quinta-feira, julho 21, 2005

Alentejo



"«Terra» por excelência, nem rocha, nem hortejo, nem pinhal, terra vasta, grave, sortílega, fecunda, envolvente, terra chã – do áspero montado, dos sobreirais sangrentos, charnecas e olivais, e das searas com que os olhos comungam o infinito – o Alentejo é das províncias de Portugal aquela que na nossa literatura aparece como figura sobressalente e decisiva mesmo quando devera ser cenário.

É a sua grandeza, no quadro geográfico português, grandeza não só feita de extensão mas sobretudo de feitio, que a sua gente reflecte, gente do espaço vazio, que nada ou quase nada possui, materialmente, e, por isso mesmo, em certos momentos, como que possui tudo. Nos planaltos e nas planícies medram as searas humanas destinadas aos maiores cometimentos, essas que em longas apatias incubam o sonho e depois, de chofre, à sua imagem, o esfolham no vento. Nas ondas das messes alentejanas viu Miguel Torga o prenúncio dos mares das Descobertas. Outros mares interiores cachoam silenciosamente, grandes heroísmos secretos, sonâmbulos e perdidos, na calma luminosa dos montados. Caracteres afeiçoados pela paisagem, que tem a nobreza da serenidade, temperados pela solidão e pela pobreza, por uma lisa pobreza vertical – tais, como uma emanação da terra alentejana, seu fruto e seu sangue, os místicos alentejanos (místicos com ou sem Deus), tímidos e orgulhosos, os mais fraternos dos portugueses, homens, através dos tempos, de chapéu na cabeça, de mãos vazias, o ar severo e triste, prestes a colherem o amor ou o ódio, a medirem-se, instintivamente, pelo seu espaço."



(Excerto de O Alentejo - Urbano Tavares Rodrigues)

quarta-feira, julho 20, 2005

Saudade imensa

Recebi da Olinda, amiga de longa data e companheira de muitos bons momentos, vividos na terra que trago no coração, este poema que não resisti em publicar.


Lembras-te ?

Eras criança grande …

Tinhas sonhos, ilusões,

Que tu acalentavas,

Dentro dos livros que usavas.

Tinhas amores reprimidos,

Que te faziam sonhar,

Tinhas momentos vividos,

Que não podias contar.




Anos passados...

Depois...

De tudo podes falar.




Da amizade que nos unia ,

Das «partidas» que fazíamos,

Dos pontos que copiávamos,

Dos amores que escondíamos,

Pelos colegas que amávamos.




Anos passados...

Depois...




Neste dia encontrámos,

Os jovens que então fomos,

E,lembrando o passado,

Recordámos lado a lado,

Numa saudade imensa,

Sem mágoa e em presença.

Os jovens que foram passado.

(Olinda B.)

terça-feira, julho 19, 2005

À Maneira de Horácio

Feliz aquele que disse o poema ao som da lira

À mesa do banquete entre os amigos

E coroado estava de rosas e de mirto



Seu canto nascia da solar memória dos seus dias

E da pausa mágica da noite -

Seu canto celebrava

Consciente da areia fina que escorria

Enquanto o mar as rochas desgastava



(1994-Sophia de Mello Breyner Andresen)

Castelo de Alvito - Pousada

INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...