segunda-feira, setembro 12, 2005

Dois Caminhos



Medir em tudo, do chão que se alarga,
o bosque e o muro, o quintal sem alarde,
a lembrança na boca, e tão amarga,
tão terrível, que dela o sol não guarde
rastro ou notícia. O negrume, a ária
de privações e ausências que me invade.
A paixão maior, e mais ordinária,
que arma em mim tamanha brutalidade.
Medir em tudo o verão que me enfada:
seus celeiros, seus moinhos, seus bois.
Uma história vivida e não contada.
Há dois caminhos, tão-somente dois.
Agora urge amar a vida, e mais nada.
Tudo o que desconheço vem depois.





(Iacyr Anderson de Freitas)


(Foto de Sónia.Fernandes.Fragoso - Olhares)

sábado, setembro 10, 2005

LUTA GLOBAL CONTRA A POBREZA

fome mais do que
fome
é
terror é
terrorismo
fome mais do que
nome
é
atentado é
crime
contra a
h u m a n i d a d e



(Moacy Cirne)






DIA DA FAIXA BRANCA


White Band Day -10 TH



Dia 10 DE Setembro, milhões de pessoas, em todo o mundo, tomarão parte em acontecimentos que marquem o DIA DA FAIXA BRANCA.


A FAIXA BRANCA é o símbolo para a luta global contra a pobreza. Podes confeccioná-la com qualquer tira de tecido ou fita branca e usá-la no vestuário ou no corpo.
Por muito que, cada vez mais, duvidemos da bondade das políticas e dos políticos, bem como da eficácia dos nossos apelos temos que os fazer até que eles os submerjam e não possam mais ser ignorados.


Junta-te a nós. Usa a tua FAIXA BRANCA e subscreve uma petição aqui:



www.whiteband.org/Actions/un/eng/takeaction

A Meia Hora de Sol




A Meia hora de sol

Eram casados, mas na verdade como se o não fossem, pois quatro anos volvidos sobre o registo legal, continuavam "amantes" quer na paixão com que se entredevoravam quer na disponibilidade que entendiam dever preservar. Escolhiam-se dia a dia um ao outro. Não tinham horário para o amor. E, como a vida de Mateus estava sempre ameaçada, muitos dos instantes em que se uniam tinham para eles um gosto atormentado e exaltante de primeira vez e de nunca mais. Mas eram alegres. Iam jantar fora com frequência e até passavam fins de semana muito íntimos, quase clandestinos, em pequenos hotéis retirados, de atmosfera civilizada e sorridente, governados por estrangeiros.

Na manhã em que o vieram buscar - dois homens à porta e outros dois na rua - ele cerrou os dentes com força, recusando-se à emoção em altura tal, e só lhe disse:
- Espera por mim, Júlia!

Mas beijou-a, primeiro na boca e depois nas mãos, com devoção, como a desfazer-se em água de alma, que nem ele jamais se apercebera de que lhe queria também assim.
No isolamento da cela reinventava-a, rememorava dia a dia, minuto a minuto, os quatro anos percorridos lado a lado; lamentava o tempo que não lhe dava por esta ou por aquela razão; tinha-a, com toda a gama dos seus olhares, queixumes, suspiros, gritos e êxtases, em todos os alaridos raivosos da sua continência forçada. De noite, ele que briosamente velava, em face dos estranhos e de si próprio, pela sequidão dos seus olhos e pela nudez dos seus lábios, acordava debulhado em lágrimas, assistindo à agonia de ausência que ela, sozinha em casa, conheceria.
Depois foram as visitas - de cada vez meia hora de sol, mesmo que o sol exterior não luzisse no firmamento. Um vidro a separá-los, as palmas das mãos esposando-se, uma de cada lado dessa delgada, mas intransponível fronteira que os dividia. E quase nada conseguiam dizer. Falavam sobretudo pelos olhos, pelo tremer da boca, pelo pasmo atroz do final na ocasião de se separarem. A tarde que se seguia era de todas a mais dolorosa, mas ainda quente do calor de vida que ela trouxera. E sucedia-se o deserto de uma nova, longa, tórrida semana, contando os dias que faltavam para a luz breve de outra visita. Durante meses, e na perspectiva de anos iguais. (...)

As visitas tornavam-se, por vezes, amargas, extenuantes. Júlia adivinhava-lhe nas sombras e nos vincos do rosto a escureza da suspeita e, ao mesmo tempo, uma adoração descabelada (porque tudo ele ia, com efeito, obsessivamente concentrando nela) adoração, de resto, também odienta, a raiar por essa mesma forma de amor possessivo e dependente que dantes ele considerava - com o seu sorriso mais racional - uma forma de alienação. (...)

- É melhor que nunca mais voltes. Não, não venhas. Só nos ferimos um ao outro. Saio daqui, por dentro, a escorrer sangue. E tu vais-te embora ainda em pior estado.

Mas, Mateus, meu querido...

E ele voltou-lhe as costas (só, aliás, para que ela não o visse chorar). O guarda veio, abriu a porta, do lado dela, com um pesado ruído de chaves ferrugentas. Mateus soube, pelo som leve, mas lento, dos passos, que Júlia partira.

E nunca mais, em manhãs de sol, a sombra dos varões da janela se tornou em flores na parte caiada da cela, no dia que fora o da visita.




(Urbano Tavares Rodrigues)


Contos da Solidão (1970)


(Foto de JNunes -Ziggy- Gritos -Olhares)

quinta-feira, setembro 08, 2005

Mariana


Mariana, minha sobrinha-neta, 17 de Agosto - 21H45 - 3,565 - 51 cms



Que as asas providentes
De anjo tutelar
Te abriguem sempre à sua sombra pura!
A mim basta-me só esta ventura
De ver que me consentes
Olhar de longe... olhar!

João de Deus

Meus Oito Anos



Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!





Como são belos os dias

Do despontar da existência!

— Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;

O mar é — lago sereno,

O céu — um manto azulado,

O mundo — um sonho dourado,

A vida — um hino d'amor!





Que aurora, que sol, que vida,

Que noites de melodia

Naquela doce alegria,

Naquele ingênuo folgar!

O céu bordado d'estrelas,

A terra de aromas cheia

As ondas beijando a areia

E a lua beijando o mar!





Oh! dias da minha infância!

Oh! meu céu de primavera!

Que doce a vida não era

Nessa risonha manhã!

Em vez das mágoas de agora,

Eu tinha nessas delícias

De minha mãe as carícias

E beijos de minhã irmã!





Livre filho das montanhas,

Eu ia bem satisfeito,

Da camisa aberta o peito,

— Pés descalços, braços nus —

Correndo pelas campinas

A roda das cachoeiras,

Atrás das asas ligeiras

Das borboletas azuis!





Naqueles tempos ditosos

Ia colher as pitangas,

Trepava a tirar as mangas,

Brincava à beira do mar;

Rezava às Ave-Marias,

Achava o céu sempre lindo.

Adormecia sorrindo

E despertava a cantar!





................................





Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

— Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

A sombra das bananeiras

Debaixo dos laranjais!



Com toda a amizade dedico este poema de Casimiro de Abreu ao Batista Filho (Ilha dos Mutuns)


(Pintura de J.Lopes)

terça-feira, setembro 06, 2005

À Beleza








Não tens corpo, nem pátria, nem familia,

Não te curvas ao jugo dos tiranos.

Não tens preço na terra dos humanos,

Nem o tempo te rói.

És a essência dos anos,

O que vem e o que foi.



És a carne dos deuses,

O sorriso das pedras,

E a candura do instinto.

És aquele alimento

De quem, farto de pão, anda faminto.



És a graça da vida em toda a parte,

Ou em arte,

Ou em simples verdade.

És o cravo vermelho,

Ou a moça no espelho,

Que depois de te ver se persuade.



És um verso perfeito

Que traz consigo a força do que diz.

És o jeito

Que tem, antes de mestre, o aprendiz.



És a beleza, enfim. És o teu nome.

Um milagre, uma luz, uma harmonia,

Uma linha sem traço...

Mas sem corpo, sem pátria e sem família,

Tudo repousa em paz no teu regaço.



À Isabel Filipe que me ofereceu a imagem que abre o post de hoje retribuo com todo o carinho ofertando este poema de Miguel Torga.



segunda-feira, setembro 05, 2005

Quase




Um pouco mais de sol - eu era brasa,

Um pouco mais de azul - eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...



Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído

Num grande mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho - ó dor! - quase vivido...



Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim - quase a expansão...

Mas na minh'alma tudo se derrama...

Entanto nada foi só ilusão!



De tudo houve um começo ... e tudo errou...

- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se enlaçou mas não voou...



Momentos de alma que, desbaratei...

Templos aonde nunca pus um altar...

Rios que perdi sem os levar ao mar...

Ânsias que foram mas que não fixei...



Se me vagueio, encontro só indícios...

Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios...



Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí...

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi...



Um pouco mais de sol - e fora brasa,

Um pouco mais de azul - e fora além.

Para atingir faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...







(Mário de Sá-Carneiro)


(Fotos de Paulo Cesar e Leonel Santos Lopes- Olhares)

domingo, setembro 04, 2005

Não Vou Por Aí...




“Vem por aqui – dizem-me alguns com olhos doces,


estendendo-me os braços, e seguros


De que seria bom que eu os ouvisse


Quando me dizem: “vem por aqui”!


Eu olho-os com olhos lassos,


(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)


E cruzo os braços,


E nunca vou por ali...


“Não, não vou por aí!


Só vou por onde


Me levam meus próprios passos...”



(José Régio)




(Foto de Fernando Correia-Movimentos-Fotografia na Net)

sábado, setembro 03, 2005

Meu Alentejo





(Clique sobre a foto para ver em tamanho maior)


(Foto de Zespinho - Alentejo United Color - Fotografia na Net)






"Amo a Liberdade, por isso... deixo as coisas que amo livres... Se elas voltarem é porque as conquistei... Se não voltarem é porque nunca as possuí."



(Jonh Lennon)



quinta-feira, setembro 01, 2005

ALVITO-OS ROSTOS DE UM PROJECTO






MOVIMENTO INDEPENDENTE


Autárquicas 2005 - ALVITO e VILA NOVA DA BARONIA




"Este Movimento Independente tem como uma das suas principais motivações, criar um novo espaço de cidadania e de intervenção cívica de todos aqueles que não se identificam, no contexto actual, com qualquer das outras candidaturas que se perfilam às próximas eleições autárquicas. Apresenta, desde logo, a característica de acabar com a dependência partidária dos candidatos. Tal não significa que seja um Movimento destituído de qualquer ideologia. A sua matriz ideológica, fortemente democrática, assenta nos conceitos do humanismo, do universalismo e da ecologia humana. Na sua essência, visa conciliar o desenvolvimento económico com a preservação do meio ambiente e com uma maior justiça social. Com vista à concretização destes princípios, pretendemos implementar uma nova forma de administração local, através duma verdadeira democracia participativa, onde toda a população possa intervir na discussão e resolução dos problemas. O exercício democrático dos cidadãos não se confina, nem tão pouco se poderá esgotar, no momento do voto.

A causa que abraçámos é uma causa nobre e os elementos que lhe dão corpo comungam de um conjunto de valores que fornece a indispensável sustentação ao Movimento. O que move este grupo de cidadãos são os interesses colectivos do Concelho de Alvito e não interesses pessoais, clientelistas e/ou de conveniência partidária. A nossa bandeira é o Concelho e é essa que pretendemos levantar bem alto. Para constituirmos e ordenarmos as listas aos vários órgãos não houve negociações para ocupação de lugares e muito menos promessas para candidatos ou familiares! Afirmamo-lo inequivocamente, sem margem para dúvidas! E assim agiremos no futuro! Porque não deixamos, nem deixaremos, hipotecar os valores que defendemos. Porque entendemos que a actividade política pode ser exercida com seriedade, imparcialidade e credibilidade.

Ser autarca não é uma profissão mas o exercício de um cargo, visando o interesse público. Entendemos que a prossecução deste objectivo não se coaduna com negociatas e golpes palacianos. A defesa do interesse público numa autarquia só será possível com isenção, igualdade e transparência nos procedimentos; com justiça e coragem nas decisões; com rigor na gestão dos dinheiros públicos; com uma eficiente gestão e organização dos recursos humanos, dos serviços e das respectivas estruturas funcionais. Com respeito pelos verdadeiros anseios e necessidades das populações a quem se presta um serviço! "

NOTA DO "BEJA": Retirámos o texto acima transcrito do documento publicado, pelo Movimento Independente, em 31 de Agosto de 2005 pelo que pedimos que nos relevem a ousadia.

Para a leitura total deste documento aconselhamos a visita ao site do referido Movimento



Um Sorriso




Um sorriso nesta vida
É sempre agradável ver,
Não custa a quem o dá
E é muito bom receber.

Um sorriso em qualquer boca
Dado ao princípio do dia,
Faz o dia mais brilhante,
Transparecendo de alegria.

Um sorriso verdadeiro
Com sentimento na alma,
Sereniza circunstâncias,
E inspira a paz e a calma.

Um sorriso pode dar-se
Mesmo às vezes sem vontade,
Mas seja lá como for,
Transmite graciosidade.

Um sorriso a qualquer hora
É sempre contagiante,
É uma imagem fagueira,
Que nos fica desse instante.

Um sorriso é saudável
E ao ser humano é preciso.
Ai, como é gratificante,
Ver à chegada um sorriso!…



( Euclides Cavaco)

quarta-feira, agosto 31, 2005

B L O G D A Y




.......................................Foto de João Espinho-Terra de Sol

Por ter aderido à iniciativa- BLOGDAY - o "Beja" tem de

recomendar cinco blogs.

Na impossibilidade de apresentar todos os que representam

os meus dedicados amigos vi-me na obrigação de escolher o

número exigido.

Assim indico:

1 - Rain-Maker

-onde cada palavra aliada à respectiva imagem traduz

todo um sentimento onde se adivinha um coração sensível.

2 - Praça

da República em Beja -Fotografia e Sociedade

preocupações irmanadas no mesmo sentir.

3 - Gastr'eat -

Um mundo de informações no campo turístico.

4 - Ilha dos

Mutuns - A vida, a memória, a sensibilidade, todo um

encantamento em cada palavra.

5 - O Micróbio

- Os mais variados temas sempre tratados com

conhecimento, sobriedade e responsabilidade



terça-feira, agosto 30, 2005

O(s) Baile(s)


Naquele tempo era no castelo que se faziam as festas.

Do que mais gostávamos era dos bailes.

Eram dois bailes acompanhados pela mesma música.

Eram dois bailes no mesmo local - o castelo.

No terreiro, de terra batida, sob o mastro colorido de

festões, balões e lanternas de papel, era o mais

concorrido.


Todos aprimorados em seus fatos domingueiros, eles,

com suas jaquetas de dia de festa, alguns com uma flor

na lapela, elas, lindas, em suas blusas floridas de cores

garridas, fazendo sobressair esbeltos bustos.


Aqui no terreiro, ao som da música sempre igual, os

corpos, enlaçados e frementes, rodopiavam, olhos nos

olhos, sempre sob o olhar desconfiado das mães que,

sentadas, vigiavam as moças.


Aqui se fizeram e desfizeram muitos namoricos.


Também por vezes saíam alguns com a cara

avermelhada dalguma chapada que travara uns

avanços mais atrevidos...


Mas se aqui no terreiro, num mar de gente se dançava

assim, o outro baile era na esplanada do castelo.

Piso superior ao terreiro era local indicado para a

gente "bem" da terra.

Funcionários públicos, comerciantes e lavradores que

mantinham assim a distância com o povo do campo.


Elas com seus vaporosos vestidos, alguns

encomendados, em tempo, na cidade.

Eles, perfumados, brilhantina a luzir naqueles cabelos

bem penteados, engravatados em seus melhores fatos.


Deslizavam, dançando, mantendo uma distância

respeitosa a que não era alheia a vigilância materna.


Os do terreiro olhavam com desdém os que dançavam

na esplanada e sorrindo cochichavam com as parceiras.


Na esplanada os olhos dos pares também se

dirigiam para o que se passava em baixo, no

terreiro, e seguiam com ar superior o jeito

da dança.

Aqueles corpos juntinhos no terreiro,

rodopiando como se de um só se tratasse, os

seus sorrisos ingénuos, as suas bocas

aproximando-se a cada passo, as mãos

grossas e calejadas apertando as

companheiras, criavam-lhes um misto de

inveja e desejo.


O terreiro era para os trabalhadores, a esplanada

era para os "finos"



Por vezes o filho dum lavrador, mais afoito, descia a

escadaria e ia dançar para o terreiro. Mil olhos se lhe

cravavam nas costas e a moça que aceitara a dança era

mal vista durante algum tempo...


A noite ia alta quando todos regressavam a casa para

descansar um pouco, pois breve ia começar nova

labuta, manhã cedo, nos campos.


Rostos cansados mas felizes dos que tinham tido nos

braços, por momentos, as mulheres amadas a quem

finalmente tinham declarado e prometido amor eterno.


L.M.



Ausência






Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces

Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.

No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada

Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.

Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.

Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.

Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.

Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.

Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.

Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.

E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.

Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.




(Vinícius de Moraes)



(Foto de Nuno Belo-Solidão-Fotografia na net)

segunda-feira, agosto 29, 2005

BLOGDAY




BLOGDAY


É no próximo dia 31.Como funciona?Durante o dia 31 de Agosto, bloggers de todo o mundo farão um post a recomendar a visita a novos blogs, de preferência, blogs de cultura, pontos de vista ou atitude diferentes do seu próprio blog. Nesse dia, os leitores de blogs poderão navegar e descobrir blogs desconhecidos, celebrando a descoberta de novas pessoas e novos bloggers.Leia aqui.



(Notícia retirada da Praça da República de Beja)

sábado, agosto 20, 2005

ALVITO - FESTAS DA VILA




A L V I T O



Festas da Vila de Alvito



26 de Agosto – Sexta Feira



15h00 – Abertura de exposição de pintura “O Mercado da

Roupa” de Maria Santos

Local: Centro Cultural de Alvito




15h30 - Abertura de exposição de pintura das utentes do

Atelier Sénior da Junta de Freguesia de Alvito

Local: Biblioteca Luís de Camões




22h00 – Actuação do Grupo de Baile “Chave D’ouro”

Local: PULA


No final da noite, “After Hours” no bar das Piscinas Municipais com DJ’s




27 de Agosto - Sábado


22h00 – Actuação do grupo de Baile “Deká”


24h00 – Actuação de Tayti


01h00 – Espectáculo Piromusical


01h30 – Continuação do baile

Local: PULA

3h00 – Garraiada à Alentejana

Local: Junto ao depósito da água


No final da noite, “After Hours” no bar das Piscinas Municipais com DJ’s




28 de Agosto - Domingo


12h00 - Missa em honra de Nossa Srª da Assunção

Local: Igreja Matriz



14h00 – Actividades Desportivas

Local: Piscinas Municipais



18h00 – Procissão em honra de Nª Senhora da Assunção,

acompanhada pela Banda Filarmónica dos Bombeiros

Voluntários de Alvito



22h00 – Festa de Aniversário dos “Campos do Alentejo”, com

a actuação dos Campos do Alentejo de Alvito e Terras

do Regadio de Odivelas

Local: PULA



No final da noite, “After Hours” no bar das Piscinas Municipais com DJ’s






Água de Alvito salva campanha agrícola


A transferência de 18 milhões de metros cúbicos de água da albufeira de Alvito para Odivelas salvou campanha agrícola no perímetro de rega da barragem, no concelho de Ferreira do Alentejo.

A operação foi concluída esta semana. Manuel Reis, presidente da Associação de Beneficiários da Obra de Rega de Odivelas, afirmou à Radio Pax que, "sem esta transferência a campanha agrícola neste perímetro de rega estava comprometida". A barragem de Odivelas rega actualmente 3 mil hectares de culturas. "Os agricultores têm água para regar na campanha em curso", afirmou o dirigente agrícola à radio de Beja. "No próximo ano, contudo, poderão surgir alguns problemas se a seca se mantiver", alertou Manuel Reis .
Sexta, 12 de Agosto de 2005 - 02:24
Fonte: Rádio Pax - Jornalista : N.A.

sexta-feira, agosto 19, 2005

"Ainda Refulge..."



Ainda refulge a chama

que perturbou um dia meus sentidos?


Não se apaga jamais

a luz de certo olhar que em segredo amei?


Chora, em meu coração,

a nostalgia do bem com que sonhei?


Da noite, abismo imenso,

oiço indistinta voz chamar por mim?


O que me falta e inquieta

serás tu, de quem não sei o nome?


Ou todo o sonho erguido é cinza ao vento,

estrela fria, cada vez mais longe

do puro silêncio em que se esvai a vida?


(Luis Amaro - Natural de Aljustrel)
Foto da Net


quinta-feira, agosto 18, 2005

As Mãos



Com mãos se faz a paz se faz a guerra.

Com mãos tudo se faz e se desfaz.

Com mãos se faz o poema – e são de terra.

Com mãos se faz a guerra – e são a paz.



Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.

Não são de pedras estas casas mas

de mãos. E estão no fruto e na palavra

as mãos que são o canto e são as armas.



E cravam-se no Tempo como farpas

as mãos que vês nas coisas transformadas.

Folhas que vão no vento: verdes harpas.



De mãos é cada flor cada cidade.

Ninguém pode vencer estas espadas:

nas tuas mãos começa a liberdade.





Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967


Foto de Pedro P.Palma - Fotografia na Net

quarta-feira, agosto 17, 2005

Maria Campaniça




Debaixo do lenço azul com sua barra amarela

os lindos olhos que tem!

Mas o rosto macerado

de andar na ceifa e na monda

desde manhã ao sol posto,

mas o jeito das mãos

torcendo o xaile nos dedos

é de mágoa e abandono...

Ai, Maria Campaniça,

levanta os olhos do chão

que eu quero ver nascer o Sol!



(Manuel da Fonseca)



Maria Campaniça, camponesa, campaniça, da aldeia de Salvada, militante do P.C.P desde que se lembrava, trazia pregado na roupa, todo o ano, o emblema do partido em que acreditava.


Aguardava reformas, concretizações.


Morreu nova quando ainda tinha coisas importantes em que pensar, maiores lutas para travar, galeras para subir, manifestações onde erguer o punho, as paredes da sua aldeia para caiar, 4 homens em casa para cuidar, modas alentejanas para cantar.






(Adaptação do texto do blog "Pelos olhos de Caterina")

terça-feira, agosto 16, 2005






Tive amigos que morriam, amigos que partiam


Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.


Odiei o que era fácil


Procurei-te na luz, no mar, no vento




(Sophia de Mello Breyner Andersen)




"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.

Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.

Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram

todos os dias felizes que se apagaram.

Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."




(Miguel Sousa Tavares, a propósito da perda de sua Mãe, Sophia Andersen)



(Foto de Pedro P. Palma-Fotografia na Net)

INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...