sábado, novembro 25, 2006

Retrato de um Amor

Autor da foto Curtis Forrester







Iluminas
a sombra dos meus dias
neste mundo que abrimos devagar
entre o corpo e a alma, sempre mais
secretos no abismo que os devora.

Maior do que este amor nada haverá
até ao fim dos tempos: os teus olhos
respondem ao destino, à sua eterna
graça que paira sobre as nossas vidas
agora a transbordarem numa única
razão feita de luz. a tua boca
inunda a minha língua com o sabor
de todos os sentidos que mergulham
a noite numa água sem retorno.

Para ti absorvo o hálito de um verão
em cada beijo cego, surdo e mudo
respirando de súbito em uníssono:
enigma revelado num só frémito,
insónia submersa que , em silêncio,
regressa pouco a pouco aos nossos braços
afogados na espuma do seu mar.

Perto do teu sorriso há uma fonte
embriagada e pura- meu amor,
dá-me esse coração, essa primeira
raiz de todo o fogo, esse relâmpago
onde cresce para nós a flor de um grito;
segreda-me às escuras mais um sonho
antes de adormeceres sobre o meu ombro.


Fernando Pinto do Amaral

sábado, novembro 18, 2006

foto de Brigitte Carnochan




na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu, depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho, mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


(José Luís Peixoto – A Criança em Ruínas)

sábado, novembro 11, 2006

Foto de João Espinho




Eh, como está triste o mar!
Faz lembrar um animal
Muito manso
E doente.

As ondas mal se mexem.
Parece mesmo
Que tiveram uma avaria.

Dá-me a impressão que o mar
teve algum desgosto
para assim estar…

Ou será a minha solidão que o contagia?

*************

Retrospectiva

Debruço-me para a infância.
Demoro.
Lá faz bom tempo. Há sempre um dia
Novo que começa.

A realidade zanga-se
E ordena-me que recolha.

… o sonho é um carro de bois
que nunca tem pressa

*******************


Antigamente os velhos caiaram a vila,
os velhos mondaram o trigo,
antigamente carregaram o trigo,
amassaram o pão.

Os velhos hoje deixam
cair uma lágrima,
como o suor antigamente
nas terras do patrão.

Chora a lágrima dos velhos
suas pernas seus braços rijos dantes,
seu único bem que já não torna.

Hoje os velhos vão pedindo pelos montes,
hoje os velhos vão metendo no alforge
o pão e o toucinho da reforma

***************

A minha vida é um poema aos bocados
e quando ela terminar
o dobrar dos meus finados
é que o há-de recitar




(Sebastião Penedo - Poeta natural de Alvito)

terça-feira, novembro 07, 2006





AMIGOS


Amigos,
Companheiros do amor e da alegria,
repartindo entre si a ansiedade
e às vezes frustrações dum dia a dia.
Amigos, amigos de verdade…
cavalgam juntos o corcel das ilusões,
dividem entre si, sonhos, prazer,
estudando em conjunto soluções,
rindo felizes nas horas de lazer.


Amigos,
Morrendo um pouco quando um deles morre.
Sofrendo silêncios quando um deles cai.
Seguindo-lhe os passos se algum deles corre
atrás de qualquer sonho que se esvai.
Amigos, amigos de verdade…
não traiem, não falam desabonos,
não quebram um só elo da amizade,
enfrentando juntos, da vida, o frio Outono…


Amigos,
ninguém desfaz as suas ambições!
Ninguém parte a corrente estabelecida!
Nem o tempo. Só a morte ou os turbilhões
sempre imponderáveis que há na vida!
Amigos, amigos de verdade…
Caminham lado a lado pelos anos,
fazendo do convívio o grande abraço;
esquecendo as diferenças, desenganos,
sem ódios, sem mentiras… sem cansaço.



(Orlando Fernandes – Fronteiras do Sonho)

domingo, outubro 29, 2006

Falls embrace de Lauri Blank





AMORES DE VERÃO


A areia era branca,
Plumas de gaivota
Leves e fugidias
Adornavam a praia.

Uma praia de sonho.

O nosso amor ali,
Puro como a areia
Que o mar lança nas ondas,
Incandescente e forte
Como o vermelho do céu
No pôr-do-sol à noitinha.

E,quando a noite chegava
E brisa ligeira surgia,
A adrenalina da felicidade
Fazia voar os pensamentos,
E juntos sonhávamos no tempo.

O Inverno aproximou-se.

Com ele a tristeza dos dias,
A brisa tornou-se forte
Afastou as plumas das gaivotas,
As ondas em turbilhão
Levaram a areia e os sonhos.

O Sol arrefeceu.

Não havia pôr-de-sóis rubros,
E destruídos pelo vento gélido
Foram-se os sonhos ardentes
E o amor veemente,
Que nos deixaram na alma
A melancolia da desilusão,
Dum amor enterrado na areia
Numa praia de sonho
Adornada de plumas de gaivota.


(Olinda Bonito -08/06)

quarta-feira, outubro 11, 2006



Problemas no campo informático não me têm permitido manter as visitas regulares aos amigos.
Espero que em breve sejam sanados estes contratempos.

Beijos e abraços

Até breve

quinta-feira, outubro 05, 2006





FEIRA DOS SANTOS 2006

11ª MOSTRA DE PRODUTOS E SERVIÇOS LOCAIS E REGIONAIS



A Câmara Municipal de Alvito organiza, entre os dias 28 de Outubro e 01 de Novembro de 2006, a 11ª Mostra de Produtos e Serviços Locais e Regionais / Feira dos Frutos Secos. Esta mostra, que decorre no Largo das Alcaçarias é já um importante certame económico que anualmente acolhe mais de 60 expositores, constituindo uma óptima oportunidade de negócio e promoção para todas as empresas e entidades que nela participam.

A tradicional Feira dos Santos, acontece entre os dias 31 de Outubro a 02 de Novembro, em toda a envolvente do Castelo de Alvito e tem associado um programa de actividades culturais, que inclui exposições temáticas, animação de rua, espectáculos nocturnos, e o II Encontro – ROTA DO FRESCO, em que será abordado o património arquitectónico como recurso do desenvolvimento sustentável em zonas do interior de Portugal.

Mais informações, poderão ser obtidas através do e-mail nuno.pereira@cm-alvito.pt

PROGRAMA CULTURAL

28 Outubro (Sábado)

10H00 – Encontro de Jogos Tradicionais. Campo de Futebol
14h45 – 1ªMarcha dos Santos (inscrições e informações nas Juntas de Freguesia até 27/10/2006)
15h00 – Exposição dos trabalhos concorrentes à V Edição dos Jogos Florais do Concelho de Alvito. Centro Cultural de Alvito
15h30 – Lançamento do Livro “À mesa com Fialho de Almeida. Auditório do Centro Cultural de Alvito
17h00 – Abertura da XI Mostra de Produtos e Serviços Locais e Regionais
17h30 - Inicio do 2º Festival Etnográfico dos Santos com:
17h30 – Inicio do Desfile Etnográfico. Recinto da Feira
21h00 – Actuação em palco dos Ranchos Folclóricos
24h00 – Fecho da XI Mostra de Produtos e Serviços Locais e Regionais
02h00 – Fecho dos Bares da Feira

29 Outubro (Domingo)

10h00 – 3º Passeio Equestre “Feira dos Santos
14h00 - Reabertura da XI Mostra de Produtos e Serviços Locais e Regionais
15h00 – Cavalhada (jogos, torneios, etc.). Picadeiro junto ao Pavilhão Gimnodesportivo
21h00 – Fadistas Escondidos (interior da tenda)
24h00 – Fecho da XI Mostra de Produtos e Serviços Locais e Regionais e Fecho dos Bares da Feira

30 Outubro (2ª Feira)

9h00 – Abertura do II Encontro “Rota do Fesco” (ver programa próprio)- Centro Cultural de Alvito
17h00 - Reabertura da XI Mostra de Produtos e Serviços Locais e Regionais
24h00 – Fecho da XI Mostra de Produtos e Serviços Locais e Regionais e Fecho dos Bares da Feira

31 Outubro (3ª Feira)

17h00 - Reabertura da XI Mostra de Produtos e Serviços Locais e Regionais
19h00 – Espectáculo musical com Malteses. Palco da Feira
21h00 - Espectáculo musical com Terras de Rayo no Palco da Feira
24h00 – Fecho da XI Mostra de Produtos e Serviços Locais e Regionais
02h00 – Fecho dos Bares da Feira

01 Novembro (4ª Feira)

9h00 – Reabertura da XI Mostra de Produtos e Serviços Locais e Regionais
10h00 – Abertura de exposição de Antiguidades e Velharias para leiloar na Galeria de Arte (Largo das Alcaçarias, 3A)
10h00 – Arruada pela Banda Filarmónica dos Bombeiros Voluntários de Alvito
14h00 – Inicio da demonstração do Jogo do Pau (pela Feira)
15h00 – Actuação da Associação de Cante Coral Alentejano do Concelho de Alvito e dos “Amigos do Cante de Alvito”, no Palco da Feira
16h00 – Leilão de Antiguidades e Velharias na Galeria de Arte (Largo das Alcaçarias, 3A)
17h00 - Actuação dos Campos do Alentejo, no Palco da Feira
20h00 – Encerramento da XI Mostra de Produtos e Serviços Locais e Regionais












II ENCONTRO ROTA DO FRESCO
“Património e desenvolvimento sustentável”

30-31 de Outubro e 1 de Novembro de 2006
Centro Cultural, Alvito


Tema:
O património arquitectónico como recurso do desenvolvimento sustentável em zonas do interior de Portugal.

Problemática:
O Alentejo detém um conjunto assinalável de património edificado, na sua grande parte com graves problemas de conservação e, principalmente no caso do património arquitectónico religioso, desprovido de uso. Assim, tendo em conta o número, a importância artística e o valor cultural deste legado, bem como, por outro lado, as actuais oportunidades de desenvolvimento para esta região, coloca-se a questão da potencialidade económica, através da ferramenta turística, deste recurso específico. Consequentemente, importa reflectir de que forma o património se pode transformar num veículo de promoção do desenvolvimento local e, preferencialmente, de um desenvolvimento sustentável.

Para a discussão desta problemática, consideramos alguns ângulos de análise específicos:
a) A situação da gestão patrimonial em Portugal
b) A caracterização do património de regiões do interior do país
c) As potencialidades turísticas do interior do país
d) Requisitos para o desenvolvimento sustentável
e) Casos de estudo portugueses
f) A estrutura de funcionamento adequada a projectos de revitalização patrimonial do interior




O Projecto Rota do Fresco
A AMCAL – Associação de Municípios do Alentejo Central, constituída pelos Municípios de Alvito, Cuba, Portel, Vidigueira e Viana do Alentejo – promove uma iniciativa inovadora de natureza turístico-cultural denominada Rota do Fresco.

A Rota do Fresco consiste na criação de um sistema de visitas a uma selecção de exemplares de pintura mural das capelas, ermidas e igrejas dos cinco concelhos, com o intuito de divulgar, preservar e revitalizar esse património integrado.

A Rota do Fresco tem por base a extensão cronológica e espacial deste tipo de revestimento arquitectónico no conjunto destes cinco concelhos, que constitui um excelente exemplo da variedade e da qualidade desta forma de decoração e de catequização religiosa no nosso país, bem como do papel particular da região alentejana na difusão deste género artístico, desde o século XV até aos inícios do XIX.

Outro ponto comum a estes cinco concelhos ao nível da pintura mural é a necessidade, em quase todos os exemplares remanescentes, de uma intervenção de conservação e restauro, bem como de uma intervenção estrutural ao nível dos próprios edifícios que albergam as pinturas.

Esta Rota procura assim transformar-se num instrumento de salvaguarda dos exemplares remanescentes; de melhor conhecimento deste género artístico no nosso país e, em particular, na região alentejana; de dinamização da região com a criação de um novo produto turístico adaptado às exigências do património arquitectónico.




PROGRAMA

Segunda-feira, 30
09H00: Abertura pelo Presidente da AMCAL

Painel I > A gestão patrimonial (moderação Catarina Vilaça de Sousa, AMCAL)
09H30: A situação da gestão patrimonial em Portugal
A perspectiva do Estado (Elísio Summavielle, Presidente do IPPAR)
A perspectiva das autarquias (Alexandra Gesta, C. M. de Guimarães*)
10H45: Pausa para café
11H15: O património de regiões do interior de Portugal
O caso do Alentejo (Rui Mateus, C. M. de Beja)
A perspectiva da Igreja Católica (Cónego Fernando Marques, Arquidiocese de Évora*)
12H15: Debate
13H00: Almoço livre

Painel II > A valorização turística (moderação Paula Faísco, C. M. de Vidigueira)
15H00: As potencialidades turístico-culturais do interior do país (José Manuel Simões, CEDRU)
15H30: O turismo cultural no Alentejo (Francisco Ramos, Universidade de Évora)
16H00: A valorização turística do património (João Carlos Brigola, Universidade de Évora)
16H30: Pausa para café

Painel III > O desenvolvimento sustentável (moderação Eugénia Alhinho, C. M. de Portel)
17H00: O contributo do património para o desenvolvimento sustentável (João Carlos Caninas, GEOTA)
17H30: Vias para o desenvolvimento sustentável no Alentejo (Margarida Cancela de Abreu, CCDR-A)
18H00: Debate






Terça-feira, 31
Painel IV > Casos de estudo portugueses (Manuela Fialho, Associação Terras Dentro)
10H00-12H30: comunicações livres
12H30: Debate
13H00: Almoço livre

Painel V > Estruturas de funcionamento e modelos de gestão (moderação Dina Monteiro, C. M. de Alvito)
15H00: Estruturas de promoção do turismo cultural (Ana Isabel Rodrigues, ESTIG)
15H30: A longa experiência de Mértola (Jorge Revez, ADPM)
16H00: O caso Projecto Rota do Fresco (Catarina Vilaça de Sousa, AMCAL)
16H30: Debate
17H15: Conclusões (João Carlos Brigola, Universidade de Évora)
(*) a confirmar

Quarta-feira, 1
10H00-13H00: Visita de estudo às intervenções de conservação e restauro na Igreja Matriz de Alvito e na Capela de S. Brás de Portel.
13H00: Almoço regional em Portel



EVENTOS PARALELOS
(entrada livre)

Segunda-feira, 30
19H00: Apresentação do Roteiro Turístico Terras do Fresco e Lançamento das Actas do Encontro (em cd-rom) na Pousada de Alvito, com actuação de grupo de cante alentejano e oferta de Alentejo de Honra.

Quarta-feira, 1
16H00: Visita à Feira dos Santos no Largo das Alcaçarias de Alvito



COMUNICAÇÕES LIVRES

Requisitos de aceitação das propostas de comunicação:
• Ligação ao campo de estudos da gestão patrimonial, do turismo cultural e do desenvolvimento sustentável;
• Carácter inédito do trabalho a apresentar;
• Os resumos a submeter até 30 de Setembro de 2006 não poderão exceder as 2 (duas) páginas A4 e deverão conter o título do trabalho, autor(es), qualificação académica e profissional do(s) mesmo(s), instituição onde exercem actividade e endereço para correspondência (e-mail);
• A Organização do Encontro informará os candidatos por e-mail da aceitação da comunicação proposta.











Organização: AMCAL - Associação de Municípios do Alentejo Central


Apoios:
Pousada Castelo de Alvito
Escola Profissional de Alvito
Restaurante “O Buraco da Zorra” de Alvito
Restaurante “O S. Pedro” de Portel

quarta-feira, setembro 27, 2006





Sobre os cadernos da escola
Sobre a carteira e as árvores
Sobre a areia sobre a neve
Escrevo o teu nome

Sobre as páginas já lidas
Sobre as páginas em branco
Pedra papel sangue ou cinza
Escrevo o teu nome

Sobre as imagens douradas
Sobre as armas dos guerreiros
Sobre a coroa dos reis
Escrevo o teu nome

Sobre a floresta e o deserto
Sobre os ninhos e as giestas
Sobre o meu eco da infância
Escrevo o teu nome

Sobre os encantos das noites
Sobre o pão branco dos dias
Sobre as estações mescladas
Escrevo o teu nome

Sobre os meus trapos de azul
Sobre o tanque sol melado
Sobre o lago lua viva
Escrevo o teu nome

Sobre os campos e o horizonte
E sobre as asas dos pássaros
Sobre o moinho das sombras
Escrevo o teu nome

Sobre a sopro duma aurora
Sobre o mar e sobre os barcos
Sobre a montanha demente
Escrevo o teu nome

Sobre as espumas de nuvens
Sobre o suor da tormenta
Sobre a chuva espessa e vã
Escrevo o teu nome

Sobre as formas cintilantes
E sobre os sinos das cores
Sobre a verdade palpável
Escrevo o teu nome

Sobre as veredas traçadas
Sobre as estradas desertas
Sobre as praças trasbordantes
Escrevo o teu nome

Sobre a lâmpada que acende
Sobre a lâmpada apagada
Sobre as minhas casas juntas
Escrevo o teu nome

Sobre o fruto dividido
Entre o meu espelho e o meu quarto
Na concha aberta do leito
Escrevo o teu nome

Sobre o cão terno e guloso
Nas suas orelhas tensas
Na sua pata sem tino
Escrevo o teu nome

Sobre o meu degrau da porta
Sobre os objectos da casa
Sobre as labaredas vivas
Escrevo o teu nome

Sobre a carne concedida
Sobre a fronte dos amigos
Sobre cada mão estendida
Escrevo o teu nome

Sobre o vitral das surpresas
Sobre os lábios expectantes
Muito acima do silêncio
Escrevo o teu nome

Sobre os meus refúgios gastos
E os faróis desmoronados
Nas paredes que me enfadam
Escrevo o teu nome

Sobre a ausência sem desejo
Sobre a solidão despida
E sobre os degraus da morte
Escrevo o teu nome

Sobre a saúde que volta
E o perigo que já passou
Sobre a esperança esquecida
Escrevo o teu nome

Com o poder duma palavra
Eis que recomeço a vida
Eu nasci para te aprender
Para te invocar

Liberdade


* * *
(Tradução feita por Carlos Domingos na Cadeia
do Forte de Peniche, em
Setembro de 1973)





Eugéne Grindel ( PAUL ELUARD) nasceu em 1895 em Saint Denis (França). Em 1952 morre em Paris.
Quando se dá a Segunda Guerra Mundial uniu-se à Resistência com as armas que tinha, a poesia sendo por isso perseguido pela gestapo.

LIBERTÉ foi escrito em 1942 durante a ocupação da França pelos nazis.

quarta-feira, setembro 20, 2006


Foto de José Luis Mendes - Pontos de Vista




ALENTEJO REVISITADO


Ele queria ser sinónimo de Alentejo velho


foi-lhe dito que a urze quando nasce
é o lápis que risca a roxo a linha do montado
e divide em horizonte o Céu e o resto do mundo;
foi-lhe dito que a geografia duma azinheira
termina em cabelos de fogo e que seus braços
espreguiçados ao calor são o descanso da terra


falaram-lhe que as ribeiras soltas tinham vida
e que cada gota cheirava a suor e lágrimas
presas à lâmina pujante duma enxada na semente;
alguém lhe disse que os riachos eram de sabão
e que emanavam cânticos de mulheres selvagens
protegendo os filhos debaixo dos aventais lavados


contaram-lhe que as tardes eram só os dias longos
enrolados no vento maestro das searas espigadas
só à espera do ouro para alimentarem os alforges;
disseram-lhe que os açudes do rio eram o sisal
que cingia o trigo secado e embalado nos braços
de uma ceifeira quase morta pelo cansaço


foi-lhe dito que os espinhos da esteva são aves
e deles brotam flores alvas formando as paredes
das moradas plantadas no meio do caminho;
foi-lhe dito que à planície menstruada de papoilas
se chamava sangue quente no barro ao lume
misturado com pobreza e cheiro a poejo pisado


falaram-lhe que nos montados se corre descalço
e que dos pés brotam os beijos quentes da lavra
debulhando a canção analfabeta das planícies;
contaram-lhe que do entendimento das estações
se acalentam as monções da eira e do vento sul
com a esperança de uma meia sardinha no pão


disseram-lhe das mãos que se entrelaçam no frio
e que das palavras entreabertas no postigo
sobra o odor a infusas de chuva e pés de hortelã;
foi-lhe dito que a fortuna das gentes é o canto dorido
e das gargantas dos frutos nascidos vive o quebranto
tragado no cucharro que partilha a lavoura de cem


alguém lhe disse que as camisas de preto eram véus
e os chapéus o respeito pela cara caiada de Deus
que das feridas da terra protegia a fome do povo;
foi-lhe dito que o passado não retorna nos calos das mãos
que o velho se tornou saudade na charneca do sonho
e que de Alentejo só a memória de quem já viveu tudo.



Rita Beja (Antologia de Escritas nº 3)

segunda-feira, setembro 11, 2006

Outono - Pintura de José Malhoa (1919)



SETEMBRO

Na poeira dourada
Que o tempo criou,
As vidas, sem vida
Voam procurando
As folhas do passado,
Que em nossas vidas
Como folhas de Outono
Douradas p`lo Sol
E quentes de saudade,
Recordam o tempo
Dos amores presentes,
Que por leves brisas
Na ironia da vida
Tornámos ausentes.

Ao chegar Setembro
Na doce calma
Dum Outono ardente,
Nossos olhos fitos
Em recordações,
São beijos trocados
Por namorados,
Que em folhas douradas
Voaram no tempo.



(Olinda Bonito - 08/06)

sexta-feira, setembro 08, 2006

Foto de Brigitte Holz








ALENTEJO

A região do Alentejo está situada numa extensa área dominada por planícies a sudeste de Portugal abrangendo as cidades de Évora e Beja. A economia se baseia em criação de gado, agricultura e a indústria da madeira. Os produtos típicos desta região são o trigo, os girassóis, frutos, vegetais, azeitonas, vinhos, cortiça, eucaliptos, cordeiro, porco, cabrito, minerais, granito, xisto e mármore.
Topograficamente a região possui importantes variações, do Sul do Alentejo até às elevadas zonas do nordeste, que fazem fronteira com a Espanha. Na maioria de origem vulcânica cujo solo é composto de granito, quartzo e xisto vermelho.

São os horizontes largos que caracterizam a paisagem alentejana. Os relevos são brandos, os campos abertos e os trigais a perder de vista. A planície, na sua esplendorosa imensidão, marca decisivamente toda esta magnífica região do Alentejo. Pouca chuva, clima seco e quente, especialmente nos meses de verão, transformam esta zona do interior do Alentejo num dos recantos mais poéticos de Portugal.











O ALENTEJO, por Miguel Torga

Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento. Províncias irmãs pela semelhança de certos traços humanos e telúricos, a transtagana, se não é mais bela, tem uma serenidade mais criadora. Os espasmos irreprimíveis da outra, demasiado instintivos e afirmativos, não lhe permitem uma meditação construtiva e harmoniosa. E compreende-se que fosse do seio da imensa planura alentejana que nascesse a fé e a esperança num destino nacional do tamanho do mundo. Só daquelas ondas de barro, que se sucedem sem naufrágios e sem abismos, se poderia partir com confiança para as verdadeiras. Enquanto a nação andava esquiva pelas serras, ninguém se atreveu a visionar horizontes para lá da primeira encosta. Mas, passado o Tejo, a grei foi afeiçoando os olhos à grande luz das distâncias, e D. Manuel pôde receber ali a notícia da chegada de Vasco da Gama à Índia.

Terra da nossa promissão, da exígua promissão de sete sementes, o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito, e a realidade dum solo exausto.

Há quem se canse de percorrer as estradas intermináveis e lisas desse latifúndio sem relevos. Há quem adormeça de tédio a olhar a uniformidade da sua paisagem, que no inverno se veste dum pelico castanho, e no verão duma croça madura. Que é parda mesmo quando o trigo desponta, e loura mesmo quando o ceifaram. Queixam-se da melancolia dos estevais negros e peganhosos, que meditam a sua corola branca um ano inteiro, da semelhança aflitiva das azinheiras, que parecem medidas pelo mesmo estalão, e não distinguem nos rebanhos que encontram, quer de ovelhas, quer de porcos, as particularidades que individualizam todo o ser vivo. Afeitos à variedade do Norte, que até aos bichos domésticos consente cara própria e personalidade, aflige-os a constante do Sul, que obriga todo o circunstancial a ocupar o seu lugar de zero diante do infinito. Perdidos e sós no grande descampado, sentem-se desamparados e vulneráveis como crianças. Amedronta-os a solidão de uma natureza que não se esconde por detrás de nenhum acidente, corajosa da sua nudez limpa e total.

Eu, porém, não navego nas águas desses desiludidos. A percorrer o Alentejo, nem me fatigo, nem cabeceio de sono, nem me torno hipocondríaco. Cruzo a região de lés a lés, num deslumbramento de revelação. Tenho sempre onde consolar os sentidos, mesmo sem recorrer aos lugares selectos dos guias. Sem necessitar de ir ver o tempo aprisionado nos muros de Monsaraz, de subir a Marvão, que me lembra um mastro de prendas erguido num terreiro festivo, de passar por Água de Peixes, que é um albergue de frescura e de beleza na torreira dum caminho, ou de visitar a Sempre-Noiva, onde há perpètuamente um perfume de flores de laranjeira a sair do rendilhado das janelas manuelinas. Embriago-me na pura charneca rasa, encontrando encantos particulares nessa pseudo-monotonia rica de segredos. Nada me emociona tanto como um oceano de terra estreme, austero e viril. A palmilhar aqueles montados desmedidos, sinto-me mais perto de Portugal do que no castelo de Guimarães. Tenho a sensação de conquistar a pátria de novo, e de a merecer. O chão das outras províncias já se não vê, ou porque vive coberto pela verdura doméstica de oito séculos, ou porque a erosão levou toda a carne do corpo e deixou apenas os ossos. Mas a terra alentejana pode contemplar-se ainda no estado original, virgem, exposta e aberta. E é nela que encho a alma e afundo os pés, num encontro da raiz com o húmus da origem. Abraço numa ternura primária as léguas e léguas duma argila que permanece disponível mesmo quando tudo parece semeado. O corpo, ali, pode ainda tocar o barro de que Deus o criou.

Mais do que fruir a directa emoção dum lúdico passeio, quem percorre o Alentejo tem de meditar. E ir explicando aos olhos a significação profunda do que vê. Porque cada propriedade se mede por hectares, são em redil os aglomerados, respeitosos da extensão imensa que os circunda, e um suíno, ou relegado à sua malhada, ou a comer bolota no montado, não faz parte da família, – é que o alentejano pôde guardar a sua personalidade. E talvez nada haja de mais expressivo do que esse limite nítido entre a intimidade do homem e a integridade do ambiente. Assegura-se dessa maneira a conservação duma dignidade que o bípede não deve alienar, nem a paisagem perder. Se há marca que enobreça o semelhante, é essa intangibilidade que o alentejano conserva e que deve em grande parte ao enquadramento. O meio defendeu-o duma promiscuidade que o atingiria no cerne. Manteve-o vertical e sozinho, para que pudesse ver com nitidez o tamanho da sua sombra no chão. Modelou-o de forma a que nenhuma força, por mais hostil, fosse capaz de lhe roubar a coragem, de lhe perverter o instinto, de lhe enfraquecer a razão. E é das coisas consoladoras que existem contemplar na feira de qualquer cidade alentejana a compostura natural dum abegão, ou vê-lo passar ao entardecer, numa estrada, com o perfil projectado no horizonte, dentro do seu carro de canudo. É preciso ter uma grande dignidade humana, uma certeza em si muito profunda, para usar uma casaca de pele de ovelha com o garbo dum embaixador.

Foi a terra alentejana que fez o homem alentejano, e eu quero-lhe por isso. Porque o não degradou, proibindo-o de falar com alguém de chapéu na mão.

Mas não são apenas essas subtis razões éticas e geográficas que me fazem gostar do Alentejo. Amo também nele os frutos palpáveis duma harmonia feliz entre o barro e o oleiro. Amo igualmente o que o homem fez e a terra deixou fazer. Diante de um tapete de Arraiolos, ou a ouvir uma canção a um rancho de Serpa, implico o habitante e o habitado no mesmo processo criador, e louvo-os no mesmíssimo entusiasmo. Não há arte onde o homem não é livre e a natureza não quer. Dando às mãos ágeis e fantasistas materiais nobres e moldáveis – o mármore, o cobre, a lã, o coiro, e o barro –, a terra alentejana quis que a vida no seu corpo tivesse beleza. E de Norte a Sul, desde as campanhas da Idanha, que já lhe pertencem, às figueiras algarvias, os seus montes, as suas aldeias, as suas vilas e as suas cidades são marcados por um selo de imaginação e de graça. Aqui uma varanda onde um ferreiro fez renda, acolá um pátio onde um pedreiro inventou uma nova geometria, além uma oficina onde um caldeireiro fabrica ânforas esbeltas e vermelhas como cachopas afogueadas. Aproveitando os incentivos do meio e os recursos do seu génio, o alentejano faz milagres. A própria paisagem sem relevo o estimula. Faltava ali o desenho e a arquitectura, que nas outras províncias existem na própria natureza. Pois bem: concebeu ele o desenho e a arquitectura. E, na mais rasa das planícies, ergueu essa flor de pedra e de luz que é Évora!

Beja tem a sua torre de mármore, com uma tribuna para ver meio Portugal; Portalegre os seus palácios barrocos, para encher de solidão; Elvas o seu aqueduto de sede arqueada e a sua feiura para meter medo aos Espanhóis; Estremoz a sua praça do tamanho de uma herdade. Mas Évora olha os horizontes do alto do seu zimbório espelhado, povoa as casas de lembranças vivas e gloriosas, e, sequiosa apenas do eterno, risonha e aconchegada, enfrenta as agressões do transitório com a força da beleza e a amplidão do espírito.

Será talvez alucinação de poeta. Mas porque nela se documenta inteiramente a génese do que somos, o que temos de lusitanos, de latinos, de árabes e de cristãos, e se encontra registado dentro dos seus muros o caminho saibroso da nossa cultura, – se estivesse nas minhas mãos, obrigava todo o português a fazer uma quarentena ali. Uma lei pública devia forçá-lo a entrar na cidade a desoras, numa noite de luar. E, sem guia, manda-lo deambular ao acaso. Seria um filme maravilhoso da história pátria que se lhe faria ver, com grandes planos, ângulos imprevistos, sombras e sobreposições. Uma retrospectiva completa do que fizemos de melhor e mais puro no intelectual, no político e no artístico. Só de manhã seria dado ao peregrino confirmar com a luz do sol a luz do écran. E se ao cabo da prova não tivesse sentido que num templo de colunas coríntias se pode acreditar em Diana, numa Sé românica se pode acreditar em Cristo, e num varandim de mármore se pode acreditar no amor, seria desterrado.

Compreender não é procurar no que nos é estranho a nossa projecção ou a projecção dos nossos desejos. É explicar o que se nos opõe, valorizar o que até aí não tinha valor dentro de nós. O diverso, o inesperado, o antagónico, é que são a pedra de toque dum acto de entendimento. Ora o Alentejo é esse diverso, esse inesperado, esse antagónico. Tudo nele é novo e bizarro para quem o visita. Os arcos, as silharias, as abóbadas e os coruchéus das suas casas; a açorda de coentro e o gaspacho de alho e vinagre das suas refeições; as insofridas parelhas de mulas guisalheiras a martelar as calçadas ao amanhecer; as pavanas cinegéticas que oferece aos convidados; os magustos de bolota; os safões dos homens e o chapéu braguês das mulheres – são ferroadas no nosso cotidiano. Mas o que tem interesse é precisamente revelar aos olhos, ao paladar e aos ouvidos a novidade dessas descobertas. Mostrar-lhes a originalidade de uma vida que se passa ao nosso lado, e tem o inesperado de uma aventura. E mostrar-lho carinhosamente! Sem espírito de simpatia, tudo se amesquinha e diminui. E coisas grandes, como uma semeada ou uma ceifa no Redondo, podem ser reduzidas à pequenez duma vessada ou duma segada beiroa.

Quem vai ao mar, prepara-se em terra – diz o ditado. Aplicando a fórmula ao Alentejo, teremos de nos preparar para entrar dentro dele. Será preciso quebrar primeiro a nossa luneta de horizontes pequenos, e alargar, depois, o compasso com que habitualmente medimos o tamanho do que nos circunda. Agora as distâncias são intermináveis, e as estrelas, no alto, brilham com fulgor tropical. Teremos, portanto, de mudar de ritmo e de visor.

O Alentejo, visitado por alguém que leve consigo a capacidade emotiva e compreensiva de um verdadeiro curioso, é um Sésamo que se abre. As suas fainas, os seus costumes, as mutações impressionantes do seu rosto quando tem frio ou quando tem calor, os seus trajes e a sua própria fala – são outros tantos motivos de meditação e admiração. Mas o que nele é sobretudo extraordinário e a sua inflexível determinação de conservar uma fisionomia inconfundível, haja o que houver. Pode-se preferir uma região mais maneira ou mais angustiada, e uma gente menos soberba, mais autênticamente humana, e mais sinceramente generosa. Herdades mais à medida dos pés, cultivadas por semelhantes sem o ar de fidalgos a gozar férias rurais. Mas não se pode negar a evidência duma terra que merece como nenhuma este nome maternal e austero, e muito menos a dos filhos altivos e afirmativos que dá, imaginários como poetas e duros como azinhos. Cepa e rebentos de tal modo unidos e conjugados, que formam como que um só corpo e um só espírito. Um corpo hipertrofiado, que hipertrofia o espírito por indução.

O alentejano que sobe ao alto do castelo de Évora-Monte, erguido ali ao lado da térrea casinha da Convenção onde a concórdia da família portuguesa foi assinada, ele que tem o sangue de Giraldo-sem-Pavor a correr-lhe nas veias, que assistiu às façanhas e às hesitações do Condestável, e que fez parte da insurreição do Manuelinho, sente naturalmente dentro de si o irreprimível orgulho dum homem predestinado. A seus pés desdobra-se o extenso palco do seu destino: a infindável planície a que dá vida e movimento. São os rios e os ribeiros secos que faz transbordar de suor, os negros montados que alegra de vez em quando pintando de vermelho cada sobreiro, a sua casinha escarolada e erma com uma mimosa na botoeira, e as searas que ondulam e reverberam num aceno de abundância. Um mundo livre, sem muros, que deixou passar todas as invasões e permaneceu inviolado, alheio às mutações da história e fiel ao esforço que o granjeia. Nenhum limite no espaço e no tempo. Seja qual for o ponto cardial que escolha a inquietação, terá sempre o infinito diante de si, em pousio para qualquer sementeira. E essa eterna pureza e disponibilidade do solo exaltam o ânimo do possuidor.

Sim, pobre ganhão que seja, ele é um rei nos seus domínios. Não há outro português mais rico de pão, agasalhado por tão quente manta de céu e dono de tantos palmos de sepultura. Que minhoto ou estremenho se pode gabar de ver sempre o vulto dum seu irmão, que não tem medo da imensidade, a abrir um risco de fogo e de esperança com a ponta da charrua?



Miguel Torga, «Portugal». Coimbra, Ed. Autor, 1950; 4.ª ed. revista 1980.



(Transcrito do site de Joaquim Teodósio)

quarta-feira, setembro 06, 2006

foto de Sergey Ryztkov




RECORDAÇÃO


Lembro Setembro. Um dia a que foste.
Era domingo. Era tua alma casta.
As uvas doces, lembro, de teu corpo inteiro
Onde o rosto as põe, onde o rosto basta.


Lembro tão bem, como se fosse hoje,
tua fala ingénua, tuas mãos sadias.
E era em teus lábios puros que eu escutava
a música do ar com que sorrias.



Sebastião Penedo - Poesia

sexta-feira, setembro 01, 2006

Caronte, o barqueiro do Hades - Gravura de Gustavo Doré



ARCO – ÍRIS


No longe mais longe dos longes do mar
Andava um barqueiro a remar… a remar…

Não via mais nada: só águas e céu
E nuvens e astros que Deus acendeu.

Sozinho consigo, sonhava… sonhava…
Nos fundos mistérios que o fundo guardava.

Passavam as ondas, e, uma por uma,
Beijavam-lhe os remos com lábios de espuma.

Os ventos pintavam, com nuvens e sol,
mil quadros a tintas de fresco arrebol.

À noite, não quadros que o vento arrebata,
Mas lua beijando cardumes de prata.

E o poeta barqueiro remava a sonhar
Nos fundos mistérios do fundo do mar.

Que tempos passaram!! Já nem se lembrava
De quando partira! Remava… remava…

Às ondas suaves: - «Mais longe, mais longe,
(Pediam as nuvens) levai este monge!»

E o monge poeta, com mais energia,
Remava nas ondas da luz que acendia,

Que a luz era o sonho que o monge habitava,
Bebendo os silêncios que a alma cantava.

E as horas passaram felizes… velozes!
Cantaram os galos, ouviram-se vozes,

O sol levantou-se, rompeu a manhã
Mais linda e alegre que fresca romã,

E o monge, acordando, sentiu-se mesquinho,
Ao ver-se num catre de tábuas de pinho.

Saltou para o chão, os joelhos dobrou,
Três vezes no peito bateu… e chorou!


António Celso – Asas cinzentas

terça-feira, agosto 29, 2006






Pensamento


Além longe ,onde o sol se põe,
Não se vislumbra o firmamento,
Em nossa ilusão,o pensamento
Abala, acaba , não se repõe.

Quando a luz enfim desaparece,
Além longe ,atrás daqueles montes,
Chega até nós , o barulho das fontes,
As palavras doces do entardecer.

Hora dos amantes que com agruras,
Misturam seu amor e amarguras,
Sentem noite em seus pensamentos.

Beijam-se sequiosos de prazer,
E não sentindo a alma sofrer,
Esquecem a noite e o sofrimento.


(Olinda Bonito -Agosto 05)

sexta-feira, agosto 25, 2006





A L V I T O

FESTAS POPULARES EM HONRA DE NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO


Vão-se realizar, nos dias 25, 26 e 27 de Agosto, as já tradicionais Festas da Vila de Alvito. Sendo este ano, a organização da responsabilidade da Associação Juvenil Nova Geração. As principais atracções, das Festas Populares em Honra de Nossa Senhora da Assunção, serão as Garraiadas, o Grupo de música tradicional “Adiafa”, os tradicionais bailaricos e uma sessão de autógrafos com os actores “Bia” e “Lourenço” da série Morangos com Açúcar .

quarta-feira, agosto 23, 2006

Tu eras também...

Foto de Katrin Tarpke




Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


(Pablo Neruda)

quinta-feira, agosto 17, 2006

ESTA MANHÃ ENCONTREI O TEU NOME NOS MEUS SONHOS...

Foto de Paulo Cesar-Olhares




Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.



Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, agosto 14, 2006

Foto de Stefan Haffner





TARDE



É tarde?...não sei…

Muitos ocasos passaram,
Mas madrugadas claras
Renovam-se todos os dias,
E dentro de nós a paixão
Que tu ou eu não quisemos,
E que julgámos passado
É uma dor latente
Que nos torna em ausentes
Do mundo que agora nosso
Sentimos não nos pertence.

A madrugada clara,
Que deixámos abalar,
Tornou-se escuridão
Que não queremos aceitar.

Embora com luz difusa
Os dias vão-se passando,
O teu olhar, esse não,
Não me sai do pensamento,
E os beijos que nesse tempo
Procurávamos ansiosos,
São hoje a recordação
Que sentimos bem presente
Do tempo que radioso
Tornámos escuridão.



OLINDA-05/06

sexta-feira, agosto 11, 2006









AGUARELA


Quando, a esta hora, o dia abala lentamente
pelo Tejo fora, num barco distraído,
a tarde deixa no crepúsculo penas de vermelho
do sol que voou, pousando do céu para o mar.


E lá no horizonte, as velas das nuvens,
que demoram, ainda agora, acesas na claridade,
dão tempo às luzes dos candeeiros das avenidas
e aos pássaros boémios das árvores da cidade.



(Sebastião Penedo – Poesia)

INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...