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foto de Ricardo Machado-1000 Imagens



AUSÊNCIA

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


(Vinicius de Moraes)

Comentários

Mily disse…
Que bom chegar aqui no teu espaço e encontrar a publicação de um poema do Vinícius... nosso Poetinha, como carinhosamente era chamado. Seus versos deram um sentido elevado à música popular brasileira. É orgulho o que nos invade toda vez que vemos seu nome citado, principalmente num país-irmão. Obrigada, amigo, por esse carinho a um dos grandes nomes da nossa cultura. Mui belos também os versos de SAUDADE, publicação da postagem anterior, na homenagem que fazes ao nosso amigo Batista. Já te disse uma vez, amigo, e repito, que deverias publicar também os teus poemas. Deste-nos a conhecer alguns deles (poucos, na verdade), que nos chegaram envoltos numa certa timidez de publicação. Tens uma alma sensível, demonstrada visivelmente nas publicações que fazes de outros autores. Essa mesma sensibilidade deve estar espalhada por entre teus poemas... porque não trazê-los até teus amigos? Uma pessoa como tu, que faz questão de propagar a obra de outros autores, não pode se dar ao luxo de ser "egoísta" escondendo a própria criação. Desculpe a bronca e o "puxão de orelhas", e tome essa ousadia como uma demonstração de afeto e admiração por tudo que esse teu blog representa na comunidade. Deixo-te um afetuoso abraço e os votos de um final de semana de muitas alegrias junto aos familiares. Fica em paz, amigo!
batista filho disse…
Faço minhas as palavras da Mily - ou eco -, como prefiras.
Um abraço carinhoso, meu irmão.
wind disse…
Sabes como adoro Vinícius:)
Beijos para ti e para a netita:)

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.
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.
Se no coração não possa
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me leve no seu lembrar.
.
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menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
.
Ferreira Gullar

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Onde, entretanto, quem me disesse
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- Renasceste: liberta-te!

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por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...
se só as estrelas é que me entenderiam?

Emílio Moura



Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902Dores do Indaiá28 de setembro de 1971Belo Horizonte) foi um poetamodernista, integrante do grupo de modernistas mineiros que ajudaram a revolucionar a literatura brasileira na década de 1920. Foi redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais. Moura foi também professor universit…

SE FOSSES ...

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