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TEUS OLHOS NEGROS, TUA TEZ MORENA

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Fascina-me a brancura da açucena - as flores alvas são as mais bonitas - mas me atraem com forças
infinitas teus olhos negros, tua tez morena.
Como as flores, também, casta e serena, aos desejos de amar, por certo, incitas, porém só vejo, em ânsias vãs, aflitas, teus olhos negros, tua tez morena
e se adorar-te fosse a minha pena,

arrastaria tudo, humildemente
(a alma, livre da angústia que a condena),
para ter-te afinal sempre presente,

amaria em silêncio, eternamente,
teus olhos negros ... tua tez morena.

CARLOS MANUEL ARITA

(Honduras 1912 - 1989)

Foto de Roman Popov




AMOR

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Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.
Nuno Júdice, in “A Partilha dos Mitos”

SONETO

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"Que soubeste fazer da tua vida depois de tantos anos à procura do que chamavas terra prometida no meio da floresta mais escura?
. Por que deste consolo a essa ferida que ainda continua a arder sem cura se do teu coração não há saída e o tempo te devora em lenta usura?
.
O que te ensina hoje cada dia se já pouco te dói como doía e tudo se transforma em quase nada?
.
Apenas o amor, que será só memória de quem és, do pó ao pó - cinza talvez, mas cinza apaixonada"
. FERNANDO PINTO DO AMARAL
.
in A Luz da Madrugada.

AMO-TE TANTO ...

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Amo-te tanto, tanto, que se um dia
Viesses a faltar-me, meu Amor, 
Desamparada e triste, qual flor, 
A minha vida breve emurchecia!

Sinto dentro de mim que não podia
Dispensar dos teus braços o calor,
Do beijo dos teus lábios o sabor
Nem dos teus olhos lindos a magia

Tu és toda a razão do meu viver,
Da minha vida a estrela matutina!
E tanto, que nem sei a qual mais querer,

Tão grande é a paixão que domina:
Se ao teu esbelto corpo de mulher
Se ao teu cândido rosto de menina

ANTÓNIO MELENAS

Foto de Oleg Obukhov

AUSÊNCIA

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AUSÊNCIA 
.
Meu amor, como eu sofro este tormento 
da tua ausência!... Ando magoada 
como a folha arrancada pelo vento 
ao carinhoso anseio da ramada...
.
Procuro desviar o pensamento...
mas oiço ao longe a tua voz molhada
em lágrimas, vibrando o sofrimento
da nossa vida assim, tão separada!
.
Os meus beijos escutam os teus beijos
exigentes — perdidos de saudade...
crispando amargamente os meus desejos!
.
E dia a dia essa canção de dor,
ritornelo sombrio de ansiedade,
exalta ainda mais o meu amor!
.
JUDITH TEIXEIRA , in 'Antologia Poética' -25 Jan 1880 // 17 Mai 1959
Escritora e Poeta
.

O ÚLTIMO POEMA

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O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

MANOEL BANDEIRA



DOCE ILUSÃO

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Doce ilusão que foges perseguida
Como gazela tímida e medrosa
Ou como nuvem pelo céu batida
Ao sopro de uma aragem silenciosa:

Levas contigo, ó pomba gloriosa !
A esvoaçar em busca de guarida,
O meu amor, a desmaiada rosa !
Levas contigo o coração e a vida.

E nunca mais, no exílio onde agonizo,
A melindrosa flor do teu sorriso
Há-de ostentar as pétalas vermelhas ...

Mas na estância feliz que eu não devasso
Encontrarás meus beijos, pelo espaço,
Em busca de teus lábios, como abelhas.

ANTÓNIO FEIJÓ