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UMA BRISA...




"Uma brisa ergue-se no interior da terra e chega a mim, à consciência de mim: o meu rosto, os meus lábios, o meu corpo tocado por essa brisa. Caminho por entre essa brisa a passar por mim, como se atravessasse uma multidão invisível. A brisa, ao tocar os meus olhos, transforma-se em lágrimas que descem frias pelo meu rosto. Os meus lábios. Sinto-as e sinto a memória das vezes que chorei o desespero parado, mais triste, de lágrimas que descem lentamente pelo rosto. O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que a consiga imaginar e as lágrimas, que eram apenas a brisa a tocar os meus olhos, começam a ser lágrimas de desespero verdadeiro. Paro no passeio. O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim."

JOSÉ LUIS PEIXOTO; excerto de "Lunar"


Foto de Piotr Kowalik

Comentários

Lara disse…
Quando eu era menina, contavam-me uma estória de alguém que beijando com amor as lágrimas de quem sofre, as transformava em pérolas preciosas que lhe enriqueceriam a vida.Este texto recordou-me essa estória.Quem sabe se um dia essa fiada de lágrimas dolorosas se torna num colar coroado da melhor preciosidade da vida?
O metal não se purifica sem passar pelo fogo e a poesia talvez não seja excelsa sem passar por lágrimas. Mas passarão e nós cá estaremos.
BRANCAMAR disse…
Lumife,

Foste buscar um texto magnífico de um autor a quem descubro cada vez mais qualidades, que ando a descobrir, é um autor de quem leio muitos excertos e quero descobrir cada vez mais profundamente. No lançamento do seu último livro estive com ele, após o ter conhecido de muitas maneiras no facebook e até me ter tornado amiga de uma simpática brasileira que faz um doutoramento sobre ele. Os brasileiros adoram.
Mas, o que eu descobri quando estive no seu lançamento foi um autor com uma interactividade única com os leitores. Descobri também aí que é Alentejano como tu, :)) e muito humano e humilde, não se importa muito que a fila para os autógrafos aumente, nem está preocupado com o tempo, cada leitor tem direito a uma conversa muito particular, como se estivesse a falar com um amigo.
Este texto mostra-nos um autor pleno de sentimentos, que nos transmite formas de os dizer tão simples e ao mesmo tempo tão belas.

Beijos para ti.

A foto é óptima, as tuas também.
Quando voltas ao Porto com o "Olhares"? Já foi há tanto tempo, vi mas não pude ir naquele dia, com muita pena minha.

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.
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.
Se no coração não possa
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me leve no seu lembrar.
.
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.
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por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...
se só as estrelas é que me entenderiam?

Emílio Moura



Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902Dores do Indaiá28 de setembro de 1971Belo Horizonte) foi um poetamodernista, integrante do grupo de modernistas mineiros que ajudaram a revolucionar a literatura brasileira na década de 1920. Foi redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais. Moura foi também professor universit…

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António Botto
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