segunda-feira, janeiro 26, 2009

A PIAF




Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.
Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
o desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.

6/10/1964

JORGE DE SENA


quinta-feira, janeiro 22, 2009

POR TI




Por ti

Escrevi o teu nome em todos os lugares,
procurei-te sem fim nos dias mais incertos,
tive sede de ti na solidão dos bares
e fome do teu corpo em todos os desertos.

Fui soldado e lutei em busca do teu rosto,
que vi impresso a fogo em todas as esquinas.
Deixei que me queimasse a dor do sol de Agosto
e mergulhei sem medo em plagas submarinas.

Para te ter venci as longas avenidas
de todas as cidades que ninguém ousou.
E por ti viverei largos anos de vida
na ânsia de te dar tudo o que tenho e sou.


Torquato da Luz



Foto de Alba Nunes



domingo, janeiro 18, 2009

ALÉM DA MORTE





ALÉM DA MORTE

Fecho os olhos num sonho que me leva

Às paragens divinas da saudade,

Lá onde a noite é apenas claridade

Dando origem talvez a nova treva.


Fecho os olhos e avisto a Eternidade,

Lá onde um sol fantástico se eleva

Num perpétuo fulgor, sem que descreva

Sua órbita de luz na imensidade.


Fecho os olhos e vejo a minha imagem

Anoitecendo os longes da paisagem,

Como a única sombra que persiste...

Sou eu! sou eu aquele vulto errando!

Sou eu, além da morte ainda sonhando

Na tua graça e neste amor tão triste!...


Anrique Paço d'Arcos



Henrique Belford Corrêa da Silva, com o nome de poeta Anrique Paço d' Arcos, nasceu em 1906, na cidade de Lisboa, vindo a falecer em Luanda, no ano de 1993.
Escritor simples e elegíaco, legou-nos livros de poesia como Versos sem Nome (1923), Divina Tristeza (1925), Mors-Amor (1928), Peregrino da Noite (1931), Cidade Morta (1939), Estrada sem Fim (1947), História de Jesus (1962), Círculos Concêntricos (1965), Voz Nua e Descoberta (1981) e Poesias Completas (1993).


Foto de Dionísio Leitão

sexta-feira, janeiro 16, 2009

APAGOU-SE...





Apagou-se, por fim, o incerto lume,
que, em volta do meu ser, ainda ardia,
e o velho alfange, de inquietante gume,
cortou o voo que meu sonho erguia.

Apagou-se, por fim, o lume incerto…
e fiquei-me entre as urzes, hesitante,
no local que pr’a o além era o mais perto
e pr’a voltar a mim o mais distante.

Abandonada, então, essa charneca,
vestida de silêncio, árida e seca,
rodeou-me a minha alma sonhadora.

Afastei-me. Acabei por me perder:
sem poder atingir o que quis ser
e sem poder voltar ao que já fora.


Alfredo Guisado




Alfredo Pedro de Meneses Guisado nasceu a 30 de Outubro de 1891 em Lisboa, onde faleceu a 2 de Dezembro de 1975. De ascendência galega, completou o curso de Direito, em 1921, na sua cidade natal, mas nunca exerceu a advocacia, dedicando-se antes ao jornalismo e à intervenção cívica: deputado do Partido Republicano Português, chegou a ser governador civil substituto e director-adjunto do diário «República».

Foto de Pedro Silveira-Olhares


quarta-feira, janeiro 07, 2009

QUERO


foto de Catarina Krug



Quero

Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.

Sophia Mello Breyner Andresen


domingo, janeiro 04, 2009

ANTÓNIO REBORDÃO NAVARRO - CONVITE
















Apresentação da reedição de 2 Obras do Homem de Letras ANTÓNIO REBORDÃO NAVARRO:

- o 1º romance por ele escrito, "ROMAGEM A CRETA" e o livro de poesia "27 POEMAS" - agora reeditadas pela EDIUM EDITORES.

DIA 08 de JANEIRO, pelas 21H30, no HOTEL ALVORADA, ESTORIL (abaixo a planta com localização do Hotel)



sábado, janeiro 03, 2009

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA - Esta Noite...

Foto de AVALON-OLHARES




Esta noite o vento ceifa os bosques e

uma raiva sacode a terra. Se a voz

do mar chamasse pelas velas, os estreitos

aguardariam um naufrágio. E se dissesses

o meu nome eu morreria de amor.




Devo, por isso, afastar-me de ti – não

por ter medo de morrer (que é de já não

o ter que tenho medo), mas porque a chuva

que devora as esquinas é a única canção

que se ouve esta noite sobre o teu silêncio.




Maria do Rosário Pedreira

O Canto do Vento nos Ciprestes

Lisboa, Gótica, 2001


sexta-feira, dezembro 19, 2008

BOAS FESTAS

Clique na imagem para a ver em tamanho maior





Vou estar ausente até princípios de Janeiro de 2009.

Desejo a todos os Amigos/as, comentadores ou simples visitantes umas Boas Festas.

Para o ano cá nos encontraremos.

Aqui vos ofereço um óleo sobre tela de Bento Coelho da Silveira (1620 - 1708)Adoração dos Magos existente no Museu de S. Roque em Lisboa.


domingo, dezembro 14, 2008

ANTÓNIO REBORDÃO NAVARRO - CONVITE




Dia 17 de Dezembro pelas 21horas no Palacete dos Viscondes Balsemão.


Leitura de textos a cargo do actor António Reis.


Comparece e...divulga.


NOTA - CLICA NA IMAGEM E AMPLIA O CONVITE


SOBRE O AUTOR:


António Augusto Rebordão e Cunha Navarro nasceu no Porto em 1 de Agosto de 1933. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi Delegado do Ministério Público em Vimioso e Amarante, Director da Biblioteca Pública Municipal do Porto e Director Editorial, tendo exercido a advocacia.

Secretariou e dirigiu a Revista Literária Bandarra, fundada por seu pai, o escritor Augusto Navarro.

Foi co-director e também co-autor de Notícias do Bloqueio e director-adjunto da revista literária Sol XXI.

Colaborou em diversas publicações e encontra-se representado em várias antologias.

Fez parte da direcção e foi Presidente da Assembleia-geral da Associação de Jornalistas e Homens das Letras do Porto e Vogal do Conselho Fiscal da Sociedade Portuguesa de Autores.

Alguns dos seus poemas estão traduzidos para castelhano, francês, checo, neerlandês e sueco. Em 2002 foi-lhe atribuído o “Prémio Seiva” (Literatura).
_______________






Natureza morta de Paul Cézanne





Poema quase triste

Os homens passam sem darem por nada
carregados assim como eles vão
com suas sombras a ganharem gibas,
com os seus olhos a ficarem baços,
cheios de presbitia e astigmáticos.
Não lhes importa que nos frutos estejam
confissões de poetas e de heróis.
Os homens passam e não vêem nada,
olham apenas para as suas vidas,
para a filha doente ou para os filhos mortos.
Não se apercebem das árvores e das rochas,
sangue e nervos da terra.
Seguem tristes e com os seus olhares
voltados para dentro,
para os seus crimes ou para os seus sonhos.
Não param a escutar o coração da terra
que bate, tranquilo, sob o chão.
Tristemente aguardam os eléctricos
que os hão-de levar a suas casas
de paredes forradas pelos retratos
dos fantasmas antigos e até próximos.
É sem amor que trincam os frutos
coloridos no sangue de todos os mortos
e nem pensam que a terra se abrirá
a seus corpos alheios, certo dia.
Procuram suas chaves
e, de cabeça baixa, penetram em casa,
sentam-se à mesa e choram
com suas mulheres, livros, diários íntimos,
mas não falam sequer à Natureza
que lhes oferece, em vão,
todos os seus segredos e mistérios.
Deitam-se sonolentos,
fecham a luz e dão-se aos pesadelos
ou aos sonhos de quando eram meninos. . .
Embriagam-se ou matam-se
e entregam-se aos vícios ou às lágrimas. . .
Tristes os homens passam
sem verem que a terra lhes oferece
juntamente com frutos e canções.



António Rebordão Navarro
A Condição Reflexa
Poemas (1952 - 1982)
Imprensa Nacional Casa da Moeda

quinta-feira, dezembro 11, 2008

APELO À POESIA




APELO À POESIA

Por que vieste? - Não chamei por ti!

Era tão natural o que eu pensava,

(Nem triste, nem alegre, de maneira

Que pudesse sentir a tua falta...)

E tu vieste,

Como se fosses necessária!



Poesia! nunca mais venhas assim:

Pé ante pé, covardemente oculta

Nas ideias mais simples,

Nos mais ingénuos sentimentos:

Um sorriso, um olhar, uma lembrança...

- Não sejas como o Amor!



É verdade que vens, como se fosses

Uma parte de mim que vive longe,

Presa ao meu coração

Por um elo invisível;

Mas não regresses mais sem que eu te chame,

- Não sejas como a Saudade!



De súbito, arrebatas-me, através

De zonas espectrais, de ignotos climas;

E, quando desço à vida, já não sei

Onde era o meu lugar...

Poesia! nunca mais venhas assim,

- Não sejas como a Loucura!



Embora a dor me fira, de tal modo

Que só as tuas mãos saibam curar-me,

Ou ninguém, se não tu, possa entender

O meu contentamento,

Não venhas nunca mais sem que eu te chame,

- Não sejas como a Morte!








UMA HISTÓRIA VULGAR


Ouvir a tua voz, outrora, era o bastante
Para sentir, enfim, justificada, a vida;
E supor que podia, a partir desse instante,
Abrir, impunemente, ao mundo, confiante,
Minh'alma enternecida.

Fitar o teu olhar, era um deslumbramento,.
Que me transfigurava e me fazia crer
Que depois de viver, na terra, esse momento,
-- Sereno, como após o extremo sacramento --,
Já podia morrer.

Premia as tuas mãos nas minhas e dizia,
Com profunda emoção: -- É só por ti que existo!
-- Como foi isto, amor? Do nosso olhar, um dia,
Caiu neve no fogo em que a minh'alma ardia...
Amor, como foi isto?!

Passas por mim, agora, e nada me insinua
Ser a tua presença o derradeiro elo
Que me prendia à vida. -- E a vida continua!
E tudo, como outrora, (o sol, o mar, a lua...)
Mesmo sem ti, é belo!

Como havemos de ter, nos outros, confiança?
Que humano sentimento a nossa fé merece?
De que servem, na vida, os ideais e a esperança,
Se o próprio Amor, -- como os brinquedos, em criança --,
Tão cedo, para nós, perde o encanto e esquece?!








DESAPARECIDO


Sempre que leio nos jornais:

«De casa de seus pais desapar’ceu...»

Embora sejam outros os sinais,

Suponho sempre que sou eu.



Eu, verdadeiramente jovem,

Que por caminhos meus e naturais,

Do meu veleiro, que ora os outros movem,

Pudesse ser o próprio arrais.



Eu, que tentasse errado norte;

Vencido, embora, por contrário vento,

Mas desprezasse, consciente e forte,

O porto do arrependimento.



Eu, que pudesse, enfim, ser eu!

- Livre o instinto, em vez de coagido.

«De casa de seus pais desapar’ceu...»

Eu, o feliz desaparecido!







O AMIGO



Era bom encontrar o amigo

No Café, onde estava a olhar

Com um gesto elegante e ambíguo

Para o fumo a sumir-se no ar.



A poesia era o tema dilecto

Da conversa que o tempo engolia.

O real, o preciso, o concreto

Nem sabiam que a gente existia.



Nada era para nós maculado,

Nem um só sentimento era fosco:

Porque havia outra luz, outro lado,

E o mistério morava connosco.



Tudo isto foi antes de Orfeu

Ter levado o encanto consigo.

Esse amigo está vivo - e morreu.

(E de mim, que dirá êsse amigo?)








Carlos Queirós

Nasceu em 1907, em Paris.


Poeta, ensaísta, crítico literário e de arte, estudou Direito na Universidade de Coimbra, tornando-se funcionário da Emissora Nacional, onde organizou programas culturais. Assíduo colaborador da Presença e de outras publicações literárias, foi considerado um elo de ligação entre a geração presencista e a de Orpheu.


Considerado um discípulo directo de Fernando Pessoa, a sua poesia caracteriza-se pela perfeição formal, pelo equilíbrio e sobriedade e pela sugestão musical. Denuncia alguma herança romântica e certa aproximação ao simbolismo.


Morreu em 1949, em Paris.








Algumas obras:



Poesia:

Desaparecido (1935)


Breve Tratado da Não-Versificação (1948)


Desaparecido e outros Poemas (1957)


Prosa:

Homenagem a Fernando Pessoa (1936)



Fonte:Instituto Camões


sexta-feira, dezembro 05, 2008

HELENA MONTEIRO




Correndo a net e espreitando pelas suas frinchas indo aqui e ali investigando nomes conhecidos ou não desta vez fui encontrar uns poemas de Helena Monteiro.É um sítio que desconhecia ainda que soubesse que a Autora em outros locais nos delicia com sua arte e suas escolhas das palavras da poesia ou da pintura.

Aqui vos deixo os endereços dos seus blogs que merecem vivamente ser conhecidos e apreciados:

ALICERCES

LINHA DE CABOTAGEM

TRAÇOS E CORES

Para além dos poemas de sua autoria que a seguir apresento Helena Monteiro tem muito para partilhar connosco.

Aproveitem este fim de semana mais comprido para conhecer alguma da sua obra.








ENCOSTANDO O OUVIDO À NOITE

Se tu soubesses da solidão das palavras
enrolarias o silêncio
na noite sem pirilampos

depois
como numa prece

ouvirias do mar o canto.





COMO UM CASTIGO

Quando as tuas mãos rolarem
as palavras como seixos
ouvirás a melodia
o som do mar
ou será do grito?

Só contam as palavras na tua mão
as que abarcares e rolares
despreza as que tombarem
a ganância não as engrandecerá
as mais pequenas permitir-te-ão
ampliá-las
com a leveza da brisa
ou a finura da bruma
e quando órfãos quase vazias
mudá-las-ás de lugar
num fervor só teu
isento de enredos ou de modas.

Descobrirás então as tuas palavras
e com elas escreverás uma canção
de amor
simples como o primeiro beijo
clara como a neve sobre as árvores
livre
porque saberás
como Sisífo
que a montanha é obstinadamente íngreme
e por ela rolarás cada palavra
na quotidiana emenda da harmonia.



PROPOSITADAMENTE SEM TÍTULO

não sei das sombras
das verdadeiras
conheço aquelas onde respiro
ou as outras por onde meço o sol
mas das sombras
das reais
não lhe conheço o contexto
é temente que as percorro
quando o azul as domina
e no insólito do instante me trazem
a projecção de um sonho ou de um assobio
vivo-as temerosa e incrédula
como, quando criança,
os pirilampos enchiam de fantasia e medos
as noites de maresia

não sei das sombras
quando para além de mim
o ruído instala as dúvidas
na frágil teia do dia-a-dia.




INTROSPECÇÃO

Convoco-te, dualidade
por entre os labirintos da noite
face a face
deslocaremos as peças
deste xadrez sem futuro
de balizas temporais

díptico de extremos exangues

Convoco-te, dualidade
na planura do tempo
a alba se cumprirá.



são de seda e de vento as tuas crinas
indomável o teu porte
quando ante todos e tudo
és a concisão da palavra
liberdade

só o incauto julga o poder pelas rédeas.




NOTA: Todas as aguarelas e esboços são de Helena Monteiro.


segunda-feira, dezembro 01, 2008

Blog Destak, de Novembro/2008




O blog ART & DESIGN DE ISABEL FILIPE decidiu atribuir a este sítio o seu prémio mensal "BLOG DESTAK".

Fiquei encantado com a distinção e agradeço penhorado o referido prémio.

Prometo continuar a manter no "Beja" a divulgação da Poesia e de tantos Poetas que não são do conhecimento geral.

Para a Isabel Filipe e seu blog ART & DESIGN DE ISABEL FILIPE votos de muitas felicidades.

Para todos os meus visitantes o convite para visitar o blog da Isabel onde encontrarão motivos bastantes de arte e beleza. Um trabalho já com anos de total dedicação.


sábado, novembro 29, 2008

CASTRO ALVES


Castro Alves, o condoreiro. Símbolo maior do romantismo brasileiro




"Castro Alves e outros poetas quase meninos"

"Eram quase meninos. Todos geniais, aqueles poetas românticos do século XIX. Rapazes de amores, desamores, amados e desamados, atormentados, inquietos, arrojados na vida e fiéis à escola literária que consagraram. Sem favor nenhum, formaram a mais fecunda e bela geração da poesia brasileira. Eis alguns deles: Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire. Quase todos morreram no verdor da mocidade.
Castro Alves (1847-1871) foi o que voou mais alto nas asas da poesia. Tuberculoso no começo da juventude, viveu cada dia como se fosse o último."

Fonte: OVERMUNDO






Foto de Angelica - Olhares


Boa-noite

Boa noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio...
Boa noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.

Boa noite!... E tu dizes – Boa noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não me digas descobrindo o peito,
– Mar de amor onde vagam meus desejos.

Julieta do céu! Ouve.. a calhandra
já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira...
...Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se a estrela-dalva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo dalvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."

É noite ainda! Brilha na cambraia
– Desmanchado o roupão, a espádua nua –
o globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...

É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores,
Fechemos sobre nós estas cortinas...
– São as asas do arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
– Boa noite! –, formosa Consuelo...



foto de Marco Niemi - Olhares

Beijo eterno

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!

Fora, repouse em paz
Dormindo em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa,
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!

...

Diz tua boca: "Vem!"
Inda mais! diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!




Foto de J.P. Sousa - Olhares

“Oh! eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
- Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.

Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher - camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas,
Minh'alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas ...
E a mesma voz repete-me terrível,
Com gargalhar sarcástico: - impossível!”

quinta-feira, novembro 20, 2008

ALDA GUERREIRO


Foto de JOÃO ESPINHO



ALDA GUERREIRO

Nasceu em Santiago do Cacém, a 6 de Janeiro de 1878.

Educada num ambiente de intensa sensibilidade artística, desde muito cedo se interessou pela poesia, e também, talvez por influência familiar, dado que, foi cunhada de António Manuel Freire de Andrade, um dos fundadores da comissão concelhia do Partido Republicano Português, por problemas sociais e pelas ideias republicanas..

Em 1909 escreveu:
"Fundemos escolas com todas as condições modernamente empregadas, onde as creanças se desenvolvam, se instruam, se eduquem".

Em 1 de Janeiro de 1910, fundou a Associação Liberal de Santiago do Cacém, que manteve, pelo menos até 1914, a Escola Liberal, instituição, onde esta poetisa-professora, desempenhou um papel notável, sobretudo na organização de actividades, que hoje chamaríamos de complemento curricular, como "festas da árvore", "visitas de estudo" e "sessões comemorativas do aniversário da escola".

A partir de 1909, dinamizou ainda uma outra escola particular, em sua casa, até praticamente ao final da sua vida: a "Escola Livre de S. Thiago do Cacém", por onde passaram gerações de jovens, algum dos quais ainda vivos.

Ainda em sua casa, criou uma outra "escola" de ensino artístico de bordados, aberta às jovens de Santiago .

Na década de 30 colaborou na revista "Portugal Feminino" .

Apoiou e colaborou um pequeno jornal de Sines, dedicado aos jovens "A Juventude".

Idealizou, fabricou e distribuiu um interessante jornal manuscrito, intitulado "O Jornal das Creanças".

Para Alda Guerreiro, a imprensa desempenhava um importante papel na educação popular, com vista à formação de uma consciência liberal e democrática.

Mais conhecida pela poesia, que viu publicada e dispersa por inúmeros jornais e revistas, foi incluída em duas importantes antologias, uma sobre Poetisas Portuguesas, em 1917, e outra sobre os Poetas Alentejanos do Século XX, em 1984.

As suas ideias e acção foram um marco no seu tempo. Militou pelo ensino popular, sob a bandeira republicana e bateu-se pela ideia generosa de formação integral dos jovens.O seu exemplo e a sua obra ignorada, marcaram a vida social e cultural do Alentejo Litoral.

Faleceu em 1943 (?)

Fonte: Centro Actividades Pedagógicas-Alda Guerreiro





Sementeira

Na encosta de uma serra havia um carrascal
Onde nascia o tojo, a esteva, um matagal.
Um dia entrou com êle a foice roçadoura;
Meteram a charrua e fez-se a lavoura.
Foi revolvida a terra e feita a sementeira.
Algum tempo depois, já parecia um mar
O vento sobre o trigo ao longe a ardear!
Foi crescendo, crescendo; a espiga bem dourada
Com o calor do estio em pouco foi ceifada.
E produziu bom pão o terreno maninho,
Onde apenas vencia a urze e o rosmaninho!


Agora quando eu olho essa encosta da serra,
Vejo que é uma lição que nos ensina a terra!


A sociedade é o monte. A escola é o arado.
Quando abrindo o sulco, olhai vá bem guiado...
Depois é semear. Será bela a colheita
Se a semente fôr bôa, e a lama fôr bem feita.


Também hão de dar pão essas searas novas
E darão muita luz à humanidade inteira...


Abri a terra, abri, fazei a sementeira...



Foto de JOÃO ESPINHO




A minha terra

No inverno a vida apraz-nos meditar.

Quando ao entardecer, aqui na Minha Terra
Se vê sumir o sol no longe azul do mar,
O pensamento vôa e vai de serra em serra
No campo do passado às vezes a sonhar.

O oceano lembra os feitos arrojados
Do velho Portugal!
Aquem, alvos casais, em fundo verdejante
De grande pinheiral,
Fala-nos de trabalho e vida, actividade,
Saúde e alegria, e sol, e liberdade...

No antigo castelo abrigo de tristezas
Muralhas, que ouviriam a mouros e princezas
Trocar frases de amor,
Unidas num abraço, agora enegrecidas
Rodeiam condoidas
Um circulo de dôr!

É como que em contraste ao campo sorridente
Que atesta mocidade,
À sombra do castelo erguido ao Oriente
Aqueles que eu perdi descançam docemente
Envoltos em saudade.

Horas de entardecer agrada meditar.
O pensamento vôa e vai de serra em serra...
O sol mergulha além na fita azul do mar
No dôce pôr do sol da minha linda Terra!



Foto de JOÂO ESPINHO






O ALENTEJO É LÁ


É lá onde o Sol desce a violar

a terra provocante de nudez,

que emprenha uma e outra e outra vez,

de Sonhos, que já cansa de abortar...



É lá onde a lonjura por lavrar

nem sombras a dividem lés-a-lés...

Só a noite a parcela e faz mercês

erguendo muros brancos de luar.



É lá onde se chora de cantiga

no embalar dolente a dor antiga

que desperta, se agita e faz ruim...

Onde há suor em bagas pela eira,

e esp'ranças crepitando na lareira,


- O ALENTEJO é lá ... e é EM MIM.

REPONDO A VERDADE: Até hoje supunha, por lapso, que o poema anterior e o seguinte eram de autoria de ALDA GUERREIRO mas acabo de receber a informação de que são de ADA TAVARES. Apresentei desculpas à verdadeira Autora através de sua Filha Elsa Vieira e aqui venho também dar o seu a seu dono.
10 de Março de 2010



Foto de MARIA MADALENA PERCHEIRO-OLHARES





HOJE HÁ PÃO ALENTEJANO?



Esta frase tão ouvida

neste tom interrogado

não é sentença perdida

nem um pregão inventado,

nem dito voando à toa ...

Oh senhores, mas quem diria

que eu ia ouvir isto um dia

aos balcões de Padaria

desta moderna Lisboa?!


"Hoje há pão alentejano?!"



E se o empregado diz:

-"Olhe, acabou de chegar."

ri a freguesa feliz

e estende o saco apressada

pois não vá ele acabar ...

e pede firme, sem graças,

que não pode haver engano:

"Ponha-me aí dez carcaças

e um pão alentejano".


Ai é vê-lo meus amigos,

este pão que era só nosso,

o nosso Bem de raiz,

sem pretensões, sem ganância,

como ganhou importância,

como ganhou um País.

Todos o querem agora,

por inteiro ... uma fatia ...

umas migalhas ... um naco

...Pão nosso de toda a hora

que é farinha doutro saco.


Venham vê-lo na Taberna

ou no fundo duma Adega

como alegra o camponês:

-ensopa o copo de três

-abafa raios e coriscos

-faz de cama prós petiscos

...e aconchegada a barriga

logo a voz se faz cantiga,

põe-se o Sol, vai-se a fadiga

que a noite mal começou,

e..."às quatro da madrugada

um passarinho cantou..."



Ó pão do meu Alentejo

que bela lição tu deste

na tua nobre humildade,

e como tu aprendeste

a usar fraternidade.?

E sem briga, e sem guerra,

sem essa confusão louca,

deste nome à nossa terra,

levaste-a de boca em boca...

Pois também vai a banquetes

e a solenes beberetes

nas salas bem afamadas,

posto assim em pedacinhos,

feito "tapas" e "entradas",

regado com os melhores vinhos.

É o mais requisitado, pedido

por encomenda,

e vai em naperons de renda

até à mão de ministros.

E deu no goto a estrangeiros

e a certos senhores bem vistos

que o acham uma riqueza

e o querem na sua mesa ...

Não se recusa a ninguém,dá-se a ricos,

pobrezinhos,a crianças e a velhinhos

e aos doentes também.


Pão de Paz ! Pão de Alegria !


Pão de Amor! Pão de Verdade!


É como nós neste dia,

uma mistura sadia

de renovo e de saudade.

quarta-feira, novembro 12, 2008

MANUEL ALEGRE




Eu pescador
Eu pescador que pesco por um instinto antigo
e procuro não sei se o peixe se o desconhecido
e lanço e recolho a linha e tantas vezes digo
sem o saber o nome proibido.

Eu de cana em punho escrevo o inesperado
e leio na corrente o poema de Heraclito
ou talvez o segredo irrevelado
que nunca em nenhum livro será escrito.

Eu pescador que tantas vezes faço
a mim mesmo a pergunta de Elsenor
e quais águas que passam sei que passo
sem saber resposta. Eu pescador.

Ou pecador que junto ao mar me purifico
lançando e recolhendo a linha e olhando alerta
o infinito e o finito e tantas vezes fico
como o último homem na praia deserta.

Eu pescador de cana e de caneta
que busco o peixe o verso o número revelador
e tantas vezes sou o último no planeta
de pé a perguntar. Eu pescador.

Eu pecador que nunca me confesso
senão pescando o que se vê e não se vê
e mais que o peixe quero aquele verso
que me responda ao quando ao quem ao quê.

Eu pescador que trago em mim as tábuas
da lua e das marés e o último rumor
de um nome que alguém escreve sobre as águas
e nunca se repete. Eu pescador.



Poema de Manuel Alegre



Imagem de Osvaldo Barreto (In Veneza dos Brasileiros)

INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

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