Atravessei o jardim solitário e sem lua, Correndo ao vento pelos caminhos fora, Para tentar como outrora Unir a minha alma à tua, Ó grande noite solitária e sonhadora.
Entre os canteiros cercados de buxo, Sorri à sombra tremendo de medo. De joelhos na terra abri o repuxo, E os meus gestos dessa encantação, Que devia acordar do seu inquieto sono A terra negra canteiros E os meus sonhos sepultados Vivos e inteiros.
Mas sob o peso dos narcisos floridos Calou-se a terra, E sob o peso dos frutos ressequidos Do presente, Calaram-se os meus sonhos perdidos.
Entre os canteiros cercados de buxo, Enquanto subia e caía a água do repuxo, Murmurei as palavras em que outrora Para mim sempre existia O gesto dum impulso.
Palavras que eu despi da sua literatura, Para lhes dar a sua forma primitiva e pura, De fórmulas de magia.
Docemente a sonhar entre a folhagem A noite solitária e pura Continuou distante e inatingível Sem me deixar penetrar no seu segredo E eu senti quebrar-se, cair desfeita, A minha ânsia carregada de impossível, Contra a sua harmonia perfeita.
Tomei nas minhas mãos a sombra escura E embalei o silêncio nos meus ombros. Tudo em minha volta estava vivo Mas nada pôde acordar dos seus escombros O meu grande êxtase perdido.
Só o vento passou e quente E à sua volta todo o jardim cantou E a água do tanque tremendo Se maravilhou Em círculos, longamente.
Sophia de Mello Breyner Andresen, “Cem poemas de Sophia”
Foto de Balkhovitin Dmitrij
1 comentário:
Anónimo
disse...
Mais um blog homenageando poetas que nunca " morrem".
1 comentário:
Mais um blog homenageando poetas que nunca " morrem".
Obrigada pela partilha, amigo Lumife,
Beijos.
Maria
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