terça-feira, agosto 30, 2005

O(s) Baile(s)


Naquele tempo era no castelo que se faziam as festas.

Do que mais gostávamos era dos bailes.

Eram dois bailes acompanhados pela mesma música.

Eram dois bailes no mesmo local - o castelo.

No terreiro, de terra batida, sob o mastro colorido de

festões, balões e lanternas de papel, era o mais

concorrido.


Todos aprimorados em seus fatos domingueiros, eles,

com suas jaquetas de dia de festa, alguns com uma flor

na lapela, elas, lindas, em suas blusas floridas de cores

garridas, fazendo sobressair esbeltos bustos.


Aqui no terreiro, ao som da música sempre igual, os

corpos, enlaçados e frementes, rodopiavam, olhos nos

olhos, sempre sob o olhar desconfiado das mães que,

sentadas, vigiavam as moças.


Aqui se fizeram e desfizeram muitos namoricos.


Também por vezes saíam alguns com a cara

avermelhada dalguma chapada que travara uns

avanços mais atrevidos...


Mas se aqui no terreiro, num mar de gente se dançava

assim, o outro baile era na esplanada do castelo.

Piso superior ao terreiro era local indicado para a

gente "bem" da terra.

Funcionários públicos, comerciantes e lavradores que

mantinham assim a distância com o povo do campo.


Elas com seus vaporosos vestidos, alguns

encomendados, em tempo, na cidade.

Eles, perfumados, brilhantina a luzir naqueles cabelos

bem penteados, engravatados em seus melhores fatos.


Deslizavam, dançando, mantendo uma distância

respeitosa a que não era alheia a vigilância materna.


Os do terreiro olhavam com desdém os que dançavam

na esplanada e sorrindo cochichavam com as parceiras.


Na esplanada os olhos dos pares também se

dirigiam para o que se passava em baixo, no

terreiro, e seguiam com ar superior o jeito

da dança.

Aqueles corpos juntinhos no terreiro,

rodopiando como se de um só se tratasse, os

seus sorrisos ingénuos, as suas bocas

aproximando-se a cada passo, as mãos

grossas e calejadas apertando as

companheiras, criavam-lhes um misto de

inveja e desejo.


O terreiro era para os trabalhadores, a esplanada

era para os "finos"



Por vezes o filho dum lavrador, mais afoito, descia a

escadaria e ia dançar para o terreiro. Mil olhos se lhe

cravavam nas costas e a moça que aceitara a dança era

mal vista durante algum tempo...


A noite ia alta quando todos regressavam a casa para

descansar um pouco, pois breve ia começar nova

labuta, manhã cedo, nos campos.


Rostos cansados mas felizes dos que tinham tido nos

braços, por momentos, as mulheres amadas a quem

finalmente tinham declarado e prometido amor eterno.


L.M.



8 comentários:

Menina_marota disse...

Adorei este texto!
Fez-me lembrar os tempos da minha meninice e ia para a aldeia dos meus Avós, durante o Verão e, enquanto os meus Pais iam de viagem, em férias...

As férias de Verão eram fabulosas. Tinha oportunidade de conviver, de passear pelo campo, de ir a festas das freguesias vizinhas...

Tenho saudades desses tempos...

Grata por me fazeres reviver momentos inesquecíveis da minha vida!


Um abraço ;)

wind disse...

Bom texto, que me recorda as festas dos lugares:)beijos

paper life disse...

Muito bom. Bom de quem sabe e sabe contar como era.

:) bjs

batista filho disse...

Se gostei? Adorei!! Texto enxuto: palavras nem a mais nem a menos, na descrição primorosa do que a memória guardou. Paabéns.
Um abraço.

Lumife disse...

Menina_marota; Wind; Rain-Maker; Batista Filho:

Estou comovido com a V/ aceitação. É só o que lhes posso dizer por ora.

Bjs e abraços

António Caeiro disse...

mais uma visita por este belo cantinho... ao som de Carlos Paredes. Espantoso!

segurademim disse...

Os bailes já não são o que eram... mas será que ainda há os da "esplanada"? delicioso este texto :) Beijo

Anónimo disse...

Amigo Luís Milhano

Na minha Aldeia, havia poucos ricos, de forma, que não se notava a distinção eles e os pobres.

Por outra, de tanta pobreza, pouca alegria havia para dançar. Cantava-se enquanto se trabalhava, para afastar o pensamento das horas que faltavam para o sol se pôr.

Mas, também havia muitas horas bonitas, quando a Primavera nos oferecia os imensos jardins...inigualáveis, e quando o Sol dourava as searas, que ondulavam como um mar de ouro!

Tenho muitas saudades de gentes e do lugar por onde decorreu a minha infância e juventude.

Adorei o seu texto, muito bem descritas as suas lembranças.

Um Abraço.

Felismina