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Rua do Quelhas (homenagem a Florbela Espanca)






Morre-se devagar neste país
onde é depressa a mágoa e a saudade
oh meu amor de longe quem me diz
Como é a tua sombra na cidade

Morre-se devagar em frente ao Tejo
repetindo o teu nome lentamente
cintura com cintura, beijo a beijo
e gritá-lo, abraçado, a toda a gente

Morre-se devagar e de morrer
fica a cinza de um corpo no olhar
oh meu amor a noite se vier
é seara de nós ao pé do mar


Autor Lobo Antunes

Canta Vitorino


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Tal me fez Pessoa.




É talvez o último dia da minha vida,
Tida e sorvida de um único fôlego,
É tal-e-qual ver no escuro, a vereda,
Por e onde vou, e no quando, cá chego,


Já, e de noite; eu relembro o dia,
- Por ser o último - nem é tristo, nem contento,
Dele que, de fugidia f’rida, invadia,
Não tanto a carne, mais o espírito.


E nem estrebucho, s’esse Tal me fez Pessoa,
Temperado, quanto-baste, até que doa,
Aí, no suspiro do ultimo ai m’apego.


É ,talvez a mim que vim mentindo, por último,
Em fim de dia; daqueles que mais lastimo,
Se até no dizer, de resto sou Ingrato.

Joel Matos
Florbela






Nadas de eternidades, nadas às tonas d’água,

Tudo se afunda, neste t’mor posto em palavras,

Nos tons que me desarrumam, desta tua míngua,

Vestem-me , o drama no eco de pressintas sombras.



Estendo um braço, d’outro grudado ao casco,

Fixo no rasto fedido, deste reles luto,

Em que m’iludo, é com ele que me espanco,

Co’meu cliché mastigado já e sem talento.



Vejo-me neste mundo-sem-ti , num fumo insonso,

Creio apagado o meu lume aceso

Nadas, ao luar ,nas dunas d’aguas , nas fúrias do mar,



Agonizo em fobia, enraizo d’vegetal,

Bela d’flor intemporal, voos de lástimas e cal

Pura, em que me emprestas, esse orgulho d’amar.


Jorge Santos

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Cantiga para não morrer de Ferreira Gullar

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve. 
.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
.
Ferreira Gullar

Como a noite descesse...

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Onde, entretanto, quem me disesse
ao espírito cego:
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por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...
se só as estrelas é que me entenderiam?

Emílio Moura



Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902Dores do Indaiá28 de setembro de 1971Belo Horizonte) foi um poetamodernista, integrante do grupo de modernistas mineiros que ajudaram a revolucionar a literatura brasileira na década de 1920. Foi redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais. Moura foi também professor universit…

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Foto de Aleksandr Krivickij