Avançar para o conteúdo principal

POEMAS DE MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

Foto Doug Gilbert







Amei-te como na vida se ama uma só vez;
e todos os afectos que dividi depois eram
apenas cinzas que evocavam o brilho dessa
imensa chama. Troquei suspiros e beijos

com muitas outras bocas quando, na minha,
o travo da solidão era uma amarga desculpa
para repartir o pouco que não tinha; mas

em nenhuma quis morder fruto mais
suculento que o silêncio nem permiti que
pousasse sequer o meu nome verdadeiro -
que só nos teus lábios era graça e canção

e eco de loucura. Foi o meu corpo tão vão
naqueles que o cingiram que me faria velha
a tentar recordar-lhes os gestos hesitantes,
as convulsões da pressa e os veios de sal que
descreviam no litoral da pele o aviso de uma
paisagem interior abandonada. Mas de nada

me serviu amar-te assim - pois, ao dizer-te o
que não pude ser longe de ti, digo-te o que sou
e isso há-de guardar-te para sempre de voltares.





... Nunca te esqueci...
O que ontem me disseste agora
o ouço, como se nada tivesse interrompido
a magia do instante em que as nossas bocas
se aguardavam na distância de um beijo e
o olhar tocava o corpo antes da mão. Se
hoje vieres ... encontrarás ... os
lençóis da cama imaculados, e um corpo pronto
para qualquer aventura...






Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar esta cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.



(Maria do Rosário Pedreira)



Comentários

Alfazema Azul disse…
Das poetisas contemporâneas vivas,Maria do Rosário Pedreira é uma das minhas preferidas. Há mais mas deleito-me com a doçura e a saudade que perpassa na sua obra.

Bem hajas pelo excelente trabalho que vens fazendo.

Beijinhos
peciscas disse…
Descobri a Maria do Rosário há não muito tempo, via Aldina Duarte.
No último disco da fadista, há um extraordinário poema, dito pela poeta, que merece ser ouvido veze ssem conta.
Dois Rios disse…
Belíssima poesia de Maria do Rosário Pedreira!

Versos que transmitem uma rascante dor da perda.

Beijo,

Inês
Charlie disse…
Amei-te como na vida se ama só uma vez...Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar...vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens...

Só isto bastaria para dizer de Maria do Rosário: uma grande poeta.
Uma vénia de profunda admiração.
Olá querido Lumife, belíssimo poema, que nos dás a conhecer... Adorei Amigo!
Beijinhgos de carinho,
Fernandinha
lua prateada disse…
Passei, parei mas simplesmente adorei, nós fazemos ..poemazitos a Maria do Rosário faz poemas lindos! veem de dentro do coração tal como os nossos mas á um não sei k mais intenso.Parabéns amiga....
Beijinho prateado com carinho

SOL
Brancamar disse…
Lumife,

Obrigada por me dares a conhecer poema tão magnifico.
Já passaste pelo meu canto e viste o poema de saudade sobre mulheres que esperam no cais. Por coincidência hoje chego aqui e encontro estes versos imensos, profundos e geniais sobre tema tão parecido.
Emocionaram-me, não conhecia esta poetisa, mas fiquei maravilhada e vou procurar.
Ogrigada.
Beijinhos
Anónimo disse…
Na verdade quando embarcares vais de barriguinha cheia.

mas só um é que levou o mel

os outros ficaram com restos e migalhas

(zangão)
yaleo disse…
Sempre com novidades, parabéns.
Vale a pena guardar os sonhos, acredite...
E já agora visite também o meu site do dinheiro quem sabe não tem alguma coisa que lhe interesse.
Um beijinho
http://omeudinheiro.blogs.sapo.pt/
Baby disse…
Magnífico poema da da Maria do Rosário Pedreira, q1ue me tocou profundamente.
Obrigada por no-lo ofereceres.
Um abraço.
alfacinha disse…
Admiráveis aqueles poetas portugueses. Não só há talento abundante em Portugal mas também a língua portuguesa presta se facilmente a lindos versos extraordinários.
cumprimentos
Um Certo Olhar disse…
Maria do Rosário Pedreira fala de amor com a sabedoria de poeta.E a sensibilidade que só um poeta tem.

Beijinho
Odele Souza disse…
Não conhecia Maria do Rosário e gostei muito de sua poesia.

Um abraço.
Olhos de mel disse…
Ufa! Amei! Triste e profundo. "Ao dizer-te o que não pude ser longe de ti" Só isso marca um amor eternizado na alma, alimentado pela esperança...
Oie lindinho, a escolha foi perfeita!
Bom fim de semana! Beijos
Passei para ler com agrado, pois pouco conhecia da poetisa que se vé ser de fino quilate. Boa semana com tudo de bom.
tulipa disse…
Estamos em Setembro e a palavra mais usada é a «rentrée»; fala-se de rentrée política e eu decidi falar sobre a «rentrée literária, sempre é um tema diferente.
Livros de pelo menos 16 escritores galardoados com o Prémio Nobel de Literatura, entre os quais José Saramago, vão ser lançados até ao final do ano em Portugal, o que constitui, se não uma raridade, uma marca de diferença desta "rentrée" editorial.

Também houve ontem a rentrée da chuva e parece já o Outono.

O que é importante é que estejamos com saúde para apreciar todas as rentrées à nossa volta.

É isso que desejo, muita saúde, paz, flores, poesia e miminhos.

Bom fim de semana.

Mensagens populares deste blogue

Cantiga para não morrer de Ferreira Gullar

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve. 
.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
.
Ferreira Gullar

Como a noite descesse...

Como a noite descesse e eu me sentisse só,
só e desesperado diante dos horizontes que se fechavam,
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível Aurora!
e vi logo que só as estrelas é que me entenderiam.
Era preciso esperar que o próprio passado desaparecesse,
ou então voltar à infância.
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo:
- É por aqui!

Onde, entretanto, quem me disesse
ao espírito cego:
- Renasceste: liberta-te!

Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...
se só as estrelas é que me entenderiam?

Emílio Moura



Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902Dores do Indaiá28 de setembro de 1971Belo Horizonte) foi um poetamodernista, integrante do grupo de modernistas mineiros que ajudaram a revolucionar a literatura brasileira na década de 1920. Foi redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais. Moura foi também professor universit…

SE FOSSES ...

Se fosses luz serias a mais bela De quantas há no mundo: – a luz do dia! – Bendito seja o teu sorriso Que desata a inspiração Da minha fantasia! Se fosses flor serias o perfume Concentrado e divino que perturba O sentir de quem nasce para amar! – Se desejo o teu corpo é porque tenho Dentro de mim A sede e a vibração de te beijar! Se fosses água – música da terra, Serias água pura e sempre calma! – Mas de tudo que possas ser na vida, Só quero, meu amor, que sejas alma!

António Botto
Foto de Aleksandr Krivickij