quinta-feira, setembro 08, 2005

Mariana


Mariana, minha sobrinha-neta, 17 de Agosto - 21H45 - 3,565 - 51 cms



Que as asas providentes
De anjo tutelar
Te abriguem sempre à sua sombra pura!
A mim basta-me só esta ventura
De ver que me consentes
Olhar de longe... olhar!

João de Deus

Meus Oito Anos



Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!





Como são belos os dias

Do despontar da existência!

— Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;

O mar é — lago sereno,

O céu — um manto azulado,

O mundo — um sonho dourado,

A vida — um hino d'amor!





Que aurora, que sol, que vida,

Que noites de melodia

Naquela doce alegria,

Naquele ingênuo folgar!

O céu bordado d'estrelas,

A terra de aromas cheia

As ondas beijando a areia

E a lua beijando o mar!





Oh! dias da minha infância!

Oh! meu céu de primavera!

Que doce a vida não era

Nessa risonha manhã!

Em vez das mágoas de agora,

Eu tinha nessas delícias

De minha mãe as carícias

E beijos de minhã irmã!





Livre filho das montanhas,

Eu ia bem satisfeito,

Da camisa aberta o peito,

— Pés descalços, braços nus —

Correndo pelas campinas

A roda das cachoeiras,

Atrás das asas ligeiras

Das borboletas azuis!





Naqueles tempos ditosos

Ia colher as pitangas,

Trepava a tirar as mangas,

Brincava à beira do mar;

Rezava às Ave-Marias,

Achava o céu sempre lindo.

Adormecia sorrindo

E despertava a cantar!





................................





Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

— Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

A sombra das bananeiras

Debaixo dos laranjais!



Com toda a amizade dedico este poema de Casimiro de Abreu ao Batista Filho (Ilha dos Mutuns)


(Pintura de J.Lopes)

terça-feira, setembro 06, 2005

À Beleza








Não tens corpo, nem pátria, nem familia,

Não te curvas ao jugo dos tiranos.

Não tens preço na terra dos humanos,

Nem o tempo te rói.

És a essência dos anos,

O que vem e o que foi.



És a carne dos deuses,

O sorriso das pedras,

E a candura do instinto.

És aquele alimento

De quem, farto de pão, anda faminto.



És a graça da vida em toda a parte,

Ou em arte,

Ou em simples verdade.

És o cravo vermelho,

Ou a moça no espelho,

Que depois de te ver se persuade.



És um verso perfeito

Que traz consigo a força do que diz.

És o jeito

Que tem, antes de mestre, o aprendiz.



És a beleza, enfim. És o teu nome.

Um milagre, uma luz, uma harmonia,

Uma linha sem traço...

Mas sem corpo, sem pátria e sem família,

Tudo repousa em paz no teu regaço.



À Isabel Filipe que me ofereceu a imagem que abre o post de hoje retribuo com todo o carinho ofertando este poema de Miguel Torga.



segunda-feira, setembro 05, 2005

Quase




Um pouco mais de sol - eu era brasa,

Um pouco mais de azul - eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...



Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído

Num grande mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho - ó dor! - quase vivido...



Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim - quase a expansão...

Mas na minh'alma tudo se derrama...

Entanto nada foi só ilusão!



De tudo houve um começo ... e tudo errou...

- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se enlaçou mas não voou...



Momentos de alma que, desbaratei...

Templos aonde nunca pus um altar...

Rios que perdi sem os levar ao mar...

Ânsias que foram mas que não fixei...



Se me vagueio, encontro só indícios...

Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios...



Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí...

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi...



Um pouco mais de sol - e fora brasa,

Um pouco mais de azul - e fora além.

Para atingir faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...







(Mário de Sá-Carneiro)


(Fotos de Paulo Cesar e Leonel Santos Lopes- Olhares)

domingo, setembro 04, 2005

Não Vou Por Aí...




“Vem por aqui – dizem-me alguns com olhos doces,


estendendo-me os braços, e seguros


De que seria bom que eu os ouvisse


Quando me dizem: “vem por aqui”!


Eu olho-os com olhos lassos,


(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)


E cruzo os braços,


E nunca vou por ali...


“Não, não vou por aí!


Só vou por onde


Me levam meus próprios passos...”



(José Régio)




(Foto de Fernando Correia-Movimentos-Fotografia na Net)

sábado, setembro 03, 2005

Meu Alentejo





(Clique sobre a foto para ver em tamanho maior)


(Foto de Zespinho - Alentejo United Color - Fotografia na Net)






"Amo a Liberdade, por isso... deixo as coisas que amo livres... Se elas voltarem é porque as conquistei... Se não voltarem é porque nunca as possuí."



(Jonh Lennon)



quinta-feira, setembro 01, 2005

ALVITO-OS ROSTOS DE UM PROJECTO






MOVIMENTO INDEPENDENTE


Autárquicas 2005 - ALVITO e VILA NOVA DA BARONIA




"Este Movimento Independente tem como uma das suas principais motivações, criar um novo espaço de cidadania e de intervenção cívica de todos aqueles que não se identificam, no contexto actual, com qualquer das outras candidaturas que se perfilam às próximas eleições autárquicas. Apresenta, desde logo, a característica de acabar com a dependência partidária dos candidatos. Tal não significa que seja um Movimento destituído de qualquer ideologia. A sua matriz ideológica, fortemente democrática, assenta nos conceitos do humanismo, do universalismo e da ecologia humana. Na sua essência, visa conciliar o desenvolvimento económico com a preservação do meio ambiente e com uma maior justiça social. Com vista à concretização destes princípios, pretendemos implementar uma nova forma de administração local, através duma verdadeira democracia participativa, onde toda a população possa intervir na discussão e resolução dos problemas. O exercício democrático dos cidadãos não se confina, nem tão pouco se poderá esgotar, no momento do voto.

A causa que abraçámos é uma causa nobre e os elementos que lhe dão corpo comungam de um conjunto de valores que fornece a indispensável sustentação ao Movimento. O que move este grupo de cidadãos são os interesses colectivos do Concelho de Alvito e não interesses pessoais, clientelistas e/ou de conveniência partidária. A nossa bandeira é o Concelho e é essa que pretendemos levantar bem alto. Para constituirmos e ordenarmos as listas aos vários órgãos não houve negociações para ocupação de lugares e muito menos promessas para candidatos ou familiares! Afirmamo-lo inequivocamente, sem margem para dúvidas! E assim agiremos no futuro! Porque não deixamos, nem deixaremos, hipotecar os valores que defendemos. Porque entendemos que a actividade política pode ser exercida com seriedade, imparcialidade e credibilidade.

Ser autarca não é uma profissão mas o exercício de um cargo, visando o interesse público. Entendemos que a prossecução deste objectivo não se coaduna com negociatas e golpes palacianos. A defesa do interesse público numa autarquia só será possível com isenção, igualdade e transparência nos procedimentos; com justiça e coragem nas decisões; com rigor na gestão dos dinheiros públicos; com uma eficiente gestão e organização dos recursos humanos, dos serviços e das respectivas estruturas funcionais. Com respeito pelos verdadeiros anseios e necessidades das populações a quem se presta um serviço! "

NOTA DO "BEJA": Retirámos o texto acima transcrito do documento publicado, pelo Movimento Independente, em 31 de Agosto de 2005 pelo que pedimos que nos relevem a ousadia.

Para a leitura total deste documento aconselhamos a visita ao site do referido Movimento



Um Sorriso




Um sorriso nesta vida
É sempre agradável ver,
Não custa a quem o dá
E é muito bom receber.

Um sorriso em qualquer boca
Dado ao princípio do dia,
Faz o dia mais brilhante,
Transparecendo de alegria.

Um sorriso verdadeiro
Com sentimento na alma,
Sereniza circunstâncias,
E inspira a paz e a calma.

Um sorriso pode dar-se
Mesmo às vezes sem vontade,
Mas seja lá como for,
Transmite graciosidade.

Um sorriso a qualquer hora
É sempre contagiante,
É uma imagem fagueira,
Que nos fica desse instante.

Um sorriso é saudável
E ao ser humano é preciso.
Ai, como é gratificante,
Ver à chegada um sorriso!…



( Euclides Cavaco)

quarta-feira, agosto 31, 2005

B L O G D A Y




.......................................Foto de João Espinho-Terra de Sol

Por ter aderido à iniciativa- BLOGDAY - o "Beja" tem de

recomendar cinco blogs.

Na impossibilidade de apresentar todos os que representam

os meus dedicados amigos vi-me na obrigação de escolher o

número exigido.

Assim indico:

1 - Rain-Maker

-onde cada palavra aliada à respectiva imagem traduz

todo um sentimento onde se adivinha um coração sensível.

2 - Praça

da República em Beja -Fotografia e Sociedade

preocupações irmanadas no mesmo sentir.

3 - Gastr'eat -

Um mundo de informações no campo turístico.

4 - Ilha dos

Mutuns - A vida, a memória, a sensibilidade, todo um

encantamento em cada palavra.

5 - O Micróbio

- Os mais variados temas sempre tratados com

conhecimento, sobriedade e responsabilidade



terça-feira, agosto 30, 2005

O(s) Baile(s)


Naquele tempo era no castelo que se faziam as festas.

Do que mais gostávamos era dos bailes.

Eram dois bailes acompanhados pela mesma música.

Eram dois bailes no mesmo local - o castelo.

No terreiro, de terra batida, sob o mastro colorido de

festões, balões e lanternas de papel, era o mais

concorrido.


Todos aprimorados em seus fatos domingueiros, eles,

com suas jaquetas de dia de festa, alguns com uma flor

na lapela, elas, lindas, em suas blusas floridas de cores

garridas, fazendo sobressair esbeltos bustos.


Aqui no terreiro, ao som da música sempre igual, os

corpos, enlaçados e frementes, rodopiavam, olhos nos

olhos, sempre sob o olhar desconfiado das mães que,

sentadas, vigiavam as moças.


Aqui se fizeram e desfizeram muitos namoricos.


Também por vezes saíam alguns com a cara

avermelhada dalguma chapada que travara uns

avanços mais atrevidos...


Mas se aqui no terreiro, num mar de gente se dançava

assim, o outro baile era na esplanada do castelo.

Piso superior ao terreiro era local indicado para a

gente "bem" da terra.

Funcionários públicos, comerciantes e lavradores que

mantinham assim a distância com o povo do campo.


Elas com seus vaporosos vestidos, alguns

encomendados, em tempo, na cidade.

Eles, perfumados, brilhantina a luzir naqueles cabelos

bem penteados, engravatados em seus melhores fatos.


Deslizavam, dançando, mantendo uma distância

respeitosa a que não era alheia a vigilância materna.


Os do terreiro olhavam com desdém os que dançavam

na esplanada e sorrindo cochichavam com as parceiras.


Na esplanada os olhos dos pares também se

dirigiam para o que se passava em baixo, no

terreiro, e seguiam com ar superior o jeito

da dança.

Aqueles corpos juntinhos no terreiro,

rodopiando como se de um só se tratasse, os

seus sorrisos ingénuos, as suas bocas

aproximando-se a cada passo, as mãos

grossas e calejadas apertando as

companheiras, criavam-lhes um misto de

inveja e desejo.


O terreiro era para os trabalhadores, a esplanada

era para os "finos"



Por vezes o filho dum lavrador, mais afoito, descia a

escadaria e ia dançar para o terreiro. Mil olhos se lhe

cravavam nas costas e a moça que aceitara a dança era

mal vista durante algum tempo...


A noite ia alta quando todos regressavam a casa para

descansar um pouco, pois breve ia começar nova

labuta, manhã cedo, nos campos.


Rostos cansados mas felizes dos que tinham tido nos

braços, por momentos, as mulheres amadas a quem

finalmente tinham declarado e prometido amor eterno.


L.M.



Ausência






Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces

Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.

No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada

Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.

Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.

Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.

Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.

Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.

Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.

Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.

E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.

Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.




(Vinícius de Moraes)



(Foto de Nuno Belo-Solidão-Fotografia na net)

segunda-feira, agosto 29, 2005

BLOGDAY




BLOGDAY


É no próximo dia 31.Como funciona?Durante o dia 31 de Agosto, bloggers de todo o mundo farão um post a recomendar a visita a novos blogs, de preferência, blogs de cultura, pontos de vista ou atitude diferentes do seu próprio blog. Nesse dia, os leitores de blogs poderão navegar e descobrir blogs desconhecidos, celebrando a descoberta de novas pessoas e novos bloggers.Leia aqui.



(Notícia retirada da Praça da República de Beja)

sábado, agosto 20, 2005

ALVITO - FESTAS DA VILA




A L V I T O



Festas da Vila de Alvito



26 de Agosto – Sexta Feira



15h00 – Abertura de exposição de pintura “O Mercado da

Roupa” de Maria Santos

Local: Centro Cultural de Alvito




15h30 - Abertura de exposição de pintura das utentes do

Atelier Sénior da Junta de Freguesia de Alvito

Local: Biblioteca Luís de Camões




22h00 – Actuação do Grupo de Baile “Chave D’ouro”

Local: PULA


No final da noite, “After Hours” no bar das Piscinas Municipais com DJ’s




27 de Agosto - Sábado


22h00 – Actuação do grupo de Baile “Deká”


24h00 – Actuação de Tayti


01h00 – Espectáculo Piromusical


01h30 – Continuação do baile

Local: PULA

3h00 – Garraiada à Alentejana

Local: Junto ao depósito da água


No final da noite, “After Hours” no bar das Piscinas Municipais com DJ’s




28 de Agosto - Domingo


12h00 - Missa em honra de Nossa Srª da Assunção

Local: Igreja Matriz



14h00 – Actividades Desportivas

Local: Piscinas Municipais



18h00 – Procissão em honra de Nª Senhora da Assunção,

acompanhada pela Banda Filarmónica dos Bombeiros

Voluntários de Alvito



22h00 – Festa de Aniversário dos “Campos do Alentejo”, com

a actuação dos Campos do Alentejo de Alvito e Terras

do Regadio de Odivelas

Local: PULA



No final da noite, “After Hours” no bar das Piscinas Municipais com DJ’s






Água de Alvito salva campanha agrícola


A transferência de 18 milhões de metros cúbicos de água da albufeira de Alvito para Odivelas salvou campanha agrícola no perímetro de rega da barragem, no concelho de Ferreira do Alentejo.

A operação foi concluída esta semana. Manuel Reis, presidente da Associação de Beneficiários da Obra de Rega de Odivelas, afirmou à Radio Pax que, "sem esta transferência a campanha agrícola neste perímetro de rega estava comprometida". A barragem de Odivelas rega actualmente 3 mil hectares de culturas. "Os agricultores têm água para regar na campanha em curso", afirmou o dirigente agrícola à radio de Beja. "No próximo ano, contudo, poderão surgir alguns problemas se a seca se mantiver", alertou Manuel Reis .
Sexta, 12 de Agosto de 2005 - 02:24
Fonte: Rádio Pax - Jornalista : N.A.

sexta-feira, agosto 19, 2005

"Ainda Refulge..."



Ainda refulge a chama

que perturbou um dia meus sentidos?


Não se apaga jamais

a luz de certo olhar que em segredo amei?


Chora, em meu coração,

a nostalgia do bem com que sonhei?


Da noite, abismo imenso,

oiço indistinta voz chamar por mim?


O que me falta e inquieta

serás tu, de quem não sei o nome?


Ou todo o sonho erguido é cinza ao vento,

estrela fria, cada vez mais longe

do puro silêncio em que se esvai a vida?


(Luis Amaro - Natural de Aljustrel)
Foto da Net


quinta-feira, agosto 18, 2005

As Mãos



Com mãos se faz a paz se faz a guerra.

Com mãos tudo se faz e se desfaz.

Com mãos se faz o poema – e são de terra.

Com mãos se faz a guerra – e são a paz.



Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.

Não são de pedras estas casas mas

de mãos. E estão no fruto e na palavra

as mãos que são o canto e são as armas.



E cravam-se no Tempo como farpas

as mãos que vês nas coisas transformadas.

Folhas que vão no vento: verdes harpas.



De mãos é cada flor cada cidade.

Ninguém pode vencer estas espadas:

nas tuas mãos começa a liberdade.





Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967


Foto de Pedro P.Palma - Fotografia na Net

quarta-feira, agosto 17, 2005

Maria Campaniça




Debaixo do lenço azul com sua barra amarela

os lindos olhos que tem!

Mas o rosto macerado

de andar na ceifa e na monda

desde manhã ao sol posto,

mas o jeito das mãos

torcendo o xaile nos dedos

é de mágoa e abandono...

Ai, Maria Campaniça,

levanta os olhos do chão

que eu quero ver nascer o Sol!



(Manuel da Fonseca)



Maria Campaniça, camponesa, campaniça, da aldeia de Salvada, militante do P.C.P desde que se lembrava, trazia pregado na roupa, todo o ano, o emblema do partido em que acreditava.


Aguardava reformas, concretizações.


Morreu nova quando ainda tinha coisas importantes em que pensar, maiores lutas para travar, galeras para subir, manifestações onde erguer o punho, as paredes da sua aldeia para caiar, 4 homens em casa para cuidar, modas alentejanas para cantar.






(Adaptação do texto do blog "Pelos olhos de Caterina")

terça-feira, agosto 16, 2005






Tive amigos que morriam, amigos que partiam


Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.


Odiei o que era fácil


Procurei-te na luz, no mar, no vento




(Sophia de Mello Breyner Andersen)




"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.

Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.

Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram

todos os dias felizes que se apagaram.

Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."




(Miguel Sousa Tavares, a propósito da perda de sua Mãe, Sophia Andersen)



(Foto de Pedro P. Palma-Fotografia na Net)

segunda-feira, agosto 15, 2005

O Meu Alentejo


(Clique na imagem para ver em tamanho grande e no endereço de origem)




Meio-dia. O sol a prumo cai ardente,

Doirando tudo...Ondeiam nos trigais

D’oiro fulvo, de leve...docemente...

As papoilas sangrentas, sensuais...



Andam asas no ar; as raparigas,

Flores desabrochadas em canteiros,

Mostram, por entre o oiro das espigas,

Os perfis delicados e trigueiros...



Tudo é tranqüilo, e casto, e sonhador...

Olhando esta paisagem que é uma tela

De Deus, eu penso então: Onde há pintor,



Onde há artista de saber profundo,

Que possa imaginar coisa mais bela,

Mais delicada e linda neste mundo?!





(Florbela Espanca)


(Foto - Alvito de Ricardo Encarnação Ferreira. Fotografia na Net

quinta-feira, agosto 11, 2005

O ALENTEJO





Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento. Províncias irmãs pela semelhança de certos traços humanos e telúricos, a transtagana, se não é mais bela, tem uma serenidade mais criadora. Os espasmos irreprimíveis da outra, demasiado instintivos e afirmativos, não lhe permitem uma meditação construtiva e harmoniosa. E compreende-se que fosse do seio da imensa planura alentejana que nascesse a fé e a esperança num destino nacional do tamanho do mundo. Só daquelas ondas de barro, que se sucedem sem naufrágios e sem abismos, se poderia partir com confiança para as verdadeiras. Enquanto a nação andava esquiva pelas serras, ninguém se atreveu a visionar horizontes para lá da primeira encosta. Mas, passado o Tejo, a grei foi afeiçoando os olhos à grande luz das distâncias, e D. Manuel pôde receber ali a notícia da chegada de Vasco da Gama à Índia.


Terra da nossa promissão, da exígua promissão de sete sementes, o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito, e a realidade dum solo exausto.


Há quem se canse de percorrer as estradas intermináveis e lisas desse latifúndio sem relevos. Há quem adormeça de tédio a olhar a uniformidade da sua paisagem, que no inverno se veste dum pelico castanho, e no verão duma croça madura. Que é parda mesmo quando o trigo desponta, e loura mesmo quando o ceifaram. Queixam-se da melancolia dos estevais negros e peganhosos, que meditam a sua corola branca um ano inteiro, da semelhança aflitiva das azinheiras, que parecem medidas pelo mesmo estalão, e não distinguem nos rebanhos que encontram, quer de ovelhas, quer de porcos, as particularidades que individualizam todo o ser vivo. Afeitos à variedade do Norte, que até aos bichos domésticos consente cara própria e personalidade, aflige-os a constante do Sul, que obriga todo o circunstancial a ocupar o seu lugar de zero diante do infinito. Perdidos e sós no grande descampado, sentem-se desamparados e vulneráveis como crianças. Amedronta-os a solidão de uma natureza que não se esconde por detrás de nenhum acidente, corajosa da sua nudez limpa e total.


Eu, porém, não navego nas águas desses desiludidos. A percorrer o Alentejo, nem me fatigo, nem cabeceio de sono, nem me torno hipocondríaco. Cruzo a região de lés a lés, num deslumbramento de revelação. Tenho sempre onde consolar os sentidos, mesmo sem recorrer aos lugares selectos dos guias. Sem necessitar de ir ver o tempo aprisionado nos muros de Monsaraz, de subir a Marvão, que me lembra um mastro de prendas erguido num terreiro festivo, de passar por Água de Peixes, que é um albergue de frescura e de beleza na torreira dum caminho, ou de visitar a Sempre-Noiva, onde há perpètuamente um perfume de flores de laranjeira a sair do rendilhado das janelas manuelinas. Embriago-me na pura charneca rasa, encontrando encantos particulares nessa pseudo-monotonia rica de segredos. Nada me emociona tanto como um oceano de terra estreme, austero e viril. A palmilhar aqueles montados desmedidos, sinto-me mais perto de Portugal do que no castelo de Guimarães. Tenho a sensação de conquistar a pátria de novo, e de a merecer. O chão das outras províncias já se não vê, ou porque vive coberto pela verdura doméstica de oito séculos, ou porque a erosão levou toda a carne do corpo e deixou apenas os ossos. Mas a terra alentejana pode contemplar-se ainda no estado original, virgem, exposta e aberta. E é nela que encho a alma e afundo os pés, num encontro da raiz com o húmus da origem. Abraço numa ternura primária as léguas e léguas duma argila que permanece disponível mesmo quando tudo parece semeado. O corpo, ali, pode ainda tocar o barro de que Deus o criou.


Mais do que fruir a directa emoção dum lúdico passeio, quem percorre o Alentejo tem de meditar. E ir explicando aos olhos a significação profunda do que vê. Porque cada propriedade se mede por hectares, são em redil os aglomerados, respeitosos da extensão imensa que os circunda, e um suíno, ou relegado à sua malhada, ou a comer bolota no montado, não faz parte da família, – é que o alentejano pôde guardar a sua personalidade. E talvez nada haja de mais expressivo do que esse limite nítido entre a intimidade do homem e a integridade do ambiente. Assegura-se dessa maneira a conservação duma dignidade que o bípede não deve alienar, nem a paisagem perder. Se há marca que enobreça o semelhante, é essa intangibilidade que o alentejano conserva e que deve em grande parte ao enquadramento. O meio defendeu-o duma promiscuidade que o atingiria no cerne. Manteve-o vertical e sozinho, para que pudesse ver com nitidez o tamanho da sua sombra no chão. Modelou-o de forma a que nenhuma força, por mais hostil, fosse capaz de lhe roubar a coragem, de lhe perverter o instinto, de lhe enfraquecer a razão. E é das coisas consoladoras que existem contemplar na feira de qualquer cidade alentejana a compostura natural dum abegão, ou vê-lo passar ao entardecer, numa estrada, com o perfil projectado no horizonte, dentro do seu carro de canudo. É preciso ter uma grande dignidade humana, uma certeza em si muito profunda, para usar uma casaca de pele de ovelha com o garbo dum embaixador.


Foi a terra alentejana que fez o homem alentejano, e eu quero-lhe por isso. Porque o não degradou, proibindo-o de falar com alguém de chapéu na mão.


Mas não são apenas essas subtis razões éticas e geográficas que me fazem gostar do Alentejo. Amo também nele os frutos palpáveis duma harmonia feliz entre o barro e o oleiro. Amo igualmente o que o homem fez e a terra deixou fazer. Diante de um tapete de Arraiolos, ou a ouvir uma canção a um rancho de Serpa, implico o habitante e o habitado no mesmo processo criador, e louvo-os no mesmíssimo entusiasmo. Não há arte onde o homem não é livre e a natureza não quer. Dando às mãos ágeis e fantasistas materiais nobres e moldáveis – o mármore, o cobre, a lã, o coiro, e o barro –, a terra alentejana quis que a vida no seu corpo tivesse beleza. E de Norte a Sul, desde as campanhas da Idanha, que já lhe pertencem, às figueiras algarvias, os seus montes, as suas aldeias, as suas vilas e as suas cidades são marcados por um selo de imaginação e de graça. Aqui uma varanda onde um ferreiro fez renda, acolá um pátio onde um pedreiro inventou uma nova geometria, além uma oficina onde um caldeireiro fabrica ânforas esbeltas e vermelhas como cachopas afogueadas. Aproveitando os incentivos do meio e os recursos do seu génio, o alentejano faz milagres. A própria paisagem sem relevo o estimula. Faltava ali o desenho e a arquitectura, que nas outras províncias existem na própria natureza. Pois bem: concebeu ele o desenho e a arquitectura. E, na mais rasa das planícies, ergueu essa flor de pedra e de luz que é Évora!


Beja tem a sua torre de mármore, com uma tribuna para ver meio Portugal; Portalegre os seus palácios barrocos, para encher de solidão; Elvas o seu aqueduto de sede arqueada e a sua feiura para meter medo aos Espanhóis; Estremoz a sua praça do tamanho de uma herdade. Mas Évora olha os horizontes do alto do seu zimbório espelhado, povoa as casas de lembranças vivas e gloriosas, e, sequiosa apenas do eterno, risonha e aconchegada, enfrenta as agressões do transitório com a força da beleza e a amplidão do espírito.


Será talvez alucinação de poeta. Mas porque nela se documenta inteiramente a génese do que somos, o que temos de lusitanos, de latinos, de árabes e de cristãos, e se encontra registado dentro dos seus muros o caminho saibroso da nossa cultura, – se estivesse nas minhas mãos, obrigava todo o português a fazer uma quarentena ali. Uma lei pública devia forçá-lo a entrar na cidade a desoras, numa noite de luar. E, sem guia, manda-lo deambular ao acaso. Seria um filme maravilhoso da história pátria que se lhe faria ver, com grandes planos, ângulos imprevistos, sombras e sobreposições. Uma retrospectiva completa do que fizemos de melhor e mais puro no intelectual, no político e no artístico. Só de manhã seria dado ao peregrino confirmar com a luz do sol a luz do écran. E se ao cabo da prova não tivesse sentido que num templo de colunas coríntias se pode acreditar em Diana, numa Sé românica se pode acreditar em Cristo, e num varandim de mármore se pode acreditar no amor, seria desterrado.


Compreender não é procurar no que nos é estranho a nossa projecção ou a projecção dos nossos desejos. É explicar o que se nos opõe, valorizar o que até aí não tinha valor dentro de nós. O diverso, o inesperado, o antagónico, é que são a pedra de toque dum acto de entendimento. Ora o Alentejo é esse diverso, esse inesperado, esse antagónico. Tudo nele é novo e bizarro para quem o visita. Os arcos, as silharias, as abóbadas e os coruchéus das suas casas; a açorda de coentro e o gaspacho de alho e vinagre das suas refeições; as insofridas parelhas de mulas guisalheiras a martelar as calçadas ao amanhecer; as pavanas cinegéticas que oferece aos convidados; os magustos de bolota; os safões dos homens e o chapéu braguês das mulheres – são ferroadas no nosso cotidiano. Mas o que tem interesse é precisamente revelar aos olhos, ao paladar e aos ouvidos a novidade dessas descobertas. Mostrar-lhes a originalidade de uma vida que se passa ao nosso lado, e tem o inesperado de uma aventura. E mostrar-lho carinhosamente! Sem espírito de simpatia, tudo se amesquinha e diminui. E coisas grandes, como uma semeada ou uma ceifa no Redondo, podem ser reduzidas à pequenez duma vessada ou duma segada beiroa.


Quem vai ao mar, prepara-se em terra – diz o ditado. Aplicando a fórmula ao Alentejo, teremos de nos preparar para entrar dentro dele. Será preciso quebrar primeiro a nossa luneta de horizontes pequenos, e alargar, depois, o compasso com que habitualmente medimos o tamanho do que nos circunda. Agora as distâncias são intermináveis, e as estrelas, no alto, brilham com fulgor tropical. Teremos, portanto, de mudar de ritmo e de visor.


O Alentejo, visitado por alguém que leve consigo a capacidade emotiva e compreensiva de um verdadeiro curioso, é um Sésamo que se abre. As suas fainas, os seus costumes, as mutações impressionantes do seu rosto quando tem frio ou quando tem calor, os seus trajes e a sua própria fala – são outros tantos motivos de meditação e admiração. Mas o que nele é sobretudo extraordinário e a sua inflexível determinação de conservar uma fisionomia inconfundível, haja o que houver. Pode-se preferir uma região mais maneira ou mais angustiada, e uma gente menos soberba, mais autênticamente humana, e mais sinceramente generosa. Herdades mais à medida dos pés, cultivadas por semelhantes sem o ar de fidalgos a gozar férias rurais. Mas não se pode negar a evidência duma terra que merece como nenhuma este nome maternal e austero, e muito menos a dos filhos altivos e afirmativos que dá, imaginários como poetas e duros como azinhos. Cepa e rebentos de tal modo unidos e conjugados, que formam como que um só corpo e um só espírito. Um corpo hipertrofiado, que hipertrofia o espírito por indução.


O alentejano que sobe ao alto do castelo de Évora-Monte, erguido ali ao lado da térrea casinha da Convenção onde a concórdia da família portuguesa foi assinada, ele que tem o sangue de Giraldo-sem-Pavor a correr-lhe nas veias, que assistiu às façanhas e às hesitações do Condestável, e que fez parte da insurreição do Manuelinho, sente naturalmente dentro de si o irreprimível orgulho dum homem predestinado. A seus pés desdobra-se o extenso palco do seu destino: a infindável planície a que dá vida e movimento. São os rios e os ribeiros secos que faz transbordar de suor, os negros montados que alegra de vez em quando pintando de vermelho cada sobreiro, a sua casinha escarolada e erma com uma mimosa na botoeira, e as searas que ondulam e reverberam num aceno de abundância. Um mundo livre, sem muros, que deixou passar todas as invasões e permaneceu inviolado, alheio às mutações da história e fiel ao esforço que o granjeia. Nenhum limite no espaço e no tempo. Seja qual for o ponto cardial que escolha a inquietação, terá sempre o infinito diante de si, em pousio para qualquer sementeira. E essa eterna pureza e disponibilidade do solo exaltam o ânimo do possuidor.


Sim, pobre ganhão que seja, ele é um rei nos seus domínios. Não há outro português mais rico de pão, agasalhado por tão quente manta de céu e dono de tantos palmos de sepultura. Que minhoto ou estremenho se pode gabar de ver sempre o vulto dum seu irmão, que não tem medo da imensidade, a abrir um risco de fogo e de esperança com a ponta da charrua?



(Miguel Torga)


INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...