Português, 1907-1949)
Foto de Рябок Андрей
AMO-TE POR TODAS AS RAZÕES E MAIS UMA
Amo-te por todas as razões e mais uma
Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.
Joaquim Pessoa em Ano Comum
Foto de Sergey Ryzhkov
Foto de Sergey Ryzhkov
domingo, março 01, 2015
O TEU SORRISO
O TEU SORRISO
Sorrio ao ver o teu sorriso
no rosto das crianças
encontro o teu sorriso
em tudo por onde passo
reparo nas pessoas
que revelam o teu sorriso
sorrio ao pensar em ti
recordando o teu sorriso
olho o espelho
onde se reflecte o teu sorriso
Foge o tempo e mais tempo
sempre me acompanha o teu sorriso
passo os dias e as noites
sonhando com o teu sorriso
esse sorriso
me chama
me atrai
me sufoca
é por esse sorriso
que te amo
que te quero
que me perco
sempre
quero sempre lembrar
esse sorriso.
28Fev2015
Lumife
foto de Igor
sexta-feira, fevereiro 13, 2015
PORQUE EXISTES...
De ti, quero apenas a saudade
dum passado nosso, há tanto tempo
de ti, quero apenas a verdade
dum tempo loucura e sentimento.
Nada te peço, nada mais desejo
que a pálida sombra dessa era
vida em que tivemos o ensejo
de vivermos os dois em primavera.
Depois, foi o adeus, outras viagens;
e perdidos na bruma do instante
perdemo-nos de nós e fomos tristes...
encontrei-te hoje; outras paragens
vai-se a bruma com o sol radiante
e sou de novo feliz, pois tu existes!...
MARIA MAMEDE
NÃO DEIXES...
NÃO DEIXES...
Não deixes que meus dedos se entrelacem
nos fios da saudade;
Não deixes que meus olhos entardeçam
na luz doutros olhos
nem que outros beijos sulquem a minha boca
se são os teus que ela procura...
não deixes que meus dedos se espraiem
noutra almofada
que meu corpo, ávido de carícias
estiole noutros braços
que minha alma
padeça as raivas da perdição
por ser doutro a cama, o corpo a essência...
não deixes que sequem em mim
as flores da recordação
os prados da esperança
os rios do amor;
não deixes que meus dedos
se entrelacem
nos silvados da dor!...
nos fios da saudade;
Não deixes que meus olhos entardeçam
na luz doutros olhos
nem que outros beijos sulquem a minha boca
se são os teus que ela procura...
não deixes que meus dedos se espraiem
noutra almofada
que meu corpo, ávido de carícias
estiole noutros braços
que minha alma
padeça as raivas da perdição
por ser doutro a cama, o corpo a essência...
não deixes que sequem em mim
as flores da recordação
os prados da esperança
os rios do amor;
não deixes que meus dedos
se entrelacem
nos silvados da dor!...
MARIA MAMEDE
Foto de Dobrijan Aleksandr
"É lindo este poema..... não deixarei que te esqueças de mim pq eu tb jamais te esquecerei..... " 28jun2011-momentos
terça-feira, fevereiro 10, 2015
SAUDADE
SAUDADE.
Por que sinto falta de você? Por que esta saudade?
Eu não te vejo mas imagino tuas expressões, tua voz, teu cheiro.
Tua amizade me faz sonhar com um carinho,
Um caminhar, a luz da lua, a beira mar.
Saudade este sentimento de vazio que me tira o sono
me fazendo sentir num triste abandono, é amizade eu sei, será amor talvez...
Só não quero perder tua amizade, esta amizade...
Que me fortalece me enobrece por ter você.
Eu não te vejo mas imagino tuas expressões, tua voz, teu cheiro.
Tua amizade me faz sonhar com um carinho,
Um caminhar, a luz da lua, a beira mar.
Saudade este sentimento de vazio que me tira o sono
me fazendo sentir num triste abandono, é amizade eu sei, será amor talvez...
Só não quero perder tua amizade, esta amizade...
Que me fortalece me enobrece por ter você.
Machado de Assis.
foto da net
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