quinta-feira, fevereiro 02, 2012

SONETO DE DEVOÇÃO





Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! - uma cadela
Talvez... _ mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

VINICIUS DE MORAES

Foto de Tani Shepitko

domingo, janeiro 29, 2012

DO DESENCONTRO






do desencontro

pela janela entreaberta
da infância
espio a vida
pelo lado de dentro
em busca dos sonhos
que não encontrei
nas noites que vivi
no lado de fora

ADEMIR ANTÓNIO BACCA

Foto da net

quarta-feira, janeiro 25, 2012

CONFIDÊNCIA





Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

MIA COUTO

Foto Luca Faz

sábado, janeiro 21, 2012

HORAS DE SAUDADE




Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu'inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.

No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minh'alma — o ninho!

Por onde trilhas — um perfume expande-se
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...

E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...


CASTRO ALVES

Foto de Sergey Kurochkin

quinta-feira, janeiro 12, 2012

TENHO SAUDADES DO TEU CORPO




Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado...»

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

ANTÓNIO PATRÍCIO

1878-1930

Escritor e diplomata português, natural do Porto. Frequentou a Escola Naval, acabando no entanto por se formar em Medicina, em 1908. Proclamada a República, foi cônsul na Corunha, em Cantão, Manaus, Bremen e outras cidades, vindo a falecer pouco depois de nomeado ministro de Portugal em Pequim.


Foto de Eduard Alt

sexta-feira, dezembro 02, 2011

DAS PAIXÕES - DAS VIAGENS





DAS PAIXÕES

a nudez do teu corpo
é idéia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
ressuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.





DAS VIAGENS

viajo
no teu corpo
caminhos
nunca imaginados

delírios
de náufrago à deriva
em noite de temporal.

viajo em ti
sonhos de uma ternura
nunca sentida.

Poemas de ADEMIR ANTONIO BACCA
(Poeta, Escritor, Jornalista, Brasileiro)


Fotos de Jean-François Bauret

quarta-feira, novembro 30, 2011

LONGE DE TI




Quando longe de ti eu vegeto,
Nessas horas de largos instantes,
O ponteiro, que passa os quadrantes,
Marca séculos, se esquece de andar.
Fito o céu — é uma nave sem lâmpada.
Fito a terra — é uma várzea sem flores.
O universo é um abismo de dores,
Se a madona não brilha no altar.


Então lembro os momentos passados.
Lembro então tuas frases queridas,
Como o infante que as pedras luzidas
Uma a uma desfia na mão.
Como a virgem que as jóias de noiva
Conta alegre a sorrir de alegria,
Conto os risos que deste-me um dia
E que eu guardo no meu coração.


Lembro ainda o lugar onde estavas...
Teu cabelo, teu rir, teu vestido...
De teu lábio o fulgor incendido...
Destas mãos a beleza ideal...
Lembro ainda em teus olhos, querida,
Este olhar de tão lânguido raios,
Este olhar que me mata em desmaios
Doce, terno, amoroso, fatal!...


Quando a estrela serena da noite
Vem banhar minha fronte saudosa,
Julgo ver nessa luz misteriosa,
Doce amiga, um carinho dos teus!
E ao silêncio da noite que anseia
De volúpia, de anelos, de vida.
Eu confio o teu nome, querida,
Para as brisas levarem-no aos céus.


De ti longe minh’alma vegeta,
Vive só de saudade e lembrança,
Respirando a suave esperança
De viver como escravo a teus pés,
De sonhar teus menores desejos,
De velar em teus sonhos dourados,
"Mais humilde que os servos curvados!
"Inda mais orgulhoso que os reis"!




Ó meu Deus! Manda às horas que fujam,
Que deslizem em fio os instantes...
E o ponteiro que passa os quadrantes
Marque a hora em que a posso fitar!
Como Tântalo à sede morria,
Sem achar o conforto preciso...
Morro à míngua, meu Deus, de um sorriso!
Tenho sede, Senhor, de um olhar.

CASTRO ALVES

"Vulgarmente melodramático na desgraça, simples e gracioso na ventura, o que constituía o genuíno clima poético de Castro Alves era o entusiasmo da mocidade apaixonada pelas grandes causas da liberdade e da justiça — as lutas da Independência na Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel civilizador da imprensa, e acima de todas a campanha contra a escravidão."
Manuel Bandeira



Foto de Sergey Ryzhkov

quinta-feira, novembro 24, 2011

NO MEU CÉU AO CREPÚSCULO...





No meu céu ao crepúsculo tu és como uma nuvem
e a tua cor e forma são tal e qual as quero.
Tu és minha, tu és minha, mulher de lábios doces
e vivem na tua vida os meus infinitos sonhos.

A lâmpada da minha alma ruboriza-te os pés,
o acre vinho meu é mais doce em teus lábios,
ó segadora da minha canção ao entardecer,
como te sentem minha os meus sonhos solitários!

Tu és minha, tu és minha, vou gritando na brisa
da tarde, e o vento arrasta a minha voz viúva.
Caçadora do fundo dos meus olhos, o teu roubo
estanca como a água o teu olhar nocturno.

Na rede da minha música estás presa, meu amor,
e as minhas redes de música são largas como o céu.
Nasce-me a alma à beira dos teus olhos de luto.
Nos teus olhos de luto começa o país do sonho.


PABLO NERUDA

"Vinte Poemas de Amor" Parte IV

Foto de Ognyan Geshev

domingo, novembro 20, 2011

IMPETUOSO, O TEU CORPO É COMO UM RIO




Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

EUGÉNIO DE ANDRADE

Foto da net

quarta-feira, novembro 16, 2011

DEIXA-ME AMAR-TE





Deixa-me amar-te em meus silêncios,
Na calmaria do teu coração que me acolhe,
E de onde se desprendem meus sonhos,
Em voos etéreos de plena liberdade.

Deixa-me amar-te em minha solidão,
Ainda que meus labirintos te confundam,
E que teus fios generosos de compreensão
Emaranhem-se no tapete dos meus enigmas.

Deixa-me amar-te sem qualquer explicação
Na ternura das tuas mãos que me sorriem,
Escrevendo desejos em versos despidos
Na minha tez morena que te cobre e descobre.

Deixa-me amar-te em meus segredos,
Para que desvendes o que também desconheço,
A alma dos meus abismos onde anoiteço.
E meus olhos adormecem embalados pelo mistério.

Deixa-me amar-te em tuas demoras, longas horas.
Em que meu corpo se veste de céu à tua espera,
E minhas mãos em frenesi acendem estrelas
Para alumiar-te, ainda que ausente estejas…

FERNANDA GUIMARÃES

Imagem de Jacob Collins

sexta-feira, novembro 11, 2011

JURO






Por tua culpa, Mulata,
Meu coração
Anda à toa
Sem saber onde se acoite.
Perdeu-se na escuridão
Dos teus olhos cor da noite.

Por tua culpa, só tua culpa,
Pois sei que foi causa disso
O feitiço
Do teu corpo.

Mas... Deus é grande
E... talvez
Ainda voltes outra vez
A abrasar-te em desejos,
Quianda dos meus amores.

Nesse dia
Hei-de cobrir o teu corpo
Com um vestido de beijos
E um manto de carícias.
Hei-de esmagar contra a minha
A tua boca vermelha.

Será nesse dia, então
Que terei onde me acoite,
Mesmo na escuridão
Dos teus olhos cor da noite.


AIRES DE ALMEIDA SANTOS(Angola)

Pintura de Nide Bacellar

quinta-feira, novembro 03, 2011

QUANDO ESTIVERES TRISTE






Quando estiveres triste,
Amor,
e não souberes porquê ...


E o mundo inteiro
à tua volta pareça desabar ...


Quando
te apetecer gritar ...


Quando
inexplicavelmente só
te sintas
em meio à multidão


e, perdida,
não saibas que fazer ...


Quando
te sentires vazia
como um balão furado,
amarfanhada
como um vestido
de baile
após o Carnaval ...


Quando
estiveres confusa,
indecisa,
angustiada,
como, sem mo dizeres,
eu sei que estás, por vezes...

Então, Amor
basta que venhas
junto a mim
e no meu peito
confiadamente
repouses tua fronte.
para eu conhecer toda a tristeza
que os teus olhos mudos
me dirão.


Não te farei perguntas
nem direi
as palavras idiotas
que, longe de ajudar,
só ferem, nessa altura.


Apenas te prenderei
pela cintura
e em silêncio,
longamente,
afagarei os teus cabelos,


até que a angústia
de todo te abandone
e não te sintas só,


porque eu estou contigo
sempre,
meu Amor.



ANTÓNIO MELENAS


Foto de Sergey Ryzhkov

quarta-feira, outubro 26, 2011

PRIMEIRO DIA DE OUTONO





Primeiro dia de Outono.
Primeira névoa de mágoa
Nos meus olhos rasos, mudos
De tristeza e de abandono
Onde o sonho é nostalgia...

O sol enfraqueceu - está doente;
E a paisagem parece adormecida
Na sua diluída rebeldia.

Um desalento vago, uma incerteza
Cinge o teu gesto sóbrio de quem busca
Uma nova ilusão para vencer...
A natureza mostra o derradeiro
Sorriso nos jardins... Tudo esmorece
Na graça deste lindo anoitecer!

Não ponhas essa dúvida na fronte,
Não entristeças, ri - foge ao compasso
Das longas atitudes lentas;
Reforça mais o teu riso
E pensa que na vida quem é forte
Retarda as intenções mortais da própria morte.

Outono! A sombra é a luz
Em prece de saudade!
Abre a janela e vê
se o mundo não disfarça
Os seus motins de sangue
neste silêncio d'oiro
Que vem do infinito...

Não falas? E porquê?

Tudo isto que eu te digo
E o mais que no meu peito me fica por dizer,
Amor, pode ser triste,
Mas olha que é verdade
E tem razão de ser!

ANTÓNIO BOTTO

quinta-feira, outubro 20, 2011

NEL MEZZO DEL CAMIN ...




Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

OLAVO BILAC

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 — Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1918) foi um jornalista e poeta brasileiro, membro fundador da Academia Brasileira de Letras.


Foto de Maksim Serdyukov

quarta-feira, outubro 19, 2011

AQUELES QUE ME TÊM MUITO AMOR




Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

FLORBELA ESPANCA

Poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa (Alentejo).

1894/1930

Foto de Annemarie Heinrich

domingo, outubro 16, 2011

JEITO DE AMAR







O meu amor por ti é feito de renúncia
pois teu olhar já não poisa em mim.
Todo o carinho tem na boca uma pronúncia
para que tu difiras meu afecto assim

Eras a minha esperança e fé,
tudo o que sempre quis,
mas olhas-me como és, em amnésia,
alheio a mim e ao meu sorriso feliz.

Teus lábios não tocam a minha carne
nem a dançar rocei em ti meu corpo veemente;
de ti, apenas um parco olhar vago,
de dedos mornos sobre a minha mão quente.

Meu coração entrega-se em delírio
a um amor que a terra pisa
porém esta paixão é um martírio
que friamente medes e analisas.

Eis o conflito que a razão sublima
com meu desejo dou também a minha alma
se aos poucos ficas com tudo o que tinha
o que fará com que meu coração se acalme?

Que se fine a vida que eu procuro em vão
num voo leve, azul da cor do mar,
se um dia eu perder este jeito de te amar.

OTILIA MARTEL

(Menina Marota – Um Desnudar de Alma)

Foto de Sergey Ryzhkov

quarta-feira, setembro 28, 2011

ESTA NOITE ...






Esta noite
no silêncio destas paredes sombrias
cheias de palavras consumidas
a lua dança com gestos de encantamento
e as estrelas sorriem de prazer

Esta noite
invento-te nesta distância magoada
onde as palavras repousam
nos lábios ausentes que riem e se alimentam
de sabores sonhados

Esta noite
arde uma fogueira de nostalgia
e o mistério absorvente da tua luz
entra em mim mansamente

Aqui
longe de ti e de tudo
sinto-me bem dentro de ti
e deixo-me ficar


ANTÓNIO SEM


Foto de Martin Zurmuehle

sábado, setembro 10, 2011

NOITE DE VIAGEM





Amei a tua inquietação; e disseste-me que
te amei sem saber porquê, que as marés anunciavam
o luar que não chegou, que não foi preciso
olhar o fundo transparente das palavras
para que a sua verdade nos tocasse, que a tua mão
colheu o fruto da primeira árvore sem que nada
o impedisse.

Amei-te sem ter a certeza da manhã, sem ouvir
o vento que fez bater as janelas num eco do passado,
sem correr as cortinas do mundo para que
ninguém nos visse, sem apagar do teu rosto
o brilho da vida, enquanto as aves dormiam,
e o licor do sonho se derramava sobre os corpos
que cortavam a noite.

Mas ao seguir o seu rumo, o azul
floresceu das cinzas, a música despontou
dos silêncios da madrugada, e os teus olhos
amanheceram quando me disseste que
te amei, sem saber porquê.

NUNO JÚDICE


Foto de Sergey Ryzhkov

quinta-feira, setembro 08, 2011

UMA BRISA...




"Uma brisa ergue-se no interior da terra e chega a mim, à consciência de mim: o meu rosto, os meus lábios, o meu corpo tocado por essa brisa. Caminho por entre essa brisa a passar por mim, como se atravessasse uma multidão invisível. A brisa, ao tocar os meus olhos, transforma-se em lágrimas que descem frias pelo meu rosto. Os meus lábios. Sinto-as e sinto a memória das vezes que chorei o desespero parado, mais triste, de lágrimas que descem lentamente pelo rosto. O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que a consiga imaginar e as lágrimas, que eram apenas a brisa a tocar os meus olhos, começam a ser lágrimas de desespero verdadeiro. Paro no passeio. O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim."

JOSÉ LUIS PEIXOTO; excerto de "Lunar"


Foto de Piotr Kowalik

sábado, setembro 03, 2011

QUANDO EU MORRER...





Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro

do que tu - não deixes fechar-me os olhos,

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.


E, ao veres que tenho toda a tua imagem

dentro de mim, se então tiveres coragem,

fecha-me os olhos com um beijo.


Eu, Marco Pólo,


farei a nebulosa travessia,

e o rastro da minha barca

segui-lo-ás em pensamento. Abarca



nele o mar inteiro, o porto, a ria...

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.







Não um adeus distante

ou um adeus de quem não torna cá

nem espera tornar. Um adeus de até já,

como a alguém que se espera a cada instante.



Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar

de novo para ti, no mesmo barco

sem remos e sem velas, pelo charco

azul, do céu, cansado de lá estar.



E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação

E não quero que chores para fora,

Amor, que tu bem sabes que quem chora



assim, mente. E se quiseres partir e o coração

to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino

talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino!




(Alvaro Feijó)



Álvaro de Castro e Sousa Correia Feijó (1916-1941)

Poeta, nascido a 5 de Julho de 1916, em Viana do Castelo, morreu, a 9 de Março de 1941, quando ainda não completara os vinte e cinco anos de idade. A sua obra poética, imbuída de um erotismo juvenil e de simbologias viradas para antigas vivências assume características revolucionárias, tendo sido publicada em revistas como: Sol Nascente, O Diabo, Altitude e Seara Nova e, postumamente, no Novo Cancioneiro.

Foto de Sonja Hunecken

INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...