
quinta-feira, setembro 03, 2009
terça-feira, setembro 01, 2009
Recordando FERNANDO PEIXOTO

Colher a sensação das arestas redondas
das areias escaldantes das minhas dúvidas
respirar a maresia das ideias
que transpira na crista das ondas
das minhas incertezas súbitas
enormes rumorosas e cheias
Provar os sabores salgados
da espuma na minha mão
junto à proa do navio
e respirar os ventos desgarrados
que se espraiam na rebentação
e sentir na pele um arrepio
Impelido por ventos de desnorte
sentir na carne o desconforto
de ter um mundo imenso à minha frente
e um silvo de silêncio como a morte
a lembrar-me que está longe o porto
no oposto preciso do nascente
Penetrar no horizonte distante
nessa linha que me afasta de ti
e perceber a impotência dos braços
que me sustêm na orla hesitante
que ainda me retêm aqui
incapaz de quebrar meus próprios laços
desafiar Neptuno o deus gigante
que roça os rochedos agressivos
impelido por Zéfiro implacável
e pressentir naquele mesmo instante
que há medos de tal forma possessivos
que a vontade se torna vulnerável
Deitar-me no areal já ressequido
e queimar-me no sol do meio-dia
sonhando que é possível decifrar
o doce labirinto entretecido
nas curvas do teu corpo a melodia
que nunca me canso de escutar
e ver a tua imagem reflectida
em múltiplas vagas de frescura
que se estendem na areia do estuário
só que tu estás sempre de partida
e eu fico roendo esta amargura
de estar cada vez mais solitário
Talvez sejas somente uma quimera
um sonho uma ilusão uma utopia
ou quem sabe a minha barca de Caronte
Navegando ao longe à minha espera
te encontrarei por certo qualquer dia
banhada pelo sol no horizonte
Dia a dia porém eu continuo
sempre vinculado à mesma esperança
de escutar nas ondas o teu canto
e por isso prossigo e acentuo
meus pés sobre a areia numa dança
passeando no litoral do espanto
FERNANDO PEIXOTO
sábado, agosto 29, 2009
É TEMPO AINDA...

É tempo ainda, Amor
de retomar
a viagem que iniciámos
juntamente.
De voltar ao fluir
do nosso rio,
de recerzir o tempo
fio a fio,
de reatar o passado
no presente.
É tempo ainda, Amada
de acordar.
Redescobrir
sentidos
novos nas palavras.
Reencontrar
esquecidos
gritos nos silêncios.
Renovar
o antigo frescor das madrugadas .
É tempo ainda, Amor
de avivar
a memória de gestos
já perdidos ...
O sabor
de antigos sonhos
recriar ...
Reinventar o amor
e incendiar
a adormecida chama dos sentidos,
0 entrelaçar dos dedos
a ternura
da troca de um olhar
O estilhaçar dos medos
na aventura
dos corpos penetrar.
A procura
das bocas, numa fome
nunca satisfeita de beijar ...
É tempo ainda, Amiga,
É tempo ainda.
É tempo ainda de voltar !
ANTÓNIO MELENAS
quarta-feira, agosto 26, 2009
TUDO O QUE ONDULA

Tudo o que ondula ondula no teu corpo
a garça a flor o vinho a égua a água
ondula o barco e o arco ondula o porto
l'aura amara e a onça ondula a mágoa
Ondula o vento a vela a onda brava
e a caravela dentro da palavra
Ondula a letra e o l ondula a lua
e a roxa violeta em tua coxa
Ondula a estrela e a nave ondula o sol
ondula a ave e o azul ondula o sul
Ondula a sílaba e a chama ondula
abril e o til a flauta a flama a flâmula
Ondula a seara a saia a sarça o trigo
tudo o que ondula ondula e vai contigo
Manuel Alegre - 30 Anos de Poesia
Crédito da imagem: http://www.vivercidades.org.br/publique222/media/tamara_AndroMulherNua.jpg
quinta-feira, agosto 20, 2009
A NOITE NA ILHA

Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
O teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda não existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
-pão, vinho, amor e cólera -
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra escura gira
com os vivos e os mortos,
e ao acordar de repente
no meio da sombra
o meu braço cingia a tua cintura.
Nem a noite nem o sono
puderam separar-nos.
Dormi contigo
e, ao acordar, tua boca,
saída do teu sono,
trouxe-me o sabor da terra,
da água do mar, das algas,
do âmago da tua vida,
e recebi teu beijo,
molhado pela aurora,
como se me viesse
do mar que nos cerca.
Pablo Neruda - Os Versos do Capitão
Tradução de Albano Martins
Foto da net
sábado, agosto 15, 2009
SONETO DA VÉSPERA

Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?
Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?
Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou — fria de vida
Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...
VINICIUS DE MORAES
quinta-feira, agosto 13, 2009
QUERO FALAR-TE DESTE AMOR...

Quero falar-te deste amor, como de um vento
amordaçado na camisa; uma febre de verão
que o mercúrio não acha; um telhado esmagado
pela ideia da chuva. Quero dizer-te
que sobre ele pairaram sempre brumas e nevoeiros
e profecias de temporais maiores, como os que levam
para longe os corpos dos navios. Não há notícias
deste amor; apenas uma intriga, um recado sonâmbulo,
um temor que desmaia as pregas do vestido e um sortilégio
urdido nas paisagens suspensas de um mapa que aperto
na mão sem desdobrar. E há memórias
deste amor? A voz sem as palavras, um livro lido
às escuras, um bilhete cifrado deixado num hotel,
um velho calendário cheio de desencontros? Não,
não há memória deste amor.
Maria do Rosário Pedreira
terça-feira, agosto 04, 2009
TALVEZ
Mendigo de Rembrant
Dá-me os andrajos vis com que mendigas,
E empresta-me o teu gesto à minha mão.
Das minhas mãos faz tuas mãos amigas,
E ensina-me a cantar essa canção.
Empresta-me os ouvidos com que escutas,
Mais tristes do que as tuas amarguras,
As gargalhadas dessas prostitutas
Que choram escondidas, às escuras.
Ensina-me a passar, como tu passas,
Medindo a imensidão de mil desgraças,
Por onde a dor, e sempre a dor, persiste.
Talvez que eu me contente com bem pouco,
E fique menos pobre e menos louco,
E o céu, ao meu olhar, bem menos triste.
António Celso – Asas Cinzentas
segunda-feira, agosto 03, 2009
Um dia...

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.
José Luís Peixoto –A Criança em Ruínas
domingo, agosto 02, 2009
ROMANTISMO

As Gôndolas de Nadir Afonso
Nadir Afonso nasceu em Chaves em 1920.
Diplomou-se em Arquitectura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto.
Em 1946, estuda pintura na École des Beaux-Arts de Paris, e obtém por intermédio de Portinari uma bolsa de estudo do governo francês.
De 1946 até 1948 e em 1951 foi colaborador do arquitecto Le Corbusier, nomeadamente no projecto da cidade radiosa de Marselha, e serviu-se algum tempo do atelier de Fernand Léger.
De 1952 a 1954, trabalha no Brasil com o arquitecto Óscar Niemeyer.
Nesse ano, regressa a Paris, retoma contacto com os artistas orientados na procura da arte cinética, desenvolvendo os estudos sobre pintura que denomina «Espacillimité» e faz parte do grupo da galeria Denise René juntamente com Herbin, Vasarely, Mortensen.
Na vanguarda da arte mundial expõe em 1958 no Salon des Réalités Nouvelles «espacillimités» animado demovimento.
Em 1965, Nadir Afonso abandona definitivamente a arquitectura; consciente da sua inadaptação social, refugia-se pouco a pouco num grande isolamento e acentua o rumo da sua vida exclusivamente dedicada à criação da sua obra.
Prémio Nacional de Pintura em 1967 e Prémio Amadeo de Sousa-Cardoso em 1969. Medalha de ouro da cidade de Chaves, membro da Ordem Militar Santiago de Espada e da Academia Nacional de Belas-Artes.
Homenageado por ocasião dos 25 anos da Bienal de Cerveira em 2003 e atribuído o prémio Nadir Afonso na 2.ª feira de Arte Contemporânea do Estoril.
Sobre Nadir Afonso foi realizado um filme da autoria de Jorge Campos para a Radiotelevisão Portuguesa.
Está representado em Museus de Lisboa, Porto, Amarante, Rio de Janeiro, S. Paulo, Budapeste, Paris (Centre Georges Pompidou), Wurzburg, Berlim entre outros. Prémio Nacional de Pintura em 1967 e Prémio Amadeo de Sousa-Cardoso em 1969. Medalha de ouro da cidade de Chaves, membro da Ordem Militar Santiago de Espada e da Academia Nacional de Belas-Artes.
Artista homenageado na 2.ª Feira Internacional do Estoril e a atribuição do Prémio Nadir Afonso.
A lua é uma gôndola doirada,
Onde em sonhos de amor, um dia, me embarquei
Contigo, ó meu amor, ó linda Bela-Amada,
Que um dia imaginei!
E partimos os dois na gôndola do Sonho...
Na Veneza do Amor, onde íamos vogando,
Tudo era lento e triste e doce como um sonho,
Como o sonho de Amor que ia sonhando!
Mas perdeu-se na bruma a gôndola doirada,
Onde em sonhos de amor, um dia, me embarquei!
E morreste na espuma, ó linda enamorada,
E desfez-se, na espuma, o sonho em que te amei!
Ai, a lua é a gôndola doirada,
Onde embarquei contigo e onde, sem ti, voltei!
Anrique Paço d'Arcos
domingo, julho 26, 2009
O GRITO DA FOME

O GRITO DA FOME
Murmureja, resfolga
Sente-se, penetra.
Tomai tento
Senhores, ricos,
Abastados, soberbos,
Indiferentes e apáticos.
Tende atenção
Governantes, políticos,
Estadistas e líderes.
O grito da fome
É um grito de alma
Não se trava, não se prende
É um grito que não pára.
O grito da fome
Não suporta a indiferença
É a miséria revoltada
É a criança esfomeada,
É o idoso abandonado,
É o trabalhador desempregado.
CIDADÃOS:
ESCUTAI O GRITO DA FOME.
Lumife aos 26 de Julho de 2009
sábado, julho 25, 2009
sexta-feira, julho 24, 2009
Lançamento da antologia de poesia "Entre o Sono e o Sonho - Vol2

Uma obra literária que surge com o intuito de prestigiar e distinguir
alguns poetas portugueses, integrando nomes consagrados e emergentes,
promovendo simultaneamente a criação poética contemporânea.
Este evento terá lugar no Café In (Avenida Brasília, Pavilhão Nascente,
n.º 311 - Lisboa) a 25 de Julho, Sábado, pelas 19h30.
O projecto foi criado e desenvolvido pelo Portal Lisboa e apoiado e
editado pela Chiado Editora, uma jovem casa de edição que rapidamente se
tornou numa editora de referência em Portugal.
A entrada para o evento é livre. Pelo que incentivamos todos os Autores a
convidar quem entenderem para assistir ao lançamento da obra.
quinta-feira, julho 23, 2009
Poema de: Rogério Martins Simões - Uma eternidade nos espera
Surgiu agora na net, em vídeo, um trabalho de Misteriosa do Brasil. É uma homenagem ao amigo Rogério Martins Simões que continua a deslumbrar-nos com a sua poesia no blog POEMAS DE AMOR E DOR .
Associo-me com todo o gosto a essa homenagem transcrevendo o poema e colocando o vídeo.
UMA ETERNIDADE NOS ESPERA…
Rogério Martins Simões
Quando tu e eu saltávamos em andamento,
Numa corrida estreita, para a existência,
Havia um brilho, intenso, que cegava a escuridão externa.
Falávamos em língua redonda,
Imperceptível,
Que nos deixava latejar à distância do universo das palavras.
Éramos nada!
Éramos tudo!
Frequentávamos os mesmos colégios ricos,
Onde a riqueza se media pelo contágio,
Em resultado das vidas passadas.
Fazíamos parte de um grupo,
Sem forma,
Grande aos sentidos,
E sabíamos que iríamos viajar em busca da luz.
Éramos uma luz ténue…
E procurávamos um brilho permanente.
Entrámos por uma porta estreita
Onde formas sem luz
Reproduziam uma língua quadrada,
Sem nexo, herança de uma Torre de Babel,
Que tivemos de aprender.
Estamos a ficar cansados!
Não importa…
Tomámos o caminho recto e certo
E partiremos na luz…
Falta pouco meu amor.
Uma eternidade nos espera…
Lisboa, 30 de Abril de 2009
quarta-feira, julho 15, 2009
segunda-feira, julho 13, 2009
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