domingo, novembro 11, 2018

POR AMOR



POR AMOR
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Só ficará de ti o que fizeste
por amor.
O resto não valeu:
foi apenas poeira que se ergueu
em teu redor
e o vento varreu.
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Só ficará de ti o que escreveste
com paixão.
O resto não contou:
foi tão-só uma sombra que passou,
pura ilusão,
e nem rasto deixou.
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TORQUATO DA LUZ 
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Foto de Andrey Voytsekhov

segunda-feira, novembro 05, 2018

CANÇÃO DE UMA SOMBRA





Canção de Uma Sombra


Imagem de Marcin Nawrocki 

Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar, para ouvir a voz das coisas,
Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte, que chorava,
E como nós cantava e secou...
E este sol, que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse este luar, que chama
Os espectros à vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,
Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombra povoou,
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos,
Eu não era o que sou.

(Teixeira de Pascoaes, in "Primeiro Livro de Poesa", selecção de Sophia de Mello Breyner Andresen, pág.118/119)



Foto de Olga Maksimova

terça-feira, outubro 30, 2018

DESFOLHANDO







" Desfolhando "
Essa boca, pequena, e assim vermelha,
que ao botão de uma rosa se assemelha,
- quanta vez provocava os meus desejos
desabrochando em flor entre os meus beijos...
Essa boca, pequena e mentirosa,
que diz, tanta mentira cor-de-rosa,
- era a taça de amor onde eu saciava
toda a ansiedade da minha alma escrava ...
Beijando-a, compreendia que eras minha...
Meu amor transformava-te em rainha,
teu amor me fazia mais que um rei...
Agora, tu fugiste... E eu sofro, quando
vejo um outro em teus lábios desfolhando
a mesma rosa que eu desabrochei!...
 Poema de JG de Araujo Jorge

Art de Arsen Kurbanov

sábado, setembro 22, 2018

NOITE APRESSADA




NOITE APRESSADA de DAVID MOURÃO-FERREIRA
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Era uma noite apressada 
depois de um dia tão lento. 
Era uma rosa encarnada 
aberta nesse momento. 
Era uma boca fechada 
sob a mordaça de um lenço. 
Era afinal quase nada, 
e tudo parecia imenso! 
.
Imensa, a casa perdida 
no meio do vendaval; 
imensa, a linha da vida 
no seu desenho mortal; 
imensa, na despedida, 
a certeza do final. 
.
Era uma haste inclinada 
sob o capricho do vento. 
Era a minh'alma, dobrada, 
dentro do teu pensamento. 
Era uma igreja assaltada, 
mas que cheirava a incenso. 
Era afinal quase nada, 
e tudo parecia imenso! 
.
Imensa, a luz proibida 
no centro da catedral; 
imensa, a voz diluída 
além do bem e do mal; 
imensa, por toda a vida, 
uma descrença total! 
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David Mourão-Ferreira, in "À Guitarra e à Viola" 
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Foto de Sam

domingo, setembro 16, 2018

MUDEZ



Mudez

Quando por fim voltares, traz no olhar
a nesga de areal onde algum dia
te encontrei entre a espuma e a maresia
passeando a surpresa de haver mar.

Traz também nos cabelos o luar
e deixa que o veneno da poesia
nos envenene aos dois em sintonia,
como exige o mistério do lugar.

Talvez assim eu possa finalmente
segredar-te as palavras que não soube
dizer-te no momento em que te vi

pela primeira vez e, de repente,
o mundo foi tão grande que não coube
na minha voz e logo emudeci.

TORQUATO DA LUZ

Arte Vladimir Volego 




sexta-feira, junho 08, 2018

TEUS OLHOS NEGROS, TUA TEZ MORENA


Fascina-me a brancura da açucena - as flores alvas são as mais bonitas - mas me atraem com forças
infinitas teus olhos negros, tua tez morena.
Como as flores, também, casta e serena, aos desejos de amar, por certo, incitas, porém só vejo, em ânsias vãs, aflitas, teus olhos negros, tua tez morena
e se adorar-te fosse a minha pena,

arrastaria tudo, humildemente
(a alma, livre da angústia que a condena),
para ter-te afinal sempre presente,

amaria em silêncio, eternamente,
teus olhos negros ... tua tez morena.

CARLOS MANUEL ARITA

(Honduras 1912 - 1989)

Foto de Roman Popov




segunda-feira, junho 04, 2018

AMOR









Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.
Nuno Júdice, in “A Partilha dos Mitos”

terça-feira, maio 29, 2018

SONETO


· 
"Que soubeste fazer da tua vida
depois de tantos anos à procura
do que chamavas terra prometida
no meio da floresta mais escura?
.
Por que deste consolo a essa ferida
que ainda continua a arder sem cura
se do teu coração não há saída
e o tempo te devora em lenta usura?
.
O que te ensina hoje cada dia
se já pouco te dói como doía
e tudo se transforma em quase nada?
.
Apenas o amor, que será só
memória de quem és, do pó ao pó
- cinza talvez, mas cinza apaixonada"
.
FERNANDO PINTO DO AMARAL
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in A Luz da Madrugada.

quarta-feira, maio 23, 2018

AMO-TE TANTO ...






Amo-te tanto, tanto, que se um dia
Viesses a faltar-me, meu Amor, 
Desamparada e triste, qual flor, 
A minha vida breve emurchecia!

Sinto dentro de mim que não podia
Dispensar dos teus braços o calor,
Do beijo dos teus lábios o sabor
Nem dos teus olhos lindos a magia

Tu és toda a razão do meu viver,
Da minha vida a estrela matutina!
E tanto, que nem sei a qual mais querer,

Tão grande é a paixão que domina:
Se ao teu esbelto corpo de mulher
Se ao teu cândido rosto de menina

ANTÓNIO MELENAS

Foto de Oleg Obukhov

terça-feira, maio 22, 2018

AUSÊNCIA


AUSÊNCIA 
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Meu amor, como eu sofro este tormento 
da tua ausência!... Ando magoada 
como a folha arrancada pelo vento 
ao carinhoso anseio da ramada...
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Procuro desviar o pensamento...
mas oiço ao longe a tua voz molhada
em lágrimas, vibrando o sofrimento
da nossa vida assim, tão separada!
.
Os meus beijos escutam os teus beijos
exigentes — perdidos de saudade...
crispando amargamente os meus desejos!
.
E dia a dia essa canção de dor,
ritornelo sombrio de ansiedade,
exalta ainda mais o meu amor!
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JUDITH TEIXEIRA , in 'Antologia Poética' -25 Jan 1880 // 17 Mai 1959
Escritora e Poeta
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quarta-feira, maio 16, 2018

O ÚLTIMO POEMA



O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

MANOEL BANDEIRA



domingo, abril 29, 2018

DOCE ILUSÃO



Doce ilusão que foges perseguida
Como gazela tímida e medrosa
Ou como nuvem pelo céu batida
Ao sopro de uma aragem silenciosa:

Levas contigo, ó pomba gloriosa !
A esvoaçar em busca de guarida,
O meu amor, a desmaiada rosa !
Levas contigo o coração e a vida.

E nunca mais, no exílio onde agonizo,
A melindrosa flor do teu sorriso
Há-de ostentar as pétalas vermelhas ...

Mas na estância feliz que eu não devasso
Encontrarás meus beijos, pelo espaço,
Em busca de teus lábios, como abelhas.

ANTÓNIO FEIJÓ

quarta-feira, abril 11, 2018

FLASHBACK



Podia ser aí. Contigo. Com o teu corpo
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.
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Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.
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Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.

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NUNO JÚDICE

terça-feira, março 13, 2018

O QUE DEIXO POR LEGADO


Molda-se por dentro
a chave com que me abro.

Já não
sei do meu princípio.

De nascença
não sou de alma, mas de pedra.

Eis o que deixo:
de todos os tamanhos, os sonhos
de todas as cores, os amores.

Se achardes magra a herança
em meus versos buscai
uns poucos e inábeis milagres,
palavras que acreditava inventar
e que era a mim que inventavam.

Não terei, no fim,
senão uma única morada:
a luz que nasce nos olhos teus.




MIA COUTO 



Foto de Aleksandr Krivickij 

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

A NOITE É TRISTE ...



A noite é triste ...
 - faz lembrar a lua
Perdida além na vastidão do espaço
Naquela rua aquietada, nua,
Guitarras gemem quando nela passo ...

Guitarras gemem músicas sombrias,
Penas de alguém que se perdeu no mar ...
Músicas - máguas, sombras - sinfonias,
Notas doridas
- ondas a quebrar ...

Notas doridas de um amor ausente ...
Na rua escura, quando nela passo,
Acorda a vida
- languidez silente,
Canção perdida no tempo e no espaço ...

DANIEL FILIPE

domingo, fevereiro 18, 2018

SONHO DOMADO


Sei que é preciso sonhar

Campo sem orvalho, seca
a frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.

THIAGO DE MELLO


In Mormaço na Floresta, 1981

Amadeu Thiago de Mello (Barreirinha, 30 de março de 1926) é um poeta e tradutor brasileiro.

Natural do Estado do Amazonas, é um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional.

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

CANÇÃO DE AMOR



Amo-te muito
Como se já te amasse assim há muito.
Amo-te tanto
Como se fosse apenas por enquanto.
Amo-te como quem partiu
Sabendo, ao partir, que já chegou.
Amo-te como amo aquilo que te dou.

Amo-te como um vinho antigo
Um mosto doce.
Amo-te como a Primavera
Que te trouxe.
Quero-te como se te amasse por encanto.
Só sei amar-te assim
Como se fosse a mim.

E quero amar-te
E quero dar-me sempre a ti
constantemente.
A um tempo só:
O futuro e o passado no presente.
E a ternura, esse fogo
Que acendemos mão na mão
Seja sempre amor
Sem deixar de ser paixão

FERNANDO TAVARES RODRIGUES

sábado, fevereiro 10, 2018

NESTE DIA DE MAR E NEVOEIRO



Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto


São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses


Aquelas aves que tinham
uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse




Sophia de Mello Breyner Andresen


Foto de Dimitr Stoyanov

sexta-feira, fevereiro 09, 2018

CISMAR


Ai! quando de noite, sozinha à janela
Co'a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas, donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!

Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?

Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?

Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves? no céu
A brisa gemeu...
As vagas murmuraram...
As folhas sussurram:
Amar!

ALVARES DE AZEVEDO

quinta-feira, janeiro 25, 2018

TU HABITAS EM MIM


TU HABITAS EM MIM
.
Tu habitas em mim, eu sinto-te fremir,
Balsâmico frescor, em cada fibra minha.
Caminho iluminado duns olhos a sorrir
E não me importa a vida medíocre, mesquinha.
.
Basta-me a tua alma eleita, meu amor,
P´ra me sentir erguer duma existência inerme:
- Transmites uma força, induzes um calor
Que sinto aflorar em ondas à epiderme.
.
E eu que vegetava (amarga letargia
Que submerge a alma em vagas de não-ser)
Rebento com furor os elos da apatia
E gozo a alegria imensa de viver.
.
António Almeida
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Foto de Aleksandr Krivickij
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terça-feira, janeiro 02, 2018

OS AMANTES DE NOVEMBRO




Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor

Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um

De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.

ALEXANDRE O`NEILL

Art - Pintura de Kristodulakis

quarta-feira, dezembro 27, 2017

RENÚNCIA



Renunciar. Todo o bem que a vida trouxe,
toda a expressão do humano sofrimento.
A gente esquece assim como se fosse

um voo de andorinha em céu nevoento.

Anoiteceu de súbito. Acabou-se
tudo... A miragem do deslumbramento...
Se a vida que rolou no esquecimento
era doce, a saudade inda é mais doce.

Sofre de ânimo forte, alma intranquila!
Resume na lembrança de um momento
teu amor. Olha a noite: ele cintila.

Que o grande amor, quando a renúncia o invade
fica mais puro porque é pensamento,
fica muito maior porque é saudade.


OLEGÁRIO MARIANO


OLEGÁRIO MARIANO CARNEIRO DA CUNHA (Olegário Mariano), poeta, político e diplomata. Nasceu em Recife - PE, em 24 de março de 1889, e faleceu no Rio de Janeiro - RJ, em 28 de novembro de 1958.

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Foto de Anna Gorbenko

quinta-feira, dezembro 07, 2017

SONETO



Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento ...

Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado ...
Pára e fica e demora-se um momento

Pára e fica na doida correria ...
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora ...
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora .


ANGELO DE LIMA

(1872/1921)

Foto de Wahid Nour Eldin


quarta-feira, dezembro 06, 2017

A TUA ROSA




A bela rosa é a que tenho na mão
quando o amor faz durar cada instante,
e em cada segundo se ouve o coração
que faz bater o pulso do amante.

Abro-a com os dedos, até ao fundo,
e vejo-a fechar-se quando se oferece,
os olhos prendendo ao seu secreto mundo,
de cada vez que a olho e ela me esquece.

Nenhuma rosa é como esta, que eu amo,
ao vê-la nascer de um campo de alegria:
tem a púrpura do teu rosto, quente e fria,

e a pureza da tua voz que eu reclamo.
Assim, nunca outro amor teve uma tal flor,
e é à minha vida que dás a sua cor.

Nuno Júdice

In O Estado dos Campos


Foto de Zeca

quinta-feira, novembro 30, 2017

BRINCADEIRA




Brinca comigo à procura
de uma estrela noutro céu
Brinca e lava a noite escura
com os sonhos que Deus te deu

Começa devagarinho
– por favor, não tenhas medo,
que o meu coração fez ninho
dentro do teu em segredo

Acorda os anjos que dormem
com a luz do teu sorriso
Faz com que não se conformem
e saiam do paraíso

Deixa-os entrar de repente
no teu quarto, a esta hora
em que a verdade mais quente
é o sono que te devora

Brinca comigo às escuras,
ensina-me o que não sei
Onde estás? Porque procuras
o coração que te dei?

Fernando Pinto do Amaral

domingo, novembro 26, 2017

QUANTAS VEZES TE ESPEREI NESTE LUGAR ...






Quantas vezes te esperei neste lugar
quantas vezes pensei que não chegavas
quantas vezes senti a rebentar
o coração se ao longe te avistava.

Quantas vezes depois de teres chegado
nos colámos no beijo que tardava
quantas vezes trementes e calados
nos entregámos logo sem palavras.

Quantas vezes te quis e te inventei
quantas vezes morri e já não sei.

Torquato da Luz

Foto Remi Aerts

quarta-feira, novembro 22, 2017

QUASE NADA





Tenho-te aqui ao meu lado;
se quiser tenho na mão 
teus cabelos negros, negros;
acaricio o teu rosto
com trejeitos meigos, sábios.
Se quiser beijo os teus lábios;
se quiser tenho o teu corpo
esbelto, de ébano loiro...
Tudo em ti me faz lembrar
que tenho um lindo tesoiro!
Não é preciso falar,
que é bela a nossa paixão,
sobre o chão
à luz da vela!

Se eu quisesse confessava
que eras agora o meu mundo.
Gosto de ti!
Sei que é pouco!
Sendo pouco,
É quase tudo! 

Humberto Sotto Mayor

Foto de Svetlana Melik-Nubarova

terça-feira, novembro 21, 2017

MEU ANJO, ESCUTA



Meu anjo, escuta: quando junto à noite
Perpassa a brisa pelo rosto teu,
Como suspiro que um menino exala;
Na voz da brisa quem murmura e fala
Brando queixume, que tão triste cala
No peito teu?
Sou eu, sou eu, sou eu!

Quando tu sentes lutuosa imagem
D'aflito pranto com sombrio véu,
Rasgado o peito por acerbas dores;
Quem murcha as flores
Do brando sonho? — Quem te pinta amores
Dum puro céu?
Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguém te acorda do celeste arroubo,
Na amenidade do silêncio teu,
Quando tua alma noutros mundos erra,
Se alguém descerra
Ao lado teu
Fraco suspiro que no peito encerra;
Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguém se aflige de te ver chorosa,
Se alguém se alegra co'um sorriso teu,
Se alguém suspira de te ver formosa
O mar e a terra a enamorar e o céu;
Se alguém definha
Por amor teu,
Sou eu, sou eu, sou eu!


GONÇALVES DIAS
(poeta e teatrólogo brasileiro. 1823/1864)


Foto de Anton Postnikov

domingo, novembro 19, 2017

CANÇÃO DE ENGANAR A TRISTEZA



Se a tristeza um dia
te encontrar triste sózinho
trata bem dela
porque a tristeza quer carinho
E fala sobre a beleza
com tanta delicadeza
Por não ter nenhum carinho
que ela só existe
por não ter nenhum carinho
E dá-lhe um amor tão lindo
que quando ela se for indo
ela vai contente
de ter tido o teu carinho

Vinícius de Moraes


sábado, novembro 11, 2017

CARTA A ÂNGELA - CARLOS OLIVEIRA




Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e de sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!

Carlos Alberto Serra de Oliveira (n.em Belém do Pará a 10 de Ago 1921, m. em Lisboa a 1 Jul de 1981)

POR AMOR

POR AMOR . Só ficará de ti o que fizeste por amor. O resto não valeu: foi apenas poeira que se ergueu em teu redor e o vento varreu. . S...