domingo, outubro 29, 2017
SONETO DE CONTRICÇÃO
Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.
Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.
Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...
E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.
VINICIUS DE MORAES
Foto de Игорь
quinta-feira, outubro 26, 2017
FOI SEMPRE TÃO INCERTO ...
Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu
coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar.
Foi por isso que, ao contrário de ti, não quis
dormir nessa noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer
era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto.
Mas tu falaste de repente do meio do teu sono,
estendeste o braço na minha direcção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.
.
Maria do Rosário Pedreira (Escritora e poetisa portuguesa, 1959- )
quarta-feira, outubro 25, 2017
OS SILÊNCIOS
OS SILÊNCIOS
Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo
Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo que não
digo
e a palavra
e adivinhas aquilo que não
digo
Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei, não te persigo
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei, não te persigo
Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo
Maria Teresa Horta
segunda-feira, outubro 16, 2017
PALAVRAS MINHAS
Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.
Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.
Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...
Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.
Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.
Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...
Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.
PEDRO TAMEN
Foto de Hamanov Vladimir
Foto de Hamanov Vladimir
quarta-feira, outubro 11, 2017
VOZ DO OUTONO
VOZ DO OUTONO
Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
‑ "Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima solidão,
Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel devesa,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!
Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba vária,
(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!" ‑
Antero de Quental
Foto de Silvia Marmori
Foto de Silvia Marmori
domingo, outubro 08, 2017
TUA AUSÊNCIA
Tua ausência cala o mundo,
o mar, os ventos.
Tua ausência desaba
silenciosamente
sobre os meus dias, soterrando
meu outono…
ela magoa demais o meu sossego.
(Tua ausência é essa substância densa)
Tua ausência é tão presente que é pessoa…
E me abraça.
Marla de Queiroz
Imagem da net
sexta-feira, outubro 06, 2017
ESCREVE-ME
ESCREVE-ME ...
.
Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta...
Como um perfume casto d'açucenas!
.
Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta...
Como um perfume casto d'açucenas!
Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração! "Amo-te!"
Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...
Florbela Espanca
(1894-1930)
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração! "Amo-te!"
Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...
Florbela Espanca
(1894-1930)
terça-feira, outubro 03, 2017
ESCREVER UM ADEUS
.
"Escrever um adeus nunca é fácil
e senti-lo é bem pior.
Agora, sem o fulgor do teu reflexo
o céu vai perdendo a luz, a vida não tem cor
e a sombra de mim quase não a encontro.
Acho que entrei num horizonte distante
onde as luzes se apagam lentamente
talvez esperando, quem sabe, um pôr de sol."
.
albino santos
( in "Entre Margens/Excerto)
quinta-feira, setembro 28, 2017
NAVEGO NOS SENTIRES
navego nos sentires,
em palavras escritas
semeadas com afectos.
.
navego no toque do prazer...
envolvida no olhar fugaz
sedento das marés do mar
.
em palavras escritas
semeadas com afectos.
.
navego no toque do prazer...
envolvida no olhar fugaz
sedento das marés do mar
.
navego nos sonhos
em encontros secretos,
nos murmúrios entre sussurros
ou nos sorrisos de um lábios ocultos
.
navego numa teia
confusa e disforme,
do lado de lá da janela interdita
sobre uma mágoa salgada.
.
navego fundida no desfrutar do silêncio
sem hora, onde sou cicuta sem segredos!
.
helena maltez
.
em encontros secretos,
nos murmúrios entre sussurros
ou nos sorrisos de um lábios ocultos
.
navego numa teia
confusa e disforme,
do lado de lá da janela interdita
sobre uma mágoa salgada.
.
navego fundida no desfrutar do silêncio
sem hora, onde sou cicuta sem segredos!
.
helena maltez
.
segunda-feira, setembro 25, 2017
JUVENÍLIA VII
Juvenília VII
.
Ah! quando face a face te contemplo,
E me queimo na luz de teu olhar,
E no mar de tua alma afogo a minha,
E escuto-te falar;
.
Quando bebo no teu hálito mais puro
Que o bafejo inefável das esferas,
E miro os róseos lábios que aviventam
Imortais primaveras,
.
Tenho medo de ti!... Sim, tenho medo
Porque pressinto as garras da loucura,
E me arrefeço aos gelos do ateísmo,
Soberba criatura!
.
Oh! eu te adoro como a noite
Por alto mar, sem luz, sem claridade,
Entre as refegas do tufão bravio
Vingando a imensidade!
.
Como adoro as florestas primitivas,
Que aos céus levantam perenais folhagens,
Onde se embalam nos coqueiros presas
.
Como adoro os desertos e as tormentas,
O mistério do abismo e a paz dos ermos,
E a poeira de mundos que prateia
A abóbada sem termos! ...
.
Como tudo o que é vasto, eterno e belo;
Tudo o que traz de Deus o nome escrito!
Como a vida sem fim que além me espera
No seio do infinito.
.
FAGUNDES VARELA
.
Foto de Aaron Gershon
segunda-feira, setembro 18, 2017
ESCREVO, NAS FOLHAS GASTAS DA MEMÓRIA ...
escrevo, nas folhas gastas da memória
amarelecidas, pela secagem
de um tempo
cansado
escrevo, com tinta fresca
para te sentir presente,
quando o sol
despontar
escrevo, no meu próprio sono
como se fosse voragem
sonhando nos teus braços
apressada
escrevo, nas estrelas
os teus olhos brilhantes
os espaços que damos em insónias
perigosas
escrevo, na chama cortada
por uma voz escutada,
entre os nossos olhares
cúmplices
escrevo,
perco-me em ti
e não trago mapa
helena maltez
amarelecidas, pela secagem
de um tempo
cansado
escrevo, com tinta fresca
para te sentir presente,
quando o sol
despontar
escrevo, no meu próprio sono
como se fosse voragem
sonhando nos teus braços
apressada
escrevo, nas estrelas
os teus olhos brilhantes
os espaços que damos em insónias
perigosas
escrevo, na chama cortada
por uma voz escutada,
entre os nossos olhares
cúmplices
escrevo,
perco-me em ti
e não trago mapa
helena maltez
foto de Irina Z
terça-feira, setembro 05, 2017
AS PALAVRAS DEVERIAM TER ASAS ...
As palavras deveriam ter asas,
a cor das borboletas,
o perfume das rosas de Maio.
a cor das borboletas,
o perfume das rosas de Maio.
Não me interessam os verbos
com demasiados tempos e modos
Quero escrever um poema
e ressuscitar em ti a Primavera!
ALBINO SANTOS
sexta-feira, setembro 01, 2017
O NOSSO TEMPO ...
Quanto tempo passou...?
Onde andaste ...?
Onde eu andei ...?
Não sabias de mim...
Nada sabia de ti...
E o tempo continuou a passar...
A tua imagem perdurava em meu coração...
Tu também não me esqueceste....
Muito tempo passou....
O amor, por ti, mantinha-se...
Continuavas a amar-me...
Novos rumos tomámos...
O tempo ganhou tempo....
Os dias fizeram anos...
O destino quis que nos reencontrássemos...
O destino quis apagar seus erros do passado...
O tempo, por momentos, parou...
Deixou-nos ser felizes por um tempo...
Mas o tempo é imparável...
E o destino também...
A vida continuou seu rumo...
Com lembranças mais vivas...
Que o tempo não pode apagar...
Luis Milhano (Lumife)
31 Agosto 2010
Foto de Vlad Belin
quarta-feira, agosto 30, 2017
VIRGÍNIA
VIRGÍNIA
Embora o sol fosse alto ainda, áquela
hora já dali desertara, as sombras iam
saindo aos poucos de debaixo dos armários.
De vez em quando as mãos, completamente absortas,
detinham-se no ferro, sobre a tábua, ao lado
do gigo agora esvaziado e dos pesados
tabuleiros de verga, onde se erguia a roupa.
Tornavam-se mais nítidos, assim, os seus
contornos recortados contra a luz.
Dali podia-se avistar o mundo inteiro.
Ao longo dos telhados, por onde um ou outro gato
corria atrás das pombas, oscilava
ligeiramente a corda, onde a cidade, o céu
e os montes pareciam pendurados.
Luís Miguel Nava
1957/1995
Foto de Miahaell
segunda-feira, agosto 28, 2017
Lúcida, a manhã canta na tua voz de prata,
Lúcida, a manhã canta na tua voz de prata,
Meu amor perdido que a saudade aquece.
Na cidade exangue donde eu vim poeta
Lembro a voz do vento que hoje me entristece...
Lembro as tuas faces, meu amor ausente,
Que a lembrança guarda no seu fumo triste,
Que paisagens novas me fizeram pobre
Nesta alma exausta que hoje em mim existe.
Ó sol, meu padrinho, flor do céu!
Que alegria, amor, quando o sol perdoa.
Há gemidos novos na paisagem nova
Meu amor perdido que em minha alma soa.
Antunes da Silva, Canções do Vento
Meu amor perdido que a saudade aquece.
Na cidade exangue donde eu vim poeta
Lembro a voz do vento que hoje me entristece...
Lembro as tuas faces, meu amor ausente,
Que a lembrança guarda no seu fumo triste,
Que paisagens novas me fizeram pobre
Nesta alma exausta que hoje em mim existe.
Ó sol, meu padrinho, flor do céu!
Que alegria, amor, quando o sol perdoa.
Há gemidos novos na paisagem nova
Meu amor perdido que em minha alma soa.
Antunes da Silva, Canções do Vento
domingo, agosto 27, 2017
APELO
APELO
.
Atravessa os caminhos da noite
e vem.
.
A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.
.
Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.
.
Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.
.
Atravessa os campos da noite
e vem.
.
Luísa Dacosta,
.
in CEM POEMAS PORTUGUESES NO FEMININO, (Terramar, 2005)
.
Luísa Dacosta,
.
in CEM POEMAS PORTUGUESES NO FEMININO, (Terramar, 2005)
quinta-feira, agosto 24, 2017
A PALAVRA QUE DESNUDO
Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo
Mia Couto
Art de Arsen Kurbanov
terça-feira, agosto 22, 2017
ABRAÇO IMAGINADO
ABRAÇO IMAGINADO
.
um abraço imaginado pousou-me hoje no peito
e trouxe com ele o teu jeito
de chegar
de sonhar
de gostar
com um gosto tão perfeito
cegou-me no seu apertar
incessante
ofegante
de tonalidade brilhante
lembrando um vento solar
.
por ofuscar-me o olhar
com seu brilho penetrante
as lágrimas que escorreram
por sentir teu abraçar
eram como estrelas d’água
com o sol a cintilar.
um abraço imaginado, deixou-me hoje sozinho
com as mãos tocando o nada
o corpo sem uma morada
e a alma em desalinho
.
Nuno Guimarães, in Pedaços de ti-
.
Arte de Audrey Kawasaki
domingo, agosto 20, 2017
UM BREVE SOPRO
Um breve sopro,
talvez uma ténue aragem
um rumor de pássaro iniciando um voo
quiçá um nenúfar suspenso na aguagem
do rio desfalecido que já sou.
talvez uma ténue aragem
um rumor de pássaro iniciando um voo
quiçá um nenúfar suspenso na aguagem
do rio desfalecido que já sou.
Um leve, quase impercetível pulsar
na fímbria esquecida do coração
um velho mas renovado despertar
no tardio florir do desejo e da paixão.
na fímbria esquecida do coração
um velho mas renovado despertar
no tardio florir do desejo e da paixão.
Um instante riscado no cristal do tempo
talvez um tempo vestido pelo avesso
quem sabe se o amargo deslumbramento
que sinto e desencanto em cada verso.
talvez um tempo vestido pelo avesso
quem sabe se o amargo deslumbramento
que sinto e desencanto em cada verso.
.
Miguel Afonso Andersen, in A aparição de Sofia
segunda-feira, agosto 14, 2017
AQUELA JANELA
AQUELA JANELA...
.
Aquela janela...
Onde meu corpo vergado
Acolhia teu busto enamorado.
.
Aquela abertura...
Onde o luar espreitava
O reflexo dos teus olhos quentes de lava.
.
Aquele sítio...
Onde o calor dos nossos beijos
Ateava o fogo da paixão e dos desejos.
.
Aquela janela...
Onde sonhos se construíam
E sorrisos se fundiam.
.
Aqueles momentos...
Em que o silêncio imperava
Loucuras mil se sonhava...
.
Aquelas horas...
Minutos fugidíos, fugazes,
De que felicidade éramos capazes...
.
Aquela janela...
Virada para o silêncio da rua
Onde o amor sucedia sob os olhos da lua.
.
Aquelas paredes...
Mudas testemunhas de um beijo,
Duma carícia, duma despedida, dum desejo.
.
Aquele silêncio, aquela rua,
Aquela janela, aquela felicidade,
Tudo desapareceu com a cidade...
.
Aquela janela, aquele silêncio,
Aquela rua... indeléveis companheiros meus,
Perene confirmação do último adeus.
.
Aquela janela...
Chaga viva, magoa sempre, até fere.
Impossível aceitar o que o destino quer.
.
Aquela janela...
Orvalhada por lágrimas doridas,
Expiadas e sofridas.
.
Aquela janela...
Um dia se abrirá de par em par
Afastará a tristeza, a dor e a saudade
E deixará o Sol entrar...
.
06 de Abril de 2006
.
Luis Milhano (Lumife)
Foto de João Torres
sexta-feira, agosto 11, 2017
AQUELA RUA ...
Aquela rua...
Que saudades... daquela rua.
A rua minha e tua.
Comprida ou curta...
Comprida para chegar
E ver o teu olhar.
Comprida para chegar
E ver o teu olhar.
Curta ao abalar...
Num instante
Perdia o teu olhar.
Num instante
Perdia o teu olhar.
Naquela rua...
Mesmo com escuridão
Brilhava o teu coração.
Mesmo com escuridão
Brilhava o teu coração.
Naquela rua...
Nas noites do luar
Havia amor a soltar.
Nas noites do luar
Havia amor a soltar.
Naquela rua...
As minhas mãos
Procurando a tua.
As minhas mãos
Procurando a tua.
Naquela rua...
Uns lábios doces
Cor de amora...
Uns lábios doces
Cor de amora...
Naquela rua...
Os beijos longos
Tinham demora.
Os beijos longos
Tinham demora.
E um dia...
Aquela rua...
Minha e tua,
Ficou só,
Vazia e nua.
Aquela rua...
Minha e tua,
Ficou só,
Vazia e nua.
Hoje, olho a rua
E as pedras que pisei,
Falam-me do tempo
Que tanto amei.
E as pedras que pisei,
Falam-me do tempo
Que tanto amei.
Olinda Bonito
14/03/06
Foto de Tatyana Solenikova
segunda-feira, agosto 07, 2017
ENQUANTO HOUVER ... e PODRÁ NUBLARSE ...
ENQUANTO HOUVER ...
Enquanto houver uns olhos que reflectem outros olhos que os fitam,
enquanto a boca responda a suspirar
aos lábios que suspiram,
enquanto sentir-se possam ao beijar-se duas almas confundidas,
enquanto exista uma mulher formosa,
haverá poesia!
GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER
II
Podrá nublarse el sol eternamente;
Podrá secarse en un instante el mar;
Podrá romperse el eje de la tierra
Como un débil cristal.
-todo sucederá- Podrá la muerte
Cubrirme con su fúnebre crespón;
Pero jamás en mí podrá apagarse
La llama de tu amor.
GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER
Gustavo Adolfo Claudio Domínguez Bastida (Sevilla, 17 de fevereiro de 1836-Madrid, 22 de dezembro de 1870), mais conhecido como Gustavo Adolfo Bécquer, foi um poeta e narrador espanhol.
Foto - John Farrar.
domingo, julho 30, 2017
AO IDEAL
AO IDEAL
A quem como a ti amei eu, ó sombra amada !
Atraí-te a mim, pra dentro de mim - e desde então
quase me fiz eu sombra, e corpo tu.
Todavia, os meus olhos não aprendem,
afeitos a ver as coisas fora de si;
pra eles és sempre o eterno "fora-de-mim".
Ah, estes olhos põem-me fora de mim !
De : F. Nietzsche
Friedrich Wilhelm Nietzsche - alemão- 15 Outubro 1844 -- 25 Agosto 1900 - foi um filósofo, crítico cultural, poeta, filólogo.
Foto de Ilya Rashap
sábado, julho 29, 2017
RETRATO
RETRATO
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Amo-te; e o teu corpo dobra-se,
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
.
.
Amo-te; e o teu corpo dobra-se,
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
.
NUNO JÚDICE
In Pedro Lembrando Inês, 2002
In Pedro Lembrando Inês, 2002
quinta-feira, julho 20, 2017
ENVELHECER
ENVELHECER
Boa noite, velhice, vens tão cedo!
Não esperava, agora, a tua vinda.
Eu tão despreocupado estava, ainda,
Levando a vida como num brinquedo…
Tens tão meigo sorriso e um ar tão ledo;
Nos teus cabelos como a prata é linda!
Ao meu teto, velhice, sê bem-vinda!
Fica à vontade. Não me fazes medo.
E ela assim me falou, em tom amigo:
- Estranha me supões, mas, em verdade,
Há muito tempo que, ao teu lado, eu sigo.
Mas, da vida na estúrdia alacridade,
Não me viste viver, seguir contigo…
Eu sou, amigo, a tua mocidade.
Bastos Tigre
Poeta Brasileiro
1882/1957
Foto de Khanina
segunda-feira, julho 17, 2017
Nomeei-te no meio dos meus sonhos ...
Nomeei-te no meio dos meus sonhos
Chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor
Ruy Belo
1933-1978
Foto de Kapitan Nemo
domingo, julho 16, 2017
CATILINA
Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.
.
De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu – coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.
.
Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.
.
E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pr’além do nó de angústia mais convulso.
.
Sofia de Mello Breyner
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Foto de Reda Danaf
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.
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De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu – coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.
.
Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.
.
E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pr’além do nó de angústia mais convulso.
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Sofia de Mello Breyner
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Foto de Reda Danaf
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PRESÉPIO A noite era fria Mas bem estrelada, A geada caía Na terra molhada. No estábulo deitado Com bafo aquecido, Em panos enrolado O Menin...


























