quinta-feira, setembro 08, 2011

UMA BRISA...




"Uma brisa ergue-se no interior da terra e chega a mim, à consciência de mim: o meu rosto, os meus lábios, o meu corpo tocado por essa brisa. Caminho por entre essa brisa a passar por mim, como se atravessasse uma multidão invisível. A brisa, ao tocar os meus olhos, transforma-se em lágrimas que descem frias pelo meu rosto. Os meus lábios. Sinto-as e sinto a memória das vezes que chorei o desespero parado, mais triste, de lágrimas que descem lentamente pelo rosto. O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que a consiga imaginar e as lágrimas, que eram apenas a brisa a tocar os meus olhos, começam a ser lágrimas de desespero verdadeiro. Paro no passeio. O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim."

JOSÉ LUIS PEIXOTO; excerto de "Lunar"


Foto de Piotr Kowalik

2 comentários:

Lara disse...

Quando eu era menina, contavam-me uma estória de alguém que beijando com amor as lágrimas de quem sofre, as transformava em pérolas preciosas que lhe enriqueceriam a vida.Este texto recordou-me essa estória.Quem sabe se um dia essa fiada de lágrimas dolorosas se torna num colar coroado da melhor preciosidade da vida?
O metal não se purifica sem passar pelo fogo e a poesia talvez não seja excelsa sem passar por lágrimas. Mas passarão e nós cá estaremos.

BRANCAMAR disse...

Lumife,

Foste buscar um texto magnífico de um autor a quem descubro cada vez mais qualidades, que ando a descobrir, é um autor de quem leio muitos excertos e quero descobrir cada vez mais profundamente. No lançamento do seu último livro estive com ele, após o ter conhecido de muitas maneiras no facebook e até me ter tornado amiga de uma simpática brasileira que faz um doutoramento sobre ele. Os brasileiros adoram.
Mas, o que eu descobri quando estive no seu lançamento foi um autor com uma interactividade única com os leitores. Descobri também aí que é Alentejano como tu, :)) e muito humano e humilde, não se importa muito que a fila para os autógrafos aumente, nem está preocupado com o tempo, cada leitor tem direito a uma conversa muito particular, como se estivesse a falar com um amigo.
Este texto mostra-nos um autor pleno de sentimentos, que nos transmite formas de os dizer tão simples e ao mesmo tempo tão belas.

Beijos para ti.

A foto é óptima, as tuas também.
Quando voltas ao Porto com o "Olhares"? Já foi há tanto tempo, vi mas não pude ir naquele dia, com muita pena minha.