sábado, setembro 10, 2016

ORDEM DO DIA





ORDEM DO DIA

Homens novos temperados pela guerra,
das fábricas enormes e cinzentas
- rasgai poemas na terra
com as vossas ferramentas!
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Homens das oficinas e dos cais,
dos campos e da faina sobre o mar
- porque não ensinais
os poetas a cantar?
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Algemados - não importa por que leis -
seja qual for a vossa raça e a vossa casta,
vinde dizer o que sabeis!
- Por agora é quanto basta.
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Vinde das minas, dos fornos, das caldeiras,
vergados da descarga do carvão!
Vinde! Porque chegou enfim o dia
de apressar a tarefa inconcluída!
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- E a poesia, esta poesia,
é um facho que vai de mão em mão
pelos caminhos da vida.
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Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "Companheira dos Homens"

Pedro Sidónio de Araújo Muralha (Lisboa, 28 de julho de 1920 - Curitiba, 8 de dezembro de 1982) foi um escritor português.
Ainda muito jovem colaborou com revistas e publicações literárias de algum modo associados ao que viria a ser o neo-realismoportuguês (como por exemplo "Mocidade Académica" e "Solução").
Em 1941, incentivado por Bento de Jesus Caraça, publicou o seu primeiro livro de poesia: Beco. Integrou o movimento neo-realista e os agrupamentos lisboetas desta corrente literária, onde em conjunto com Armindo RodriguesJoaquim NamoradoFernando Namora ou Mário Dionísio foi uma das figuras de proa. Com a obra Passagem de Nível(Coimbra, 1942) fez parte do chamado Novo Cancioneiro, coleção que reuniu obras poéticas de vários autores contestatários do regime salazarista.
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Pintura de Tarsila do Amaral.
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