domingo, abril 26, 2015
QUANDO TE VI
QUANDO TE VI
A manhã era clara, refulgente.
Uma manhã dourada. Tu passaste.
Abriu mais uma flor em cada haste.
Teve mais brilho o sol, fez-se mais quente.
E eu inundei-me dessa luz ardente.
Depois não sei mais nada. Olhei... Olhaste...
E nunca mais te vi. . . - Raro contraste! –
A madrugada transformou-se em poente.
Luz que nasceu e apenas cintilou!
Deixou-me triste assim que se apagou,
às vezes fecho os olhos; vejo-a ainda...
E há tanto sol dourando esses trigais!
Olhaste, olhei, fugiste... Ai, nunca mais,
nunca mais tive outra manhã tão linda!
Virgínia Vitorino
1895-1967
Foto de Alla S.
domingo, abril 19, 2015
REGRESSO
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina (1943 - 2012)
.
.
domingo, abril 12, 2015
SONETO DO CATIVO
Soneto do Cativo
Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;
o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;
se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;
não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!
David Mourão-Ferreira.
sábado, março 28, 2015
NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS
NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS
Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos
ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.
e por dentro das casas onde nos amámos
ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.
Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor.
Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes
a nossa alma líquida e atormentada
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor.
Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes
a nossa alma líquida e atormentada
desvendará em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.
Joaquim Pessoa.
Foto de Hamanov Vladimir
quinta-feira, março 05, 2015
AMIZADE
De mais ninguém, senão de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: "Espera e confia!"
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.
Carlos Queirós (Poeta Português, 1907-1949)
Foto de Рябок Андрей
AMO-TE POR TODAS AS RAZÕES E MAIS UMA
Amo-te por todas as razões e mais uma
Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.
Joaquim Pessoa em Ano Comum
Foto de Sergey Ryzhkov
Foto de Sergey Ryzhkov
domingo, março 01, 2015
O TEU SORRISO
O TEU SORRISO
Sorrio ao ver o teu sorriso
no rosto das crianças
encontro o teu sorriso
em tudo por onde passo
reparo nas pessoas
que revelam o teu sorriso
sorrio ao pensar em ti
recordando o teu sorriso
olho o espelho
onde se reflecte o teu sorriso
Foge o tempo e mais tempo
sempre me acompanha o teu sorriso
passo os dias e as noites
sonhando com o teu sorriso
esse sorriso
me chama
me atrai
me sufoca
é por esse sorriso
que te amo
que te quero
que me perco
sempre
quero sempre lembrar
esse sorriso.
28Fev2015
Lumife
foto de Igor
sexta-feira, fevereiro 13, 2015
PORQUE EXISTES...
De ti, quero apenas a saudade
dum passado nosso, há tanto tempo
de ti, quero apenas a verdade
dum tempo loucura e sentimento.
Nada te peço, nada mais desejo
que a pálida sombra dessa era
vida em que tivemos o ensejo
de vivermos os dois em primavera.
Depois, foi o adeus, outras viagens;
e perdidos na bruma do instante
perdemo-nos de nós e fomos tristes...
encontrei-te hoje; outras paragens
vai-se a bruma com o sol radiante
e sou de novo feliz, pois tu existes!...
MARIA MAMEDE
NÃO DEIXES...
NÃO DEIXES...
Não deixes que meus dedos se entrelacem
nos fios da saudade;
Não deixes que meus olhos entardeçam
na luz doutros olhos
nem que outros beijos sulquem a minha boca
se são os teus que ela procura...
não deixes que meus dedos se espraiem
noutra almofada
que meu corpo, ávido de carícias
estiole noutros braços
que minha alma
padeça as raivas da perdição
por ser doutro a cama, o corpo a essência...
não deixes que sequem em mim
as flores da recordação
os prados da esperança
os rios do amor;
não deixes que meus dedos
se entrelacem
nos silvados da dor!...
nos fios da saudade;
Não deixes que meus olhos entardeçam
na luz doutros olhos
nem que outros beijos sulquem a minha boca
se são os teus que ela procura...
não deixes que meus dedos se espraiem
noutra almofada
que meu corpo, ávido de carícias
estiole noutros braços
que minha alma
padeça as raivas da perdição
por ser doutro a cama, o corpo a essência...
não deixes que sequem em mim
as flores da recordação
os prados da esperança
os rios do amor;
não deixes que meus dedos
se entrelacem
nos silvados da dor!...
MARIA MAMEDE
Foto de Dobrijan Aleksandr
"É lindo este poema..... não deixarei que te esqueças de mim pq eu tb jamais te esquecerei..... " 28jun2011-momentos
terça-feira, fevereiro 10, 2015
SAUDADE
SAUDADE.
Por que sinto falta de você? Por que esta saudade?
Eu não te vejo mas imagino tuas expressões, tua voz, teu cheiro.
Tua amizade me faz sonhar com um carinho,
Um caminhar, a luz da lua, a beira mar.
Saudade este sentimento de vazio que me tira o sono
me fazendo sentir num triste abandono, é amizade eu sei, será amor talvez...
Só não quero perder tua amizade, esta amizade...
Que me fortalece me enobrece por ter você.
Eu não te vejo mas imagino tuas expressões, tua voz, teu cheiro.
Tua amizade me faz sonhar com um carinho,
Um caminhar, a luz da lua, a beira mar.
Saudade este sentimento de vazio que me tira o sono
me fazendo sentir num triste abandono, é amizade eu sei, será amor talvez...
Só não quero perder tua amizade, esta amizade...
Que me fortalece me enobrece por ter você.
Machado de Assis.
foto da net
quinta-feira, janeiro 29, 2015
DIZ O MEU NOME
Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem
[os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome
Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'
Foto de Aleksander Szydlowski
quinta-feira, janeiro 22, 2015
Estou Mais Perto de Ti porque Te Amo
Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.
Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.
Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.
Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.
Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'
Foto de Aleksandr Krivickij
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.
Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.
Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.
Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.
Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'
Foto de Aleksandr Krivickij
segunda-feira, dezembro 15, 2014
AMAR E SER AMADO !
Amar e Ser Amado
Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano,
Beijar teus lábios em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante, amado
Como um anjo feliz... que pensamento!?
Castro Alves
1847/1871
Imagem de Dorina Costras
domingo, dezembro 14, 2014
Pus de parte a modéstia e o pudor
Pus de parte a modéstia e o pudor
Pus de parte a modéstia e o pudor
e fui contando à Vida
tudo que tinha sido a minha vida.
Não ocultei sequer um pormenor.
Ora foi depois desta confissão
que ela se me deu nua, sem disfarces,
como se eu fora o seu primeiro homem…
Sebastião da Gama
Foto de Emilevna
Foto de Emilevna
domingo, novembro 23, 2014
SONETO DA SAUDADE
Soneto da saudade
Quando sentires a saudade retroar
Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso.
E ternamente te direi a sussurrar:
O nosso amor a cada instante está mais vivo!
Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas...
E a te expressar que este amor em nós ungindo
Suportará toda distância sem problemas...
Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.
Lembrar-te-ás toda ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos...
Nem a distância apaga a chama da paixão
Autor - Guimarães Rosa
Foto de Andrey Bondar
quarta-feira, novembro 19, 2014
É TEMPO DE AMAR AINDA MAIS...
É tempo de amar ainda mais
quando a fogueira que em nossa vida ainda não ardeu
desperta a mão da brisa que de novo se acendeu ...
É tempo de amar ainda mais
quando o desejo tem a força da maré que nos agita
e o silêncio que fustiga os nossos lábios tanto grita ...
É tempo de amar ainda mais
quando as nossas mãos se recusam a se soltar
cada vez mais presas ao desejo que queremos saciar ...
É tempo de viver o amor rasgando todos os fantasmas.
É tempo de amar ainda mais, como se a luz não existisse,
ou uma remota e cintilante estrela se extinguisse ...
Não quero viver fugazes instantes de uma tarde de amor,
uma fracção de segundo. Poeira cósmica. Meteorito.
Por ti ... serei o sol a arder no infinito !
ALBINO SANTOS
in " A Evocação do Teu Nome"
Foto de Arian Bahrami
domingo, novembro 16, 2014
POR DECORO
Quando me esperas, palpitando amores,
e os lábios grossos e úmidos me estendes,
e do teu corpo cálido desprendes
desconhecido olor de estranhas flores;
quando, toda suspiros e fervores,
nesta prisão de músculos te prendes,
e aos meus beijos de sátiro te rendes,
furtando às rosas as purpúreas cores;
os olhos teus, inexpressivamente,
entrefechados, lânguidos, tranquilos,
olham, meu doce amor, de tal maneira,
que, se olhassem assim, publicamente,
deveria, perdoa-me, cobri-los
uma discreta folha de parreira.
Artur Azevedo
(1855-1908)
Foto de Alexander Motylev
quarta-feira, outubro 15, 2014
OLHANDO-SE
Olhando –se
O espelho enche-se com a tua
imagem; e queria tirá-lo da tua
mão, e levá-lo comigo, para
que o teu rosto me acompanhe
onde quer que eu vá.
Mas sem ti, o espelho
fica vazio; e ao olhá-lo, vejo
apenas o lugar onde estiveste, e
os olhos que os meus olhos procuram
quando não sei onde estás.
Por que não fechas os olhos
para que o espelho te prenda, e
outros olhos te possam guardar,
para sempre, sem que tenham de olhar,
no espelho, o rosto que eu procuro?
Nuno Júdice
Foto de Andrey Gogolev
Foto de Andrey Gogolev
sexta-feira, outubro 10, 2014
HORA DE SAUDADE
Hora da saudade
Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu'inda há pouco lias.
As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave Maria o sino , que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.
E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.
E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.
No ramo curto o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras - ave do céu...minh'alma - o ninho!
Por onde trilhas - um perfume expande-se
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...
E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...
Castro Alves
(1847-1871)
Foto de Ognyan Geshev
Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu'inda há pouco lias.
As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave Maria o sino , que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.
E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.
E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.
No ramo curto o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras - ave do céu...minh'alma - o ninho!
Por onde trilhas - um perfume expande-se
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...
E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...
Castro Alves
(1847-1871)
Foto de Ognyan Geshev
sábado, setembro 27, 2014
O AMOR
Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.
Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?
Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.
Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.
sábado, agosto 09, 2014
RENASCER
Foto de Irina Z
Solto as amarras do sonho;
São os versos que componho
Loucuras do dia a dia,
Fruto de mil frustrações
Do meu mundo de ilusões;
Quimeras e nostalgia.
Entre descrença e saudade
Procuro a minha verdade,
Busco a paz do meu viver.
Não me prendam, não me parem,
Ao passado não me agarrem,
Quero voltar a renascer.
Vou esperar, ser paciente,
Num torpor inconsciente.
Os deuses velem por mim !
Preciso virar a sorte,
Superar a própria morte;
Que a morte não seja o fim !
Orlando Fernandes
Solto as amarras do sonho;
São os versos que componho
Loucuras do dia a dia,
Fruto de mil frustrações
Do meu mundo de ilusões;
Quimeras e nostalgia.
Entre descrença e saudade
Procuro a minha verdade,
Busco a paz do meu viver.
Não me prendam, não me parem,
Ao passado não me agarrem,
Quero voltar a renascer.
Vou esperar, ser paciente,
Num torpor inconsciente.
Os deuses velem por mim !
Preciso virar a sorte,
Superar a própria morte;
Que a morte não seja o fim !
Orlando Fernandes
domingo, julho 27, 2014
QUANDO O NAVIO PARTIU
QUANDO O NAVIO PARTIU
Quando o navio partiu do cais, cheio de gente
- O cais que era, nessa hora, todos os cais do mundo -,
Um só vulto ficou na amurada, indiferente.
Em terra, os lenços acenavam, como um grande incêndio branco
Que se propagou ao navio.
- E o vulto era indiferente ao grande incêndio branco.
A sirene de bordo começou a vibrar desesperadamente,
Em toada de naufrágio.
- E o vulto era ainda alheio a esse som plangente.
O grande paquete afastou-se, com rumo ao mar de sempre, à
eterna rota;
Na distância ficou o cais, cheio de lenços brancos, como
espuma à flor da vaga;
E abandonou a esteira do navio a última gaivota.
A noite veio – a enorme teia cheia de gotas de orvalho
tremeluzindo ao vento;
Depois, surgiu a lua – a grande aranha senhora dessa enorme
teia;
E do navio subiu para a lua o coro de todos os lamentos.
Um só vulto ficou, olhando o mar e os astros,
Indiferente ao Futuro, indiferente ao Passado,
Lendo as oitavas que, no Céu, iam escrevendo os mastros.
Esse vulto era eu!
Eu que, de tanto partir, já não sofro a Partida,
Como a fonte não sente a água em que se deu.
Eu, que chego a sorrir e que parto sem esforço.
Possa eu partir, um dia, assim para a grande viagem,
Sem saudade, sem medo e sem remorso!
Anrique Paço d’Arcos
Foto de Zeonoff
terça-feira, maio 27, 2014
A MULHER QUE PASSA
A Mulher que Passa
Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
tem sete cores nos seus cabelos
sete esperanças na boca fresca!
Oh! Como és linda, mulher que passas
que me sacias e suplicias
dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
que vens e passas, que me sacias
dentro das noites, dentro dos dias!
Porque me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
que te perdia se me encontravas
e me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passa?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
a minha amada mulher que passa!
No santo nome do teu martírio
do teu martírio que nunca cessa
meu Deus, eu quero, quero depressa
a minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica
que é tanto pura como devassa
que bóia leve como a cortiça
e tem raízes como a fumaça.
Poema de Vinicius de Moraes, in ‘Antologia Poética’
Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
tem sete cores nos seus cabelos
sete esperanças na boca fresca!
Oh! Como és linda, mulher que passas
que me sacias e suplicias
dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
que vens e passas, que me sacias
dentro das noites, dentro dos dias!
Porque me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
que te perdia se me encontravas
e me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passa?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
a minha amada mulher que passa!
No santo nome do teu martírio
do teu martírio que nunca cessa
meu Deus, eu quero, quero depressa
a minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica
que é tanto pura como devassa
que bóia leve como a cortiça
e tem raízes como a fumaça.
Poema de Vinicius de Moraes, in ‘Antologia Poética’
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INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM
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PRESÉPIO A noite era fria Mas bem estrelada, A geada caía Na terra molhada. No estábulo deitado Com bafo aquecido, Em panos enrolado O Menin...





















