domingo, março 19, 2006








TRECHO DO POEMA "O PAI".


Certa vez, como os irmãos

pusessem em mim trinta apelidos

querendo me degradar

chamando-me de "guga"

"tora", "manduca" e "júpiter",

certa noite, notando-me a tristeza

levou-me pro quintal

entre couves e chuchus:

mostrou-me Júpiter, a enorme estrela

e outras constelações: peixes

touros, centauros, ursas maiores e menores

tudo a brilhar em mim

estrelas que com ele eu distinguia

e desde aquela noite

nunca mais pude encontrar


Textamentos

Autor
Affonso Romano de Sant'Anna

sábado, março 18, 2006




EM BUSCA DO AMOR



O meu Destino disse-me a chorar:

"Pela estrada da Vida vai andando,

E, aos que vires passar, interrogando

Acerca do Amor, que hás-de encontrar."



Fui pela estrada a rir e a cantar

As contas do meu sonho desfiando...

E a noite e dia, à chuva e ao luar,

Fui sempre caminhando e perguntando...



Mesmo a um velho eu perguntei: "Velhinho,

Viste o Amor acaso em teu caminho?"

E o velho estremeceu... olhou...e riu...



Agora pela estrada, já cansados,

Voltam todos pra trás desanimados...

E eu paro a murmurar: "Ninguém o viu!..."



(Florbela Espanca)

sexta-feira, março 17, 2006





O MEU CAMINHO

Caminhando no verso e no reverso
Que busco entre penumbras e tristezas?
Se de todas as mais duras incertezas
Até a mim confundo e me disperso?

Se cheguei até aqui, foi por te amar!
Para quê então todos os meus passos
Se na hora de chegar para te abraçar
Não puder ter-te nos meus braços?

És a parte de mim que falta e dói
De ti distante, a outra parte sou eu.
Sou cada sorriso que de mim se foi
Sou a parte de mim que se perdeu.

Mas nesta vã e pressentida incerteza
O poema diz que o meu longe é aqui.
Mesmo tendo contra mim a natureza
Eu sei que o meu longe está em ti…

Outra Voz do Frog



Nota: Agradeço ao Frog este momento de inspiração.
Espero que não leve a mal a colocação do seu poema no meu blog sem a sua prévia autorização.

quinta-feira, março 16, 2006

terça-feira, março 14, 2006

Regresso

Flor-conversando...Foto de Paulo Nogueira-1000 Imagens





Um dia, eu hei-de ser pássaro azul
que voará, em louco desatino,
numa alvorada branca, rumo ao sul
para cumprir de vez o meu destino.


Irei, à sombra fresca dum chaparro,
deitar toda esta dor que há no meu peito,
e quero na terra rubra, cor de barro
viver os velhos sonhos, ao meu jeito!


Nas searas maduras e douradas,
quando colher papoilas encarnadas,
hei-de esquecer os trilhos da má sorte.


Meu Alentejo,…hino de pureza,
trago comigo sempre esta certeza,
que te hei-de amar até,…para além da morte!


Orlando Fernandes in Alentejo…e outros poemas








A L J U S T R E L




Dia 21 de Março pelas 21H30 -À VOLTA DA LÍNGUA NO DIA MUNDIAL DA POESIA



“Inscrever a poesia na cena, escrever a poesia em cena, tomar emprestadas as palavras dos outros e torná-las nossas” é esta a concepção do espectáculo À Volta da Língua, com o qual a Biblioteca Municipal de Aljustrel comemora, uma vez mais, no dia 21 de Março, o dia Mundial da Poesia.

A homenagem ao dia dedicado ao trabalho de todos os poetas, da autoria da Associação Artística Andante, irá realizar-se pelas 21:30, no Auditório da Biblioteca Municipal.

À Volta da Língua pretende dar vida aos textos de autores como Luís Vaz de Camões, Eça de Queirós, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, Manuel Alegre, Vinícius de Moraes, Sophia de M. B. Andresen, Agostinho Neto, Mia Couto, entre outros, num elogio à língua portuguesa.

O espectáculo de teatro sobre poesia vai além da simples declamação de poemas, apresenta em palco um cenário onde as palavras se cruzam com a música, procurando mostrar diferentes leituras dos textos, evidenciando-os na sua forma, conteúdo e sonoridade.

Esta “peça” pretende surpreender e despertar a atenção dos mais desinteressados ao recorrer a temas do quotidiano como o amor, a amizade, o poder.



Dia 23 de Março a partir das 10H00-ENCONTRO DE TÉCNICOS DOS GABINETES MUNICIPAIS DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO

A Câmara Municipal de Aljustrel irá promover o 1.º Encontro de Técnicos dos Gabinetes Municipais de Apoio ao Desenvolvimento, no próximo dia 23 de Março, a partir das 10 horas, no Auditório da Biblioteca Municipal de Aljustrel.

Este encontro surge na sequência de sugestão feita no decurso das acções de formação, “Ciclos de Encontros Temáticos” promovida pela Associação de Municípios do Baixo Alentejo e Alentejo Litoral, ficando expressa a vontade de se realizarem, em cada município, reuniões com o objectivo de estreitar as ligações e incentivar a partilha de experiências entre os técnicos municipais de apoio ao desenvolvimento.

Com estas iniciativas procura-se criar parcerias de trabalho em projectos, formar e informar os técnicos em temas-chave para o desenvolvimento da sua actividade, dar-lhes apoio contínuo no sentido de melhorar o seu nível de desempenho e ainda auxiliá-los a ultrapassar da melhor forma as dificuldades sentidas.

A importância de que se podem revestir os mecanismos de apoio às empresas, nomeadamente os sistemas de incentivos, na dinamização e revitalização do tecido empresarial da região, motivaram o tema desta primeira sessão de trabalho, a ser realizada em Aljustrel, que procura dar um contributo para o melhor conhecimento destes instrumentos e a articulação de intervenções entre instituições.





B A R R A N C O S





21 de MARÇO - 2.ª CONFERÊNCIA DE TURISMO DE NATUREZA

Dia 21 de Março 2006 (Barrancos) - A 2ª edição da Conferência de Turismo de Natureza, uma iniciativa da EDIA, é este ano dedicada ao marketing e decorrerá mais uma vez no Parque de Natureza de Noudar.


Porque acreditamos que o sucesso dos empreendimentos de turismo de natureza está associado ao marketing, convidámos conferencistas cuja experiência profissional contribua para uma discussão útil sobre o tema.

A Conferência realiza-se na sala de conferências do Parque de Noudar, próximo de Barrancos, no dia da sua abertura ao público. Os participantes na conferência poderão observar a concretização de um projecto de Turismo de Natureza, passar um dia no campo e participar na celebração do Dia da Floresta.

Existirá um serviço de transportes contínuo entre Barrancos e o Parque de Noudar disponível para os participantes (a partir das 13:00).

A sua presença é importante para o sucesso da Conferência.

Inscrições:
Secretariado da Conferência - ERENA
e-mail: turnatureza@erena.pt
tel.: 21 799 11 00
fax: 21 799 11 19


B E J A

CICLO JAZZ NO FEMININO

De 25 de Março a 1 de Abril







O Pax Julia – Teatro Municipal de Beja organizará, entre 25 de Março e 01 de Abril, um Ciclo Jazz no Feminino. Trata-se de uma ideia inovadora no panorama dos Festivais de Jazz em Portugal já que se dedica, especificamente, a um tema – as mulheres.



O Programa do Evento é o seguinte:



· Dia 25 de Março: 16h00: Colóquio O Papel das Mulheres na História do Jazz – algumas considerações com António Branco e Paula Oliveira.



· Dia 25 de Março: 21h30: Espectáculo Lisboa que Adormece com Paula Oliveira e Bernardo Moreira.



Não deixa de ser significativo que Lisboa nos surja logo evocada no título deste disco tão belo, onde tudo nos soa tão português. Como que querendo dizer-nos da certeza – e não já da possibilidade – da existência de um jazz nosso, com uma identidade própria.

Manuel Jorge Veloso



· Dia 30 de Março: 21h30: Espectáculo Uma Noite com Ella pelo Lisboa Ballet Contemporâneo.







Porque me devolve a minha infância (5/6 anos) no Niassa e as tardes em que o meu pai insistia em pôr música para toda a família.O meu pai persistia, eu crescia, e fui aprendendo a ouvir e amar Ella. A sua voz de anjo ainda me transporta para esse mundo de Amor que é tão inspirador quanto mágico.

Benvindo Fonseca





· Dia 01 de Abril: 21h30: Espectáculo DayDream com Jacinta.




Gravado nos Estados Unidos, o novo disco desta grande cantora, há muito consagrada no meio jazzístico internacional, tem direcção de Greg Osby e nele se encontram um conjunto de músicos verdadeiramente excepcional, além de Jacinta e Osby, James Weidman (piano), Matt Brewer (contrabaixo) e Rodney Greene (bateria). É um álbum com um reportório baseado em temas de Duke Ellington (com poemas de Tiago Torres da Silva), Thelonius Monk, Tom Jobim , Djavan e ainda de José Afonso.


Em paralelo decorrerá uma Feira do Cd e DVD em colaboração com a editora Trem Azul, uma Exposição Fotográfica de João Henriques e ainda uma exposição/ venda e prova de vinhos da Região.



O preço dos espectáculos é de 8€ / 5€ para menores de 25 anos, maiores de 65 e reformados. Existe ainda a possibilidade de adquirir uma assinatura para os 3 espectáculos pelo valor de 20€ ou 12€ mediante as mesmas condições de desconto. Os restantes eventos são de entrada livre.



O Ciclo Jazz no Feminino conta com a colaboração de António Branco, especialista em assuntos de Jazz. António Branco é colaborador da única revista portuguesa especializada em Jazz: a Jazz.pt e do jornal Alentejo Popular, é radialista, blogger e, acima de tudo, um apaixonado pelo jazz !



Este Ciclo conta com o apoio da Antena 1, da Sociedade Agrícola Monte Novo e Figueirinha, da Herdade dos Grous e do Vila Galé - Clube de Campo.



Mais informações em www.paxjulia.org



Sónia Ferreira / José Carlos Pereira

C.M.Beja / Pax Julia – Teatro Municipal

Comunicação e Marketing

284315092 e 3 / 969660253

comunicacao@paxjulia.org



domingo, março 12, 2006

Recusa

Fa-24-Rayfresh"






Quando mergulho no lago
Que vejo no teu olhar,
Vou suplicando um afago
Que te recusas a dar.


Percebo angústias passadas
Nesse olhar distante e vago,
E agito as águas paradas
Quando mergulho no lago


Procuro em ti a ternura
Que já deixaste secar
E perco-me na lonjura
Que vejo no teu olhar.


De sempre me olhares sem ver,
A mágoa em meu peito trago.
Antes de tudo perder
Vou suplicando um afago.


Meu coração não se cansa
De tanto te mendigar,
A derradeira esperança
Que te recusas a dar.



(Orlando Fernandes in Fronteiras do Sonho)

sábado, março 11, 2006

foto de Ricardo Machado-1000 Imagens



AUSÊNCIA

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


(Vinicius de Moraes)

sexta-feira, março 10, 2006






Saudade






lembranças

boas e ruins

todo mundo tem



do instante que passou

ou duma época

muito além



mas

por que pensava que sabia

que era saudade

o que sentia?



saudade

é lembrança

mas não qualquer lembrar

ter

por um instante

alguém

(mãe, colo de mãe)

que não mais se tem



será por isso

que pensava que sabia

que era saudade

o que sentia?!






Batista Filho

quarta-feira, março 08, 2006

Olhares-foto de David Caretas




Mulher

No dia que aceitares
Aquilo que a vida te der,
Nunca mais terás revolta,
Serás, juro, uma mulher.

Aquela que não se importa
Que o Mundo grite de si,
Mostrando aquilo que é,
Tornará alguém feliz.


Darás ajuda a qualquer,
Sem esperares recompensa,
Porque tu és consciência
És bondade e paciência.


És uma alma liberta
Procurando vida aberta,
Porque no teu coração
Não mora a ingratidão.



Olinda
Março/05






Flores para as Mulheres que me visitam.




PENSO EM TI (eu sei)


Eu sei
Lá fora a chuva cai
O sono já lá vai
Outra vez eu te amei
Eu sei
(Penso em ti, penso em ti)
Quando o sol nascer
(Penso em ti, penso em ti)
Vou ter que perder
O medo de te dizer

Sou eu que vai mudar
Sou eu quem vai sair
Talvez até‚ chorar
Não sei
O que está p'ra vir
Talvez eu vá mentir
O que lá vai, lá vai
Lá fora chuva cai...

Eu sei
(penso em ti, penso em ti)
Que a tristeza vem
(penso em ti, penso em ti)
Ao deixar alguém
A quem tanto me dei
Eu sei
(penso em ti, penso em ti)
Talvez eu vá perder
(penso em ti, penso em ti)
Doa a quem doer
Vou ter que te dizer: Não!

Sou eu quem vai mudar
Lá fora chuva cai
Sei
Sou eu quem vai mudar
Sou eu quem vai sair
Talvez até‚ chorar
Não sei
O que está p'ra vir
Talvez eu vá mentir
O que lá vai, lá vai
Lá fora chuva cai...

(Adelaide Ferreira)

segunda-feira, março 06, 2006

Retorno

VD VALERIJ-Photo SIG



Fenece o pôr-do-sol no horizonte,
Tingido em tons de rosa e de carmim,
E a tarde, escorregando pelo monte,
Envolve-me num manto de cetim.


Se pudesse, virava eu este momento,
Em ondas de amizade e de ternura
Que viessem, trazidas pelo vento,
Pôr cobro a esta minha desventura.


Profunda é a saudade no meu peito,
Dum sonho que acendi, e jaz desfeito,
Perdido nos caminhos do cansaço.


Quisera eu possuir mãos milagrosas,
Para entornar em ti, um mar de rosas…
E em troca, ter de novo o teu abraço.




Orlando Fernandes-Alentejo e outros poemas



































domingo, março 05, 2006

Esteja onde estiver

Photonet-Lee Ladouceur





Esteja onde estiver,
Enviar-te-ei o meu adeus
Por todos os barcos do mar,
Que o transportarão no cimo das velas brancas,
Juntamente com a brisa suave
Do eco da minha voz
Que perdida na lonjura do espaço,
Te dará novas de mim!


O longe da distância
Que me separar de ti,
Será sempre encurtado
Pelas gaivotas esguias
Que desenharão nos ares
A mensagem dum aceno breve
Que perdida na lonjura do espaço,
Te dará novas de mim!


No regresso, os dois seremos um
E partiremos de mãos dadas
Como adolescentes apaixonados
A caminho do nada que nos resta;
Resignados e puros
Como este meu poema,
Que perdido na lonjura do espaço,
Te dará novas de mim!


Orlando Fernandes (Fronteiras do Sonho)

quinta-feira, março 02, 2006

Por ti

Foto de Ricardo Machado-1000Imagens







Com pedaços de céu,
inventei estrelas cintilantes,
para uma galáxia só nossa,
onde pudéssemos viver em paz.


Agarrei uma porção de azul,
e embrulhei nela todas as ondas
que se espreguiçavam nas praias,
para podermos olhá-las em silêncio.

Numa qualquer planície castanha,
pintei milhões de espigas douradas,
onde espreguiçámos cansaços,
e saciámos a nossa fome de pão.

Com os sons que descobri nos ventos,
compuz árias que as aves cantaram
e te ofereceram em breves serenatas,
quando assomavas à janela do sonho.

Gritei a minha enorme paixão,
embrulhando-te em mantos de ternura,
que negligente, deixavas cair,
para ficares desnudada e liberta.


Por ti…
Inventei, sonhei, pintei, compuz e gritei!

E mil vezes adormeci ébrio de ilusões!
E mil vezes não consegui acordar!





Foto de Paulo Afonso-Paulo Jorge-PhotoSIG



ROUXINOL


Rouxinol, irmão, amigo,
deixa-me cantar contigo,
canções que soltas no vento
Quero voar e aprender,
como se canta a sofrer,
como se acalma um tormento.


Ensina-me o teu trinar,
que feliz, deixas no ar
quando pousas na ramagem;
Se não queres voar sozinho,
indica-me o teu caminho,
que eu vou seguir-te a viagem.


Rouxinol de asas abertas
com teu cantar te libertas,
desse correr peregrino;
Sonho com o teu voar,
invejo-te o teu cantar …
troca comigo o destino !




Orlando Fernandes in Alentejo… e outros poemas

quarta-feira, março 01, 2006

COMO QUEM ESCREVE COM SENTIMENTOS

Foto de L Du Lac-Olhares




Como quem escreve com sentimentos



Estou sujeito ao tempo sou este momento
perguntam-me quem fui e permaneço mudo
o tempo poisa-me nos ombros em relento
partiu no vento essa mulher e perdi tudo

Já não virá ninguém por muito que vier
em vão esperei a rosa da minha roseira
quando um pássaro sai dos olhos da mulher
é porque ela é de longe e não da nossa beira

Resta-me um sonho desconexo e desconforme
Na haste da camélia que o vento quebrou
jamais a vida branca como ela dorme
Eu era essa camélia e nunca mais o sou

A minha vida é hoje um sítio de silêncio
a própria dor se estreme é dor emudecida
que não me traga cá notícias nenhum núncio
porque o silêncio é o sinónimo da vida

O mundo para além dessa mulher sobrava
tudo vida vulgar tumultuária e cega
o brilho do olhar equilibrava a chuva
nas suas costas hoje toda a luz se apaga

Mulher que um golpe de ar me pôde arrebatar.
enfim não existia ou só ela existia
Asas que ela tivesse deixou-as queimar
e tê-la-á levado estranha ventania

Daqueles traços fisionómicos de pedra
não quero já ouvir a voz que às vezes vem
na calma destacada por um cão que ladra
Não há ninguém perto de mim sinto-me bem

Cada casa que roço é escura como um poço
se sou alguma coisa sou-o sem saber
sossego solitário sem mistério isso
talvez tivesse sido o que sempre quis ser

As flores vinham nela e era primavera
mas tanto a nomeei e tanto repeti
erros numa estratégia imprópria para ela
tamanho amor expus que cedo a consumi

A noite quando ao fim descer decerto há-de
ser certa solução. Foi há muito a infância
Ao tempo o que tu tens tu bem o sabes cede
estendo as mãos talvez te fique a inocência

A vida é uma coisa a que me habituei
adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto
A infância é uma insignificância eu sei
e apenas por a ter perdido a amamos tanto

Estou sozinho e então converso com a noite
das palavras que nos subjugam nos submetem
As coisas passam e em vez delas é aceite
o nosso sistema de signos onde as metem

Esta minha existência assim crepuscular
devida àquela que é rastos destroços restos
acusa hoje alguma intriga consular
de quem não tem cabeça a comandar os gestos

Foi uma rosa rubra a autora desta obra
aberta e arrogante grácil flor do instante
que triunfante não há coisa que não abra
para ferir quem a viu e morrer de repente

E noite sou e sonho e dor e desespero
mero ser sórdido e ardido e encardido
mas já não tarda a abrir-se na manhã que espero
um arco com vitrais aos vendavais vedado

E embora a minha fome tenha o nome dela
e da água bebida na face passada
não peço nada à vida que a vida era ela
e que sei eu da vida sei menos que nada



(Ruy Belo
Despeço-me da Terra da Alegria)





terça-feira, fevereiro 28, 2006





O que é o PROJECTO ESPERANÇA?

Não se pode exprimir por palavras a dor de um pai e de uma mãe ao perder o que de mais precioso têm na vida, o seu filho. Não existem palavras que traduzam o desespero e o sofrimento de uma criança a quem lhe é roubado o mundo em que vive.

Não queremos nem podemos ser indiferentes a toda esta infelicidade que nos rodeia, se cada um de nós der um pouco do seu tempo, do seu trabalho e da sua força podemos mudar algo. O nosso pouco pode levar muita esperança aos que dela vivem.

A internet é um poderoso recurso no combate a este tipo de problemas. Juntos poderemos levar estes rostos a milhares de pessoas.

Não permita que estas crianças caiam no esquecimento. Colabore!


S O S Crianças

Para mais informações visite o site da POLÍCIA JUDICIÁRIA

domingo, fevereiro 26, 2006

Foto de Mariza-Olhares


Deixa-me dizer-te que o mundo não acaba aqui. Lembrar-te que o sonho não morre, que o desejo permanece e que os meus olhos te procuram.... Deixa-me encontrar-te!



DAVA TUDO

sim, é por amor
que eu me dou sempre mais
quando me olhas nos olhos
como quem chama por mim

sim, é por amor
que eu me dou sem pensar
na tua doce loucura de procurar a paixão

ah, quero sempre mais
ah, quero sempre mais

mas tu nem sempre vens
outra paixão talvez
eu sei esperar e entender
mas dói demais

eu dava tudo para te ter aqui
ao pé de mim outra vez
eu dava tudo para te ter aqui
ao pé de mim outra vez

sim, é por amor
que eu não sei dizer que não
quando me olhas nos olhos
como quem chama por mim

ah, quero sempre mais
ah, quero sempre mais

nem um sinal de ti
à noite perco-me por aí
finjo amar pensando em ti
mas dói demais

eu dava tudo para te ter aqui
ao pé de mim outra vez
eu dava tudo para te ter aqui
ao pé de mim outra vez

(Adelaide Ferreira)

sábado, fevereiro 25, 2006

Foto de Sónia Guerreiro-1000Imagens




Também hoje recorri ao "baú" das recordações e de lá tirei esta memória que vou partilhar convosco.




O SOLDADINHO DE CHUMBO


Dia 15 de Dezembro dum ano que já se desfez com o rolar dos tempos. Numa aldeia pobrezinha, enfiando por ruas tortas e esburacadas onde a chuva faz poças e a lama preenche todos os espaços, seguindo pelo passeio mal empedrado e sentindo nos ombros a água que escorre dos telhados desembocamos num largo também lamacento com umas árvores a tentarem dar uma ideia de jardim.

As casas térreas, iguais, parecem abandonadas, pois nem uma só pessoa se vê nelas. Tudo fechado, todos abrigados da chuva que inclementemente continua a cair. De repente o postigo, duma dessas casas térreas e iguais, abre-se de mansinho e o rosto seco duma velhinha asssoma-se, espreita e de mansinho também, recolhendo-se, torna a fechar o postigo. Passado pouco tempo o mesmo rosto se assoma, a mesma ansiedade no olhar, o mesmo recolhimento lento e angustiante.

Mistério o daquela velhinha! Desvendemo-lo pois!

Também tinha sido a quinze de Dezembro, desse mês de frio para os corpos que o frio entrara também na alma daquela mulher. O seu filho, o único ente querido que lhe restava de toda a prole que a havia rodeado em tempos felizes, esse complemento da sua vida, essa partícula da sua carne, havia sido chamado, para com tantos outros, ir para a guerra. O seu coração de mãe sangrou como trespassado por aguçada lâmina, o seu
pensamento fantasiou-lhe mil e uma desgraça, mas dos seus olhos não rolaram lágrimas –essas há muito haviam secado- quando se deu a separação. Nesse momento supremo, nesse último instante, o esforço foi maior, foi quase superior às suas forças, porém, suportou a dor com dignidade e balbuciou já meio trémula: “Vai filho, cumpre o teu dever e que Deus te acompanhe”.

E ele foi, andou na linha da frente, combateu com todo o ardor, suportou fomes, caminhadas, sacrifícios de toda a espécie. O inimigo, porém, numa emboscada, varou-o impiedosamente quando tentava salvar um companheiro de campanha que havia caído atingido por um projéctil. Não seguiu os companheiros que procuravam abrigos para ripostar ao fogo inimigo e não querendo deixar, no campo de batalha, o camarada ferido ia levantá-lo para fugir quando uma saraivada de balas o prostrou por terra.

O Comandante, reconhecendo o grande valor desse soldado, condecorou-o, colocando-lhe, no peito já frio e ensanguentado, a medalha dos Heróis.

O facto foi comunicado à mãe mas não a convenceram. Os seus olhos, macerados pelas lágrimas que há tanto tempo corriam, só se voltavam para um soldadinho de chumbo que, em cima da cómoda, parecia fitá-la. Era ali que ela passava o seu tempo. Mas, por vezes, a sua vista desviava-se do soldadinho de chumbo, olhava para a porta da rua, levantava-se, quase corria, abria o postigo, espreitava e … nada. A desilusão estampava-se no seu rosto já apagado e devagar vinha sentar-se frente ao soldadinho de chumbo que parecia fitá-la …




LM/62


quinta-feira, fevereiro 23, 2006



MARIA FAIA



Eu não sei como te chamas
Ó Maria Faia
Nem que nome te hei-de eu pôr
Ó Maria Faia
Ó Faia Maria

Cravo não que tu és rosa
Ó Maria Faia
Rosa não que tu és flor
Ó Maria Faia
Ó Faia Maria

Não te quero chamar cravo
Ó Maria Faia
Que t'estou a engrandecer
Ó Maria Faia
Ó Faia Maria

Chamo-te antes espelho
Ó Maria Faia
Onde espero me ver
Ó Maria Faia
Ó Faia Maria

O meu amor abalou
Ó Maria Faia
Deu-me uma linda despedida
Ó Maria Faia
Ó Faia Maria

Abarcou-me a mão direita
Ó Maria Faia
Adeus ó prenda querida
Ó Maria Faia
Ó Faia Maria









Menino do Bairro Negro


Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão
Vem ver a luz

Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Vira também

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção

Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Se até da gosto cantar
Se toda a terra sorri
Quem te não há-de amar
Menino a ti

Se não é fúria a razão
Se toda a gente quiser
Um dia hás-de aprender
Haja o que houver

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção



Zeca Afonso

A minha homenagem a Zeca Afonso no dia em que se completam 19 anos que nos deixou.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006



CAROLINA




No dia que faço 2 meses também quis estar aqui convosco.

Tenho recebido as vossas mensagens, os vossos carinhos e as vossas beijocas e hoje venho dizer-vos que gosto muito de todos e agradeço os mimos que me têm enviado.

Muitos beijinhos para os meus amigos(as).

terça-feira, fevereiro 21, 2006


Visite também o SABIA QUE...? e saiba como a nossa privacidade está cada vez mais ameaçada, hoje, com os implantes de chips.
Há também informações de saúde: Problemas cardio vasculares; eczema atópico; níveis de colesterol.


Também o convidamos a ler no POÉTICUS poemas de Jaime Cortesão, Saúl Dias, Conde de Monsaraz entre outros.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

SOLIDÃO



De noite a mente vagueia
Entre sonhos do passado,
Sonhamos de alma cheia
O tempo que fomos amados.

Foram tempos de loucura,
Aqueles que então vivemos.
Sentíamos amor ternura
Por aqueles que não esquecemos.



Dávamos as mãos e seguíamos
Os sonhos que então vivíamos,
Pensando ser hora certa.

Mas o tempo foi passando,
Outros amores encontrando
Deixam-nos a vida deserta.

01/06
(Olinda)



Foto de António Durães-1000Imagens

INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...