sábado, setembro 27, 2014

O AMOR

Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?

Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.

Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.





Nuno Júdice


Foto de Vladimir Mercy

sábado, agosto 09, 2014

RENASCER

Foto de Irina Z

Solto as amarras do sonho;
São os versos que componho
Loucuras do dia a dia,
Fruto de mil frustrações
Do meu mundo de ilusões;
Quimeras e nostalgia.

Entre descrença e saudade
Procuro a minha verdade,
Busco a paz do meu viver.
Não me prendam, não me parem,
Ao passado não me agarrem,
Quero voltar a renascer.

Vou esperar, ser paciente,
Num torpor inconsciente.
Os deuses velem por mim !
Preciso virar a sorte,
Superar a própria morte;
Que a morte não seja o fim !


Orlando Fernandes

domingo, julho 27, 2014

QUANDO O NAVIO PARTIU


QUANDO O NAVIO PARTIU

Quando o navio partiu do cais, cheio de gente
- O cais que era, nessa hora, todos os cais do mundo -,
Um só vulto ficou na amurada, indiferente.

Em terra, os lenços acenavam, como um grande incêndio branco
Que se propagou ao navio.
- E o vulto era indiferente ao grande incêndio branco.

A sirene de bordo começou a vibrar desesperadamente,
Em toada de naufrágio.
- E o vulto era ainda alheio a esse som plangente.

O grande paquete afastou-se, com rumo ao mar de sempre, à eterna rota;
Na distância ficou o cais, cheio de lenços brancos, como espuma à flor da vaga;
E abandonou a esteira do navio a última gaivota.

A noite veio – a enorme teia cheia de gotas de orvalho tremeluzindo ao vento;
Depois, surgiu a lua – a grande aranha senhora dessa enorme teia;
E do navio subiu para a lua o coro de todos os lamentos.

Um só vulto ficou, olhando o mar e os astros,
Indiferente ao Futuro, indiferente ao Passado,
Lendo as oitavas que, no Céu, iam escrevendo os mastros.

Esse vulto era eu!
Eu que, de tanto partir, já não sofro a Partida,
Como a fonte não sente a água em que se deu.

Eu, que chego a sorrir e que parto sem esforço.
Possa eu partir, um dia, assim para a grande viagem,
Sem saudade, sem medo e sem remorso!


Anrique Paço d’Arcos


Foto de Zeonoff

terça-feira, maio 27, 2014

A MULHER QUE PASSA



A Mulher que Passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa. 
Seu dorso frio é um campo de lírios 
tem sete cores nos seus cabelos 
sete esperanças na boca fresca! 

Oh! Como és linda, mulher que passas 
que me sacias e suplicias 
dentro das noites, dentro dos dias! 

Teus sentimentos são poesia 
teus sofrimentos, melancolia. 
Teus pêlos leves são relva boa 
fresca e macia. 
Teus belos braços são cisnes mansos 
longe das vozes da ventania. 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 

Como te adoro, mulher que passas 
que vens e passas, que me sacias 
dentro das noites, dentro dos dias! 

Porque me faltas, se te procuro? 
Por que me odeias quando te juro 
que te perdia se me encontravas 
e me encontrava se te perdias? 

Por que não voltas, mulher que passa? 
Por que não enches a minha vida? 
Por que não voltas, mulher querida 
sempre perdida, nunca encontrada? 
Por que não voltas à minha vida 
para o que sofro não ser desgraça? 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 
Eu quero-a agora, sem mais demora 
a minha amada mulher que passa! 

No santo nome do teu martírio 
do teu martírio que nunca cessa 
meu Deus, eu quero, quero depressa 
a minha amada mulher que passa! 

Que fica e passa, que pacifica 
que é tanto pura como devassa 
que bóia leve como a cortiça 
e tem raízes como a fumaça. 

Poema de Vinicius de Moraes, in ‘Antologia Poética’
Gosto ·  · 

sábado, maio 24, 2014

SONETO DA SAUDADE

Foto de Aleksey Ershov

Em minh'alma chove tanto
que não há como esconder
entre os olhos tanto pranto
que meu pranto faz chover...

Para encanto ou desencanto
em minh'alma é anoitecer
com saudade do teu canto
no encanto do amanhecer...

Num jardim sem claridade
mora em mim tua saudade
com o meu modo de viver...

E a saudade não consegue
esquecer que me persegue
para eu nunca te esquecer

Afonso Estebanez


terça-feira, abril 29, 2014

PRECISO DE TI

Hoje, eu preciso de ti

Preciso da tua presença louca

Preciso dos teus devaneios

Preciso de beijar tua boca

Preciso de olhar teus seios

Preciso dos teus braços

Preciso do teu calor

Preciso dos teus abraços

Hoje, preciso do teu amor

Como sempre

L.M.

Foto de Ognyan Geshev

segunda-feira, abril 28, 2014

SONETO DO AMOR E DA MORTE



quando eu morrer murmura esta canção 
que escrevo para ti. quando eu morrer 
fica junto de mim, não queiras ver 
as aves pardas do anoitecer 
a revoar na minha solidão. 

quando eu morrer segura a minha mão, 
põe os olhos nos meus se puder ser, 
se inda neles a luz esmorecer, 
e diz do nosso amor como se não 

tivesse de acabar, sempre a doer, 
sempre a doer de tanta perfeição 
que ao deixar de bater-me o coração 
fique por nós o teu inda a bater, 
quando eu morrer segura a minha mão. 

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

quarta-feira, abril 09, 2014

VULCÃO DOS SENTIDOS



Vulcão dos sentidos

A minha alma anima-se no reflexo cristalino 

Do Sol da vida, espelhado nas águas
Das minhas memórias!
Traz-me lembranças daquele amor,
Que um dia me sufocou de tanto doer,
De paixão e emoções exacerbadas,
No sentir de prazeres desatinados,
Levados em voos sem rumo,
Sobre as areias quentes de um fogo,
Feito vulcão nas entranhas do nosso ser!
Na ausência do ar, estrangulado no beijo,
De anseios rebuscados sob o manto do luar;
Pensamentos esmorecidos na sensação,
Carinhosa do teu forte amplexo
E na carícia da tua pele sedosa,
Perturbadora dos meus sentidos;
O murmúrio dos teus lábios,
Quando beijavam os meus ouvidos,
Fazendo-me desfalecer
Num torpor de extasiante volúpia!

Acabam-se-me as lembranças
Que se levam na suavidade
Do crepúsculo que me desperta.


José Carlos Moutinho

sábado, abril 05, 2014

SONETO A QUATRO MÃOS



Soneto a Quatro Mãos

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.
Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.
Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.
Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

sexta-feira, março 21, 2014

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU

Foto de Pierre Dumas



Além da Terra, além do Céu,

no trampolim do sem-fim das estrelas,

no rastro dos astros,

na magnólia das nebulosas.

Além, muito além do sistema solar,

até onde alcançam o pensamento e o coração,

vamos!

vamos conjugar

o verbo fundamental essencial,

o verbo transcendente, acima das gramáticas

e do medo e da moeda e da política,

o verbo sempreamar,

o verbo pluriamar,

razão de ser e de viver.



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


quinta-feira, março 06, 2014

NUM SONHO



Em minhas mãos tomo teu rosto agora
E não sei se esse gesto vai ferir-me.
Não sei se fico aqui, pensando em ir-me, 
Ou se a teus pés sucumba sem demora.


Tenho medo de amar! Vou demitir-me
Desse ofício de sonhos. Vou-me embora.
Mas, o Amor me chama e nele ancora
O meu jeito de ser e de exprimir-me.


Tomo teu rosto, então, por um minuto.
Um grande amor, do eterno  claro fruto, 
Envolve-me de todo e com loucura.


Entregue fico então ao meu desejo
E ficas em meus braços e te beijo
E morres de prazer e de ventura.


ARTUR EDUARDO BENEVIDES


Foto de Mikhail Svetlov

quarta-feira, fevereiro 05, 2014

O GUARDADOR DE REBANHOS

Pintura de SILVA PORTO



Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.


ALBERTO CAEIRO

quinta-feira, dezembro 12, 2013

ETERNIDADE



ETERNIDADE

Quero acender na noite, uma alvorada
Que seja luz intensa apetecida,
A iluminar a minha caminhada,
Quando um dia voar, pr’a lá da vida.

Quero nas ondas do mar, uma nau alada,
Que me há-de transportar e dar guarida,
E que branca gaivota descuidada,
Leve no voo, me ajude na subida.

Quando minha alma, no espaço já vogar,
Pela nuvem mais bela que encontrar,
Hei-de enviar-te ainda, um beijo ardente;

E se da terra, à noite, olhares as estrelas,
Hás-de sentir, que vivo numa delas,
A esperar por ti eternamente.

(Inédito)

Orlando Fernandes

(Nova Antologia de Poetas Alentejanos)

quarta-feira, outubro 16, 2013

AMOR

Foto de Светлана Дракина





Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!

Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.

Amor, tão chão de Amor,
que sensível és...
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!

Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e enfurece
e logo recai na branda impotência.

Canseira eterna!
Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes,
tanto grito e pena perdida...
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti
e tu de nós?

IRENE LISBOA


Irene do Céu Vieira Lisboa nasceu no dia 25 de Dezembro de 1892 e faleceu a 25 de Novembro de 1958. Foi escritora, professora e pedagoga.

domingo, setembro 22, 2013

A MULHER NUA



A Mulher NuaHumana fonte bela, 
repuxo de delícia entre as coisas, 
terna, suave água redonda, 
mulher nua: um dia, 
deixarei de te ver, 
e terás de ficar 
sem estes assombrados olhos meus, 
que completavam tua beleza plena, 
com a insaciável plenitude do seu olhar? 

(Estios; verdes frondas, 
águas entre as flores, 
luas alegres sobre o corpo, 
calor e amor, mulher nua!) 

Limite exacto da vida, 
perfeito continente, 
harmonia formada, único fim, 
definição real da beleza, 
mulher nua: um dia, 
quebrar-se-á a minha linha de homem, 
terei que difundir-me 
na natureza abstracta; 
não serei nada para ti, 
árvore universal de folhas perenes, 
concreta eternidade! 

Juan Ramón Jiménez, in "La Mujer Desnuda" 
Tradução de José Bento
Foto de Vabalas

sábado, agosto 31, 2013

PINTURA ABSTRACTA



PINTURA ABSTRACTA

Eu, genial pintor me imaginava,
Pintando teu perfil, o teu regaço,
Enquanto que ao alcance do meu braço...
Teu corpo juvenil, p'ra mim posava.

A minha insana mente desenhava
Tua gentil figura, de um só traço,
E em sonhos, envolvi-te num abraço...
Mais forte do que as cores com que pintava.

Sorrias-me em ondas de ternura,
Incentivando a pueril loucura
Em que eu, alucinado me perdia,

Posaste para mim, a noite inteira,
Amei, como se fosse a vez primeira...
Só acordei do sonho... era já dia !

ORLANDO FERNANDES

segunda-feira, agosto 12, 2013

OS ANOS SÃO DEGRAUS


OS ANOS SÃO DEGRAUS


Os anos são degraus, a vida a escada
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
Só Deus pode fechá-la,
Pode abri-la.

São vários os degraus; alguns sombrios,
Outros ao sol, na plena luz dos astros,
Com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
Nas mãos dos vendavais.

Mas tudo são degraus; tudo é fugir
À humana condição.
Degrau após degrau,
Tudo é lenta ascensão.

Senhor, como é possível a descrença.
Imaginar, sequer, que ao fim da Estrada
Se encontre após esta ansiedade imensa
Uma porta fechada
E mais nada?


FERNANDA DE CASTRO



terça-feira, julho 30, 2013

SAUDADE





SAUDADE

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

MIA COUTO


Foto de Hamanov Vladimir


sexta-feira, julho 19, 2013

AMOR




Amor
o teu rosto à minha espera, o teu rosto 
a sorrir para os meus olhos, existe um 
trovão de céu sobre a montanha. 

as tuas mãos são finas e claras, vês-me 
sorrir, brisas incendeiam o mundo, 
respiro a luz sobre as folhas da olaia. 

entro nos corredores de outubro para 
encontrar um abraço nos teus olhos, 
este dia será sempre hoje na memória. 

hoje compreendo os rios. a idade das 
rochas diz-me palavras profundas, 
hoje tenho o teu rosto dentro de mim. 

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"


Foto de Sergey Ryzhkov

segunda-feira, julho 08, 2013

POEMA DA DESPEDIDA



Poema da despedida





Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
 os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
 nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

MIA COUTO


Foto de Sergey Ryzhkov


sábado, junho 08, 2013

AINDA TE NECESSITO ...


AINDA TE NECESSITO ... Ainda não estou preparado para perder-te Não estou preparado para que me deixes só. Ainda não estou preparado pra crescer e aceitar que é natural, para reconhecer que tudo tem um princípio e tem um final. Ainda não estou preparado para não te ter e apenas te recordar. Ainda não estou preparado para não poder te olhar ou não poder te falar. Não estou preparado para que não me abraces e para não poder te abraçar. Ainda te necessito. E ainda não estou preparado para caminhar por este mundo perguntando-me: Porquê? Não estou preparado hoje nem nunca o estarei. AINDA TE NECESSITO. Pablo Neruda

sábado, maio 18, 2013

QUEM ERA ?







QUEM ERA ?


Em volta olhei... a ver se oculto via
Alguém que de meus olhos se ocultava:
Voz carinhosa o coração ouvia...
Voz carinhosa ao coração falava...

Voltei a olhar... e vi que me enganava !
Mas sempre o mesmo engano me iludia :
Voz carinhosa ao coração falava...
Voz carinhosa o coração ouvia...


Ansiosa, então, e sempre e mais olhando,
Sem nada ver, meu Bem, certeza eu tive
De que eras tu e a tua voz falando :


Tu -  minha Vida ! Tu  - minha Esperança !
Falando na saudade que em mim vive,
Vivendo no Amor e na Lembrança.


Maria Isabel da Camara Quental


Foto de Aleksandr D.

INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...