NOITE DE VIAGEM

Amei a tua inquietação; e disseste-me que
te amei sem saber porquê, que as marés anunciavam
o luar que não chegou, que não foi preciso
olhar o fundo transparente das palavras
para que a sua verdade nos tocasse, que a tua mão
colheu o fruto da primeira árvore sem que nada
o impedisse.
Amei-te sem ter a certeza da manhã, sem ouvir
o vento que fez bater as janelas num eco do passado,
sem correr as cortinas do mundo para que
ninguém nos visse, sem apagar do teu rosto
o brilho da vida, enquanto as aves dormiam,
e o licor do sonho se derramava sobre os corpos
que cortavam a noite.
Mas ao seguir o seu rumo, o azul
floresceu das cinzas, a música despontou
dos silêncios da madrugada, e os teus olhos
amanheceram quando me disseste que
te amei, sem saber porquê.
NUNO JÚDICE
Foto de Sergey Ryzhkov
3 comentários:
a tua mão
colheu o fruto da primeira árvore
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O fruto!... Quando se come o fruto há sempre a dúvida se não é 'fruto proibido'.
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Felicidades
Nuno Júdice... e as suas palavras que me entram alma dentro...
Grata pela partilha deste belo poema.
Beijo
Muito bom LUís, como tudo o que escolhes.
Obrigada por este bom momento.
Beijos
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