Às vezes, quando a noite se prolonga na espessa madrugada, abrindo as veias, e podemos ouvir, sem grande esforço, o secreto ruído das asas dos anjos pelo céu, é um bom exercício contemplar um rosto que se amou, fixar-lhe os traços até sabermos reconstituir cada pequeno pormenor, cada poro da pele outra vez nossa, cada olhar liquefeito, cada antigo sorriso onde ardiam as maiores ilusões deste mundo.
Agora que experimento fazer isso, utilizo o teu rosto: ele atravessa a cegueira das noites em que não dormimos, o espelho embaciado dos meus olhos, o cristal sempre intacto dos mais belos sonhos.
Podes ficar aqui? Não vás embora, precisarei de mais alguns minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, eternidades para te esquecer. Por favor, não te esfumes no meu sono, nesse pântano lento onde me afundo entre o lodo já turvo dos lençóis e as lágrimas tão ácidas do dia que há-de nascer, que já nasceu sem ti, como se o próprio sol quisesse castigar a minha vida com a tua morte.
1 comentário:
Tão belo este poema, de uma sensibilidade tocante e profunda.
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