sábado, outubro 18, 2008

JOSÉ-AUGUSTO DE CARVALHO



CANTARES

Eu canto as horas amargas
das cargas e das descargas
das barcas de arrojo e pinho...

Eu canto os longes das rotas
abertas pelas gaivotas
com asas de níveo linho...

Eu canto as horas sombrias
de medos e de agonias
no mais além da tormenta...

Eu canto as horas de luto,
naufrágios, febre, escorbuto,
sabor de cravo e pimenta...

Eu canto no Cabo Não
o sim de passar ou não,
mas nunca o retroceder...

Eu canto os Cabos da Dor!
Gil Eanes -- Bojador,
tormentas de estarrecer...

Eu canto as Áfricas virgens,
feridas desde as origens
de mágoas e predadores...

Eu canto as Índias da História,
cobiças, dramas e glória
de incenso e de roxas cores...

Eu canto os áureos Brasis,
a cana em negro matiz
de açúcar de acres sabores...

Eu canto a nesga europeia
do Poeta e da Epopeia
do Fado das nossas dores...







A FLOR DA FANTASIA

Em terras do Alentejo, há muito emurcheceu,
no sonho de Aladim, a flor da fantasia.
Sem noites de luar, o canto emudeceu
e um manto de tristeza o nada silencia.

O sol é um incêndio, um caos de idolatria,
que o tempo-amar-e-ser há muito corrompeu...
Em terras do Alentejo, há muito emurcheceu,
no sonho de Aladim, a flor da fantasia.

Ai, que assombrada voz meu sono escureceu!
Que pesadelo em mim só me anoitece o dia...
O dia que eu queria e nunca amanheceu!
Saudade do que fui! A flor da fantasia,
em terras do Alentejo, há muito emurcheceu...






SONETO PARA SHERAZADE

O grito que ressoa acorda o sonho antigo
As crinas dos corcéis ondulam anelantes
Nas dunas do deserto em fogo onde me abrigo
Os teus apelos de alma e coração distantes

No tempo e no lugar, as sedes de outras fontes
Em ti o lago pleno, ocaso de afluentes
Depois de ti não pode haver mais horizontes
Que mais, além de ti, se tudo em ti consentes

Escondes sob o véu os lábios purpurinos
Sedentos de áurea lava em tragos de ambrosia
Prometes no teu ventre anseios levantinos
Gemidos de luar de cálida estesia

Teu grito no meu grito, o grito definido
Aurora recusando o tempo interrompido





José-Augusto de Carvalho é natural de Viana do Alentejo.

Aconselho uma visita ao seu blog TEMPOS DO VERBO


sábado, outubro 11, 2008

Luis de Camões

Pintor Adophe-William Bouguereau



Quem pudera julgar de vós, Senhora,

que com tal fé podia perder-vos,

e vir eu por amor a aborrecer-vos?

Que hei-de fazer sem vós somente uma hora?



Deixaste quem vos ama e vos adora;

tomastes quem quiçá não sabe ver-vos.

Eu fui o que não soube merecer-vos

e tudo entendo e choro, triste, agora.



Nunca soube entender vossa vontade

nem a minha mostrar-vos verdadeira,

ainda que está tão clara esta verdade.



Em mim viverá ela sempre inteira;

e, se para perder já a vida é tarde,

a morte não fará que vos não queira.



Transparências do Pintor Abreu Pessegueiro



Busque Amor novas artes, novo engenho

para matar-me, e novas esquivanças;

que não pode tirar-me as esperanças,

que mal me tirará o que eu não tenho.



Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

andando em bravo mar, perdido o lenho.



Mas, conquanto não pode haver desgosto

onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê.



Que dias há que na alma me tem posto

um não sei quê, que nasce não sei onde,

vem não sei como, e dói não sei porquê.



O beijo da pintora Maria Helena Pais de Abreu





Correm turvas as águas deste rio,

que as do Céu e as do monte as enturbaram;

os campos florecidos se secaram,

intratável se fez o vale, e frio.



Passou o verão, passou o ardente estio,

umas coisas por outras se trocaram;

os fementidos Fados já deixaram

do mundo o regimento, ou desvario.



Tem o tempo sua ordem já sabida;

o mundo, não; mas anda tão confuso,

que parece que dele Deus se esquece.



Casos, opiniões, natura e uso

fazem que nos pareça desta vida

que não há nela mais que o que parece.


terça-feira, outubro 07, 2008

BORBA - ENCONTRO DE BLOGS






PROGRAMA

Borba, 9 de Novembro de 2008

(até às) 10h30 – Recepção, na Festa da Vinha e do Vinho;

11h00 – Mesa Redonda, no Pavilhão de Espectáculos da Festa da Vinha e do Vinho;

13h00 – Almoço, na Festa da Vinha e do Vinho;

15h00 – Foto de Grupo, seguida de Visita à Festa da Vinha e do Vinho

Tarde Livre

Inscrições para o Encontro: AQUI, deve constar o nome do blog, o nome do seu administrador, número de acompanhantes. O inscrito deve fornecer igualmente outro meio de contacto que não o endereço electrónico (por exemplo nº de telemóvel ou telefone fixo), de forma a que se possa comprovar a veracidade da inscrição. Apenas será divulgado o nome do blog, os restantes dados fornecidos não serão divulgados.

Prazo limite de inscrições: dia 2 de Novembro (não serão aceites inscrições depois desta data).

A Mesa Redonda está aberta a todos os interessados, não carecendo de inscrição prévia. Esta conversa será moderada, e contará com bloggers convidados.

O Alto da Praça é o blog organizador deste Encontro em estreita colaboração com a Comissão Instaladora da Associação Nacional de Blogs e a Câmara Municipal de Borba.

Visite o ENCONTRO DE BLOGS - BORBA 2008

domingo, outubro 05, 2008

ATÉ SEMPRE PROFESSOR FERNANDO PEIXOTO




FERNANDO PEIXOTO Professor de História do Teatro na ESAP - Escola Superior Artística do Porto. Na Universidade do Porto investigador de História Contemporânea na área da Política Institucional .
Estava doente há poucos meses, mas era grave e não conseguiu ganhar esta batalha.





TEATRO

Para o Marcelo Romano, com a admiração do autor


Fazer teatro, não é
deixar a vida correr,
cruzar os braços, viver,
deixar correr o marfim;
e se às vezes se diz sim,
muitas vezes se diz não.
Embora custe ao actor
manter o direito ao pão,
não hesita em dizer NÃO
quando um NÃO é a verdade,
e mantém a liberdade
de dizer que não, que sim,
por questão de dignidade,
porque o Teatro é assim.
Porque o Teatro é a vida
e a verdade é o seu norte,
o actor desafia a sorte
e a mentira é vencida.

Mas na luta desigual
entre a verdade e a mentira,
se nuns despoleta a ira,
noutros reforça o Amor,
e nesta dicotomia
que é o Teatro, afinal,
vence o Bem, que é a Verdade,
cai a Mentira, que é o Mal.
E a máscara da ilusão
com que o homem se disfarça
fica prostrada no chão
ante o humor de uma farsa.

Sempre assim foi e será
(é essa a nossa certeza)
porque o Teatro é a manhã
que dá vida à natureza,
porque o Teatro é a alegria
de saber que vale a pena
transferir o dia-a-dia
para o âmago da Cena.
E repleto de esperança,
sereno, firme e seguro,
o actor é uma criança
que acredita no futuro.

E faz da crença um Amor
tão largo, grande e profundo,
que mesmo pobre, o Actor,
é o mais rico do mundo!


FERNANDO PEIXOTO

Portugal

quarta-feira, setembro 24, 2008

PETIÇÃO PELO RESGATE PARA PORTUGAL, DOS MILITARES MORTOS NA GUERRA DO ULTRAMAR / GUERRA COLONIAL.





Exmo. Sr. Presidente da Assembleia da República Portuguesa,

As cidadãs e cidadãos abaixo assinados pretendem que o Estado Português cumpra o dever patriótico de trasladar para Portugal – para as suas terras de origem, de onde partiram para a Guerra do Ultramar / Guerra Colonial - os restos mortais dos Combatentes que morreram ao serviço da Pátria e ficaram enterrados em campas espalhadas pelos antigos territórios ultramarinos.


Assim, e ao abrigo do Decreto-Lei nº. 43/90, de 10 de Agosto, com as alterações que lhe foram introduzidas pela Lei nº. 6/93, de 1 de Março, pela Lei nº 15/2003, de 4 de Junho e pela Lei nº. 45/2007 de 24 de Agosto, subscrevemos o requerimento, proposto pelo “Movimento Cívico de Antigos Combatentes”, a enviar à Assembleia da República para:

1 – Que seja decretada a trasladação para Portugal dos restos mortais dos militares mortos e abandonados em terras africanas, em cumprimento do mais elementar desígnio das nações civilizadas e para dignificar a memória dos que morreram ao serviço da Pátria.
2 – Que esses restos mortais sejam trasladados para Portugal, entregues às respectivas famílias e/ou depositados junto do Monumento Nacional aos Combatentes, em local apropriado e digno.

Até esta situação estar resolvida, as Comemorações do 10 de Junho – Dia de Portugal e das Comunidades - continuarão ensombradas pela ausência daqueles que, lutando sob a bandeira de Portugal, por ela deram o sacrifício máximo, a própria vida.

Apoiam esta Petição, além dos subscritores da mesma, muitas associações de Antigos Combatentes e outras Instituições.


Se estiveres de acordo com o assunto desta petição, por favor ajuda na sua divulgação, colocando no teu blog, site ... enviando para os teus contactos. Clica aqui para leres e assinar a PETIÇÃO
(N/nº 763)

terça-feira, setembro 23, 2008

APOPLEXIA DA IDEIA - LANÇAMENTO





lançamento do livro "Apoplexia da Ideia" de
Maria Quintans com ilustrações de João Concha
no próximo dia 26 de Setembro, na FNAC do Chiado, às 18.30h.
edição da Papiro Editora.

JORGE VICENTE - CONVITE









CONVITE DE JORGE VICENTE:

Meus queridos amigos,

como bem sabem, lancei o meu primeiro livro Ascensão do Fogo no dia 26 de Abril, em Vila Nova de Gaia. Agora, alguns meses depois, este será apresentado em Lisboa, na Livraria Trama, sita na Rua São Filipe Nery, nº 25B, bem junto ao Rato. A data de apresentação do livro será no próximo sábado, dia 27 de Setembro, pelas 21.30.

Conjuntamente comigo, será apresentado também o livro de poesia do actor, encenador e poeta José Gil, já um velho companheiro das escritas. O livro chama-se Fractura Possível.

Em princípio, o meu livro será apresentado pelo jovem poeta Rui Sousa, um dos principais contribuidores da fanzine Actéon, da qual também faço parte. A apresentação do livro do Gil estará a cargo do poeta José Félix.

O momento musical estará a cargo de Fernando Dinis, jovem compositor e, também, poeta. Foi editado em 2003 pela Hugin Editores (Dá-me-te) e já publicou em várias antologias de poesia. Tem um blog (http://www.ficoatetardenomundo.blogspot.com/) e um site no myspace (http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendID=123494151).

Serão declamadas poesias dos livros pelos autores, por outros poetas e por quem se ousar a desbravar as palavras através do som.

O meu muito obrigado
Jorge Vicente


quarta-feira, setembro 17, 2008

JORGE VICENTE





Hoje trago a esta galeria "Dando Voz Aos Poetas" o meu amigo JORGE VICENTE.

Gostaria de possuir um pouco da cultura que preenche este Amigo e o dom da palavra para o poder apresentar condignamente.
Na ausência dessas qualidades arrisco, no entanto, a apresentá-lo como um Poeta promissor já com obra publicada (Ascensão do Fogo), escritor, crítico de cinema e de música. Convido-vos a visitar o seu blog AMORALVA e a colher ali todo um manancial de conhecimentos e opiniões que JORGE VICENTE partilha connosco.

Também aproveito a ocasião para o felicitar pelo seu aniversário que festeja hoje desejando-lhe muitas felicidades.

Um grande abraço do amigo

Lumife




Algumas palavras de JORGE VICENTE retiradas do seu blog AMORALVA:


o meu corpo é da carne do alentejo:
a flor, sedenta, apenas dá fruto
quando o poema anoitece e o
descampado se revela
na sua ascese de séculos

jorge vicente


====*****====


gabriel. deixa-me escrever-te um poema. um poema que diga do meu nome, da sabedoria inerente a todas as coisas. dessas pequenas palavras que só os justos conhecem, como se fosse algo imanente ao mundo. e partisse dele. e o rebentasse.

deixa-me ser um rebento azul. anterior à terra e à sementeira das águas. nunca poderei ser mãe. nem pai. apenas um invólucro de giz envolto em mil pontos de luz.

deixa-me escrever-te um poema, como se fosse uma carta. ou um rol de pedidos dirigido às mais altas entidades. nunca perceberei o significado de ser pai ou mãe. ou uma terra aberta no desfloramento da alma.

anuncia o teu amor. anuncia-me. e cai. cai como se fosses único, como se a cor vermelha não te afligisse e visses o homem no lugar do anjo.

jorge vicente


==== **** ====


o casario estendia-se muito para além do silêncio das casas. era noite e a madrugada adormecia os homens, pequenos pontos vermelhos que iluminavam a grande noite alentejana. o vento carpia nuvens de fogo, alimentado por corpo de trovoada, que circundava os homens. e as suas paredes de cal, construídas quando o sol ainda era pleno e a grande estrela do oriente iluminava silves, a bem-amada.

o casario estendia-se e a queimada carpia no incêndio de deus, mais antigo que as casas, mas submisso ao amor e à memória.

Jorge Vicente


==== **** ====


na casa da minha avó, havia paredes e mobílias velhas, pequenos segredos guardados por dentro, cheios daquelas memórias simples que evocamos sempre que ouvimos trovoada.

na casa da minha avó, escondíamo-nos debaixo dos lençóis brancos, feitos de tecido antigo, da época da monarquia, numa era em que a pedra representava a montanha e o rio a memória.

na velha casa, a serra parecia parir fogo e a criança que era em mim pensou tratar-se de vulcão. eram apenas faíscas que se lançavam da cruz alta, com o fantasma d'el rei d.fernando olhando serenamente para o repouso silente dos homens.

no velho moinho e na velha casa, a minha avó dormia. e o rei guardava a serra, mirando o seu belo trabalho artístico e ajuntando os meus lábios ao rasto dos dedos que esculpiam a pedra.

Jorge Vicente


==== **** ====


na mais antiga noite do mundo,
silêncio haveria sempre,
silêncio de palavras,
como se a rocha ainda não esvaziasse
o sentido da pele,

da pele clara e seca da terra,
da terra simples e boa
que os antigos cultivavam ao raiar da treva.

na mais antiga noite do mundo,
só restaria a pedra e o mar
encapelado da palavra
encoberta.

Jorge Vicente



segunda-feira, setembro 08, 2008

SAGHER

Foto de Marco Niemi-Olhares



Escuta o murmúrio do tempo,
Ouve o sussurro do mar
Liberta teus sonhos no vento
Ama quem amas e deixa-me amar
Que a guia da minha pena
Não se chama inspiração
Ela guiada pelo sonho
É Alimento da paixão
Tanto tempo sem te ver
Faz-te viva no lembrar
Nego o poeta Francês ( Avec le temp........)
O tempo não deixa de amar
E se o mundo dos sentidos
Impõe a sua razão
Recordar lábios perdidos
É tocar a tua mão.

( sagher )


***** ... ***


Sonhei o passado.
Memória de ti.
Estava a teu lado;
Mas não estavas ali.

Sonhei o futuro.
Momento sem ti.
Não estava a teu lado;
Mas tu estavas ali.

Olhei o presente.
Vivido sem ti.
Não estás a meu lado;
Mas eu estou ai

(sagher)


**** ::::: *****


Eu quero enlaçar todo o teu corpo
Tocar-te o espírito, roubar-te a alma
Quero ter-te a ti como meu porto
Num entardecer em tarde calma.
Quero embriagar-me com teu perfume
Ficar insano, perder o nexo,
Beijar-te os seios e fazer lume
Incendiar-te o ventre, tomar-te o sexo.


Manuel F.C. Almeida



**** :::: ****


Quase que o tempo
Suprimia o odor
Adocicado do teu corpo
E a candura aveludada
Dos teus lábios.
Mas as mãos vieram
Resgatar-te na memória
Do corpo
E o tempo revelou-te
Num quadro
Que vive nos rios
Das nossas muralhas.

Manuel Filipe Carvalho de Almeida



Mergulhei no blog AVEC LE TEMPS percorrendo os quatro anos que Sagher leva a partilhar connosco o que lhe vai na alma e recolhi alguns poemas para vos despertar o desejo de visitar este sítio da blogosfera onde reina a poesia.


sábado, agosto 30, 2008

POEMAS DE MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

Foto Doug Gilbert







Amei-te como na vida se ama uma só vez;
e todos os afectos que dividi depois eram
apenas cinzas que evocavam o brilho dessa
imensa chama. Troquei suspiros e beijos

com muitas outras bocas quando, na minha,
o travo da solidão era uma amarga desculpa
para repartir o pouco que não tinha; mas

em nenhuma quis morder fruto mais
suculento que o silêncio nem permiti que
pousasse sequer o meu nome verdadeiro -
que só nos teus lábios era graça e canção

e eco de loucura. Foi o meu corpo tão vão
naqueles que o cingiram que me faria velha
a tentar recordar-lhes os gestos hesitantes,
as convulsões da pressa e os veios de sal que
descreviam no litoral da pele o aviso de uma
paisagem interior abandonada. Mas de nada

me serviu amar-te assim - pois, ao dizer-te o
que não pude ser longe de ti, digo-te o que sou
e isso há-de guardar-te para sempre de voltares.





... Nunca te esqueci...
O que ontem me disseste agora
o ouço, como se nada tivesse interrompido
a magia do instante em que as nossas bocas
se aguardavam na distância de um beijo e
o olhar tocava o corpo antes da mão. Se
hoje vieres ... encontrarás ... os
lençóis da cama imaculados, e um corpo pronto
para qualquer aventura...






Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar esta cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.



(Maria do Rosário Pedreira)



terça-feira, agosto 12, 2008

domingo, agosto 10, 2008

HELENA DOMINGUES

Foto de Thais Salinas


GOTA



Roubou-me o vento ao mar...
Levou-me de viagem...

Fez de mim nuvem passageira,
Sombra escondida,
Estrela cadente de brilho breve,
Caída dos céus sem aviso
E me afundou no teu rio
No teu sorriso

De novo, levou-me ao mar
O meu mar...
Que abafou meu silêncio gritante
E me cantou cantigas de embalar
Que me pegou ao colo
Me conduziu à praia
E a fez brilhar.
E nessa noite escura,
Noite sem luar
Como que por magia
A noite se fez dia

E o areal que de mim fora privado
Transformou-se no mais belo céu estrelado





GAIVOTA

Como a gaivota que busca o alimento
Eu busco em teus gestos o amor.
Se tropeço em terra, subo em voo lento
E atinjo alturas breves de condor.

E pairo nesse céu que é o teu mar,
E mergulho já louca de paixão
Nesse líquido azul do teu olhar
Aí despedaçando o coração.

E de condor-gaivota, a tropeçar
Ouço ao longe ainda alguns harpejos
Recordo com saudade esse mar,
E o sal, em meus lábios, dos teus beijos.





RENASCER


Longínquo é o passado
Das areias
Ainda que o julguemos
Próximo.
Tempestade de mim
E de palavras.
Expurguei-me de voz
E de sentires
Dançando com elas
Em louco turbilhão.
Renasci
Das inquietas areias
Tal Phoenix, das cinzas
Ao Caos seguiu-se a Ordem
A calma possuiu-me
E sou Outra
Em paz comigo
E com o Mundo


HELENA DOMINGUES

Apresentamos hoje três trabalhos de Helena Domingues "roubados" do seu blog ORION.
Recomendamos vivamente uma visita demorada a esse blog.

domingo, agosto 03, 2008

LENA MALTEZ

Foto de Vladimir Arkhipov



COMEÇA EM TI ...


começa em ti, tudo o que se sente
como o aroma de mar sem fim
numa ausência que não é indiferente
no sol que vem de ti e se liga a mim

apoio-me taciturna nas palavras
num reunir obscuro de desejos
vacilando nua, em marés passadas
confusa, ávida de sabores e medos

desfaz-se o sonho começado em ti
transformo as razões, em riscos
nas mãos, desfaz-se o que senti
na voragem de leves sorrisos

começa em ti, tudo o que se sente
o aroma, o mar, a ausência do fim
memória mágica e dormente
da noite que corrói e vagueia em mim

e acaba em mim...





SONHO...


a noite entrou, encantada
adormeceu-me o corpo
envolveu-se nos meus sonhos
fez-me sentir-te em mim
tremer junto ao teu corpo
beijar teus lábios demoradamente
descobrir o teu gosto
com meu corpo inteiro

fomos sombras ocultas
cheias de movimento
desejos penetrantes e agitados
fomos nós num momento
da duvida que sonha a certeza
o desequilíbrio na infame consciência

a noite fez-nos sentir
o silêncio vestido de branco
a ausência irreal
em forma de sonho
viajamos juntos em sentimentos
e o teu corpo fundiu no meu

de alto a baixo
o suspiro violento
numa voraz paixão
que nos alimentou as veias
da noite que cresceu como louca,
brotavam palavras, nas entrelinhas
um intenso amo-te
no dueto de quem ama

a noite acordou-me
abandonou-me sem sonhos
tu não te encontravas lá
só a cama, branca, amarrotada...










EM CADA SILÊNCIO MERGULHA A PALAVRA

aqui

junto à praia fundi palavras
os olhos, esses transformaram-se
adquiriram o brilho da cor da madrugada,

o sol partiu,
evaporou-se entre nuvens cinzentas
deixou sombras de um tempo passado,
ficou só o barulho das aves em grupos,

respiro em silêncio o cheiro do mar
anoiteceu mais cedo
a lua brilha tanto como o sol

aqui deixo-me ficar
numa amarga memória de inspiração alheia
imaginando ouvir palavras que esperei

tenho como companhia a noite
que me persegue e assusta,

já nada possuo em mim
amanheceu,
prendi-me ao esquecimento
por tanto amar


espero o dia que sobrevirá ao outro





LENA MALTEZ

Poemas retirados do seu blog CABANA DE PALAVRASque merece uma visita demorada.




segunda-feira, julho 28, 2008

VONTADES e NA TUA VIDA





VONTADES


Tenho vontade
duma coisa doce
como se fosse
vontade de ti;

Tenho vontade
duma coisa suave
como canto de ave
que a cantar sorri;

Tenho vontade
de algo diferente
que deixe semente
agora e aqui;

E tenho vontade
de dizer ao mundo
que dói, muito fundo
a vida, sem ti!...




NA TUA VIDA


Eu quero ser na tua vida um gesto!
A ternura dum beijo dado a medo
nem passeata, discurso ou manifesto
canção de ninar ou de protesto
um gesto, um simples gesto
ou um segredo!
Eu quero ser na tua vida, um ponto!
ponto de combustão, ponto do prumo
ponto cardeal ou contra ponto
o ponto final dum texto pronto
um ponto
partida ou chegada a qualquer rumo!
Eu quero na tua vida o nada!
Ausência total, coisa nenhuma
vazio absoluto, nada, nada
nada de porta aberta, escancarada
o nada
todo brisa, todo bruma!
Eu quero ser na tua vida cheiro!
Forte, que perturba, que inebria
mas não de poder ou de dinheiro
um cheiro de povo
um simples cheiro
de giesta de serra e maresia!...


MARIA MAMEDE

VISITE O SEU BLOG:

DE AMOR E DE TERRA

sábado, julho 26, 2008

AO LUAR

Pintura de Jaoni



Que linda vai a noite, que calor!
Tudo em repouso já ... Só o luar
Nostálgico e morno anda a boiar
Encharcando de luz tudo em redor


Que aroma subtil, jasmins em flor...
Há restos de canções ainda no ar
E dentro em mim o sangue, a latejar,
Arde em desejos loucos de amor

Ah, pudesse eu beijar-te, longamente...
Apertar-te em meus braços como outrora,
Aninhar-te em meu peito ternamente,


Sentir-te toda minha nesta hora.
Já que tão triste e só e descontente
Sem ti, a minha vida corre agora!



António Melenas


terça-feira, julho 08, 2008

ÚLTIMA FRONTEIRA

Foto de Arian Bahrami


Delirando entre sonhos,
verdades, desejos
e loucuras,
entre o toque da caneta no papel
e o teu sorriso,
é tão curta a distância
dos meus braços aos teus.
É tão fácil tocar os nossos lábios.
É tão curto o caminho.

Fico a pensar o que busco em ti,
na cor do silêncio nocturno
enquanto o desejo alastra,
insubmisso,
como se procurasse
um esconderijo urgente.
Como se a penumbra tivesse olhos
e pudesse ver através da noite.

Depois,
deslizas como o vento
propagando sem destino
surpresas e carícias,
suavidade e tumulto.
Tão subtil, tão viva,
azul... sempre azul…
Júbilo da nudez,
insana fantasia
num delírio fulvo de luz.

Encantado gozo
como rios de prosa a versejar
ao longo do teu corpo
transbordando poesia.
Corpos ondulantes
em delírios de amor,
esperando suplicantes
o momento redentor.


ALBINO SANTOS

domingo, julho 06, 2008

PRESENTE

Foto de Gregória Correia - Olhares



PRESENTE


Queria neste poema a cor dos teus olhos
e queria em cada verso o som da tua voz:
depois, queria que o poema tivesse a forma
do teu corpo, e que ao contar cada sílaba
os meus dedos encontrassem os teus,
fazendo a soma que acaba no amor.


Queria juntar as palavras como os corpos
se juntam, e obedecer à única sintaxe
que dá um sentido à vida; depois,
repetiria todas as palavras que juntei
até perderem o sentido, nesse confuso
murmúrio em que termina o amor.


E queria que a cor dos teus olhos e o som
da tua voz saíssem dos meus versos,
dando-me a forma do teu corpo; depois,
dir-te-ia que já não é preciso contar
as sílabas, nem repetir as palavras do poema,
para saber o que significa o amor.


Então, dar-te-ia o poema de onde saíste,
como a caixa vazia da memória, e levar-te-ia
pela mão, contando os passos do amor.



Nuno Júdice

O Estado dos Campos

quarta-feira, julho 02, 2008

NÃO ADORMEÇAS: O VENTO AINDA ASSOBIA NO MEU QUARTO

Foto de Nuno Manuel Baptista-Olhares





Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.



Maria do Rosário Pedreira
de A Casa e o Cheiro dos Livros

INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...