sábado, fevereiro 25, 2006

Foto de Sónia Guerreiro-1000Imagens




Também hoje recorri ao "baú" das recordações e de lá tirei esta memória que vou partilhar convosco.




O SOLDADINHO DE CHUMBO


Dia 15 de Dezembro dum ano que já se desfez com o rolar dos tempos. Numa aldeia pobrezinha, enfiando por ruas tortas e esburacadas onde a chuva faz poças e a lama preenche todos os espaços, seguindo pelo passeio mal empedrado e sentindo nos ombros a água que escorre dos telhados desembocamos num largo também lamacento com umas árvores a tentarem dar uma ideia de jardim.

As casas térreas, iguais, parecem abandonadas, pois nem uma só pessoa se vê nelas. Tudo fechado, todos abrigados da chuva que inclementemente continua a cair. De repente o postigo, duma dessas casas térreas e iguais, abre-se de mansinho e o rosto seco duma velhinha asssoma-se, espreita e de mansinho também, recolhendo-se, torna a fechar o postigo. Passado pouco tempo o mesmo rosto se assoma, a mesma ansiedade no olhar, o mesmo recolhimento lento e angustiante.

Mistério o daquela velhinha! Desvendemo-lo pois!

Também tinha sido a quinze de Dezembro, desse mês de frio para os corpos que o frio entrara também na alma daquela mulher. O seu filho, o único ente querido que lhe restava de toda a prole que a havia rodeado em tempos felizes, esse complemento da sua vida, essa partícula da sua carne, havia sido chamado, para com tantos outros, ir para a guerra. O seu coração de mãe sangrou como trespassado por aguçada lâmina, o seu
pensamento fantasiou-lhe mil e uma desgraça, mas dos seus olhos não rolaram lágrimas –essas há muito haviam secado- quando se deu a separação. Nesse momento supremo, nesse último instante, o esforço foi maior, foi quase superior às suas forças, porém, suportou a dor com dignidade e balbuciou já meio trémula: “Vai filho, cumpre o teu dever e que Deus te acompanhe”.

E ele foi, andou na linha da frente, combateu com todo o ardor, suportou fomes, caminhadas, sacrifícios de toda a espécie. O inimigo, porém, numa emboscada, varou-o impiedosamente quando tentava salvar um companheiro de campanha que havia caído atingido por um projéctil. Não seguiu os companheiros que procuravam abrigos para ripostar ao fogo inimigo e não querendo deixar, no campo de batalha, o camarada ferido ia levantá-lo para fugir quando uma saraivada de balas o prostrou por terra.

O Comandante, reconhecendo o grande valor desse soldado, condecorou-o, colocando-lhe, no peito já frio e ensanguentado, a medalha dos Heróis.

O facto foi comunicado à mãe mas não a convenceram. Os seus olhos, macerados pelas lágrimas que há tanto tempo corriam, só se voltavam para um soldadinho de chumbo que, em cima da cómoda, parecia fitá-la. Era ali que ela passava o seu tempo. Mas, por vezes, a sua vista desviava-se do soldadinho de chumbo, olhava para a porta da rua, levantava-se, quase corria, abria o postigo, espreitava e … nada. A desilusão estampava-se no seu rosto já apagado e devagar vinha sentar-se frente ao soldadinho de chumbo que parecia fitá-la …




LM/62


2 comentários:

paper life disse...

tempos que eu queria, mas não consigo, esquecer.

bjs.

wind disse...

Terrivelmente realista e emocionante. beijos