
sábado, setembro 01, 2007
sexta-feira, agosto 31, 2007
MUITAS VEZES TE ESPEREI...

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.
Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.
Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
"Que me importa que batam à porta..."
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.
Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.
Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?
Fernando Assis Pacheco
(de Cuidar dos Vivos)
Foto de Galerie von Karl-Heinz
quinta-feira, agosto 30, 2007
BLOG CERTIFICADO...

Estragam-nos com mimos...
Desta vez foi "MOMENTOS" que nos quis distinguir com este prémio.
Agradecemos sensibilizados tal distinção e tudo faremos para continuar a contar com a V/ amizade.
Iremos, como é da praxe, indicar outros blogs que, em nosso entender merecem também este prémio:
"MENINA MAROTA"
"ALICERCES"
"ALVITRANDO"
"AMORALVA"
"MOVIMENTUM"
"ORION"
"PETER'S">
"POEMAS DE AMOR E DOR"
"SANTA MARGARIDA"
"VIRTUAL REALIDADE"
Tal indicação não significa que muitos outros não o merecessem também .
Saudações a todos e um beijo amigo a "MOMENTOS"
quarta-feira, agosto 29, 2007
terça-feira, agosto 28, 2007
DORME, MEU AMOR...

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos
agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,
meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.
Maria do Rosário Pedreira
Foto de Doug Gilbert
domingo, agosto 26, 2007
TERNURA

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
extático da aurora.
Poema de Vinicius de Moraes
Foto de Jacek Pomykalski
sexta-feira, agosto 24, 2007
SENTIMENTO

Eu recordo a tua presença,
na voz meiga e serena,
o teu cabelo
ondulando ao vento,
como se me envolvesses
com o pensamento.
Vivo contigo,
todo este momento,
de muito perto
sofrendo a ausência
se estás longe
quando desperto.
Sinto a vibração do teu corpo,
no meu cansaço,
e quero, contigo transpôr
as portas do silêncio,
vogando lentamente
no éter do firmamento.
Poema de João-Maria Nabais
Foto de Nuno Belo - 1000 Imagens
quinta-feira, agosto 23, 2007
quarta-feira, agosto 22, 2007
NOCTURNO

O desenho redondo do teu seio
Tornava-te mais cálida, mais nua
Quando eu pensava nele...Imaginei-o,
À beira-mar, de noite, havendo lua...
Talvez a espuma, vindo, conseguisse
Ornar-te o busto de uma renda leve
E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
Em ti, a branca irmã que nunca teve...
Pelo que no teu colo há de suspenso,
Te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
Era um convite lúcido às estrelas....
Imaginei-te assim á beira-mar,
Só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
No desenho redondo do teu peito...
Poema de David Mourão Ferreira
Foto de Oleg Kosirev
terça-feira, agosto 21, 2007
OLHARES

Não um adeus distante
Ou um adeus de quem não torna cá,
Nem espera tornar. Um adeus de até já ,
Como a alguém que se espera a cada instante.
Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
De novo para ti, no mesmo barco
Sem remos e sem velas, pelo charco
Azul do céu, cansado de lá estar.
E viverei sem ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora
Assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
To peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
Talvez na rota, Que nos importa, aos dois, ir sem destino?
Poema de Álvaro Feijó (1916-1941)
Foto de Alberto Calheiros-1000 Imagens
sábado, agosto 18, 2007
PEDRO, LEMBRANDO INÊS

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer:"Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?"Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste.
NUNO JÚDICE in Pedro Lembrando Inês
Foto de Carla Salgueiro
sexta-feira, agosto 17, 2007
A VIAGEM DEFINITIVA

Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.
Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.
Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto do meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico...
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido...
E os pássaros ficarão cantando.
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ (1881 – 1958)
(Prémio Nobel da Literatura 1965)
Tradução: Manuel Bandeira
Foto de Terje Trobe
quinta-feira, agosto 16, 2007
NÃO PASSARÃO ! -Miguel Torga

NÃO PASSARÃO
Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!
Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.
Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!
Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!
Miguel Torga in Poemas Ibéricos, 1965
quarta-feira, agosto 15, 2007
No tempo em que éramos felizes...

no tempo em que éramos felizes não chovia.
levantávamo-nos juntos, abraçados ao sol.
as manhãs eram um céu infinito. o nosso amor
era as manhãs. no tempo em que éramos felizes
o horizonte tocava-se com a ponta dos dedos.
as marés traziam o fim da tarde e não víamos
mais do que o olhar um do outro. brincávamos
e éramos crianças felizes. às vezes ainda
te espero como te esperava quando chegavas
com o uniforme lindo da tua inocência. há muito
tempo que te espero. há muito tempo que não vens.
José Luis Peixoto
(A criança em ruínas)
Foto de Pascal Renoux
sexta-feira, julho 27, 2007
ALVITO - AMIGOS DO CANTE - NOVA SEDE
No próximo dia 3 de Agosto, pelas 20h, será inaugurada a nova Sede do Grupo Coral “Amigos do Cante” de Alvito.
Este Grupo Coral, fundado em 2002, pelo saudoso José Luís Fragoso, que deu alma também ao grupo da Associação do Grupo de Canto Coral Alentejano de Alvito, tem grande actividade e consegue agora instalar a sua Sede numa antiga taberna de Alvito, (Luís da Venda) depois de algumas obras de melhoramento do espaço, que contaram com o apoio logístico da Câmara Municipal de Alvito.
Sede do Grupo Coral Amigos do Cante
Rua do Salvador nºs 24-26, em Alvito
sábado, julho 21, 2007
ANTÓNIO SARDINHA - POETA DE MONFORTE DO ALENTEJO
Pintura-Jean-Hippolyte Flandrin-1809-1864
VELHO MOTIVO
Soneto de Jacob, pastor antigo,
– soneto de Raquel, serrana bela...
Oh! quantas vezes o relembro e digo,
pensando em ti, como se foras Ela!
O que eu servira para viver contigo,
– tão doce, tão airosa e tão singela!
Assim, distante do teu rosto amigo,
em torturar-me a ausência se desvela!
E vou sofrendo a minha pena amarga,
– pena que não me deixa nem me larga,
bem mais cruel que a de Jacob pastor!
Raquel não era dele, e sempre a via,
enquanto que eu não vejo, noite e dia,
aquela que me tem por seu senhor!
Foto Carla Salgueiro
NO DESERTO
Chegaram os camelos junto ao poço,
Quando Rebeca tinha a urna cheia.
Foram momentos esses de alvoroço,
Bem raros de encontrar em terra alheia.
Também meu coração, menino moço,
Nos cardos do caminho se golpeia.
Ouço-te os passos, dentro de alma eu ouço
O eco dos teus passos sobre a areia.
Busquei-te no deserto longamente...
Como Rebeca outrora, condoída,
Surgiste, calma, na poeira ardente.
De ânfora baixa, à boca da cisterna,
Ficaste assim, para toda a tua vida,
Matando a minha sede, que é eterna!
Pintura de Gaudenzio Ferrari
TOADA GÓTICA
Seguem-se os alicornes mansamente,
Pastando neve na montanha azul...
Que a tua mão, Senhora, os apascente
Sem nada que os altere ou que os macule!
O céu, coalhado, tem um ar ausente
Que nem parece o dum país do Sul.
E os alicornes pastam mansamente
— E a neve brilha na montanha azul!
Ondeiam nos pauis fantasmas brancos.
Tal como um sonho que se apaga e esfuma,
Anda a bailar o Inverno nos barrancos.
E tu sorris, atrás dos alicornes...
Ó pastorinha de vitral e bruma,
Que sobre mim a tua graça entornes!
António Maria de Sousa Sardinha (1887-1925) nasceu em Monforte do Alentejo no dia 9 de Setembro, e faleceu em Elvas. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Com Alberto de Mosaraz e Hipólito Raposo, fundou em 1914 a Nação Portuguesa, revista de cariz nacionalista que viria a dar origem ao Integralismo Lusitano. António Sardinha torna-se director em 1922 do diário A Monarquia, defendendo o nacionalismo monárquico. Exilou-se em Espanha após o fracasso do movimento da Monarquia do Norte. Obras poéticas: Tronco Reverdecido (1910), Epopeia da Planície (1915), Quando as Nascentes Despertam (1821), Na Corte da Saudade (1922), Chuva da Tarde (1923), Era uma Vez um Menino (1926), O Roubo da Europa (1931), Pequena Casa Lusitana (1937). Ensaio: O Valor da Raça (1915), Ao Princípio Era o Verbo (1924), Ao Ritmo da Ampulheta (1925), entre outras.
(Informação Projecto Vercial)
sexta-feira, julho 20, 2007
MÁRIO BEIRÃO - POETA DE BEJA
foto João Espinho
CASTELO DE BEJA
Castelo de Beja,
No plaino sem fim;
Já morto que eu seja,
Lembra-te de mim!
Castelo de Beja,
De nuvens toucado;
A luz que te beija
É sol do Passado!
Castelo de Beja,
Espiando o inimigo;
Te veja ou não veja,
Sempre estou contigo!
Castelo de Beja,
Feito de epopeias;
Um sonho flameja,
Nas tuas ameias!
Castelo de Beja,
Subindo, lá vais...
Tu fazes inveja
Às águias reais!
Castelo de Beja,
Lembra-te de mim:
Saudade que adeja,
No plaino sem fim...
foto trekeart
Barros de Beja
Ledos campos de Outrora! em plena festa.
Por onde a minha infância,
Ditosa, decorreu,
Entre fumos de cálida fragrância,
Deslumbramentos, extases do Céu.
Que resta
Desse inefável, em que tudo abria
Em flor e lumes siderais,
Desse inefável de algum dia ?
Vago, indistinto
Sorrir de pôr-do-sol -um sonho extinto...
Uma saudade a desfolhar-se em ais.
Pudesse eu regressar
A mim, volver
Ao intimo do ser,
Ao Anjo em que vivi transfigurado,
De longe em longe, como absorto, a errar...
Plainos de oiro de Beja do Passado,
Da minha clara infância e de outro Mundo,
Libertai-me do sono em que me afundo...
Que eu seja Luz, constelação sagrada,
O' voo para Deus duma «queimada»
Abril de 1960
foto trekeart
Vales de verdes pinos tão sòzinhos
" Vales de verdes pinos tão sozinhos,
Alumiados da graça do Senhor;
E, em arroubos ao Céu, - jardins em flor
De enlaçadas roseiras sem espinhos...
Ermidas onde ajoelham pobrezinhos,
Sorrindo, como Cristo, à própria dor;
Planícies de enigmático torpor
Onde se escutam vagos murmurinhos...
Por ti, meu pensamento é mais profundo
E o meu canto mais alto se alevanta,
Ó Lusitânia, coração do Mundo!
O mar ergue o teu nome em seus delírios!
E, em tardes de milagre, - ó mais que santa,
Sobre o teu corpo o céu desfolha lírios! "
Mário Beirão
Mário Pires Gomes Beirão (1890-1965) nasceu em Beja, na Rua das Portas de Aljustrel, e faleceu em Lisboa. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa, exercendo o cargo de conservador do Registo Civil de Mafra. Como poeta, insere-se na corrente do Saudosismo, tendo sido amigo de Teixeira de Pascoaes, Afonso Lopes Vieira, entre outros. Dessa amizade resultou a sua colaboração na revista A Águia. É aliás nessa revista que se estreia como poeta com o poema «As Queimadas» (nº4, de 15 de Janeiro de 1911). Em 1912 publica a plaquette Sintra. Principais obras: O Último Lusíada (1913), Ausente (1915), Lusitânia (1917), Pastorais (1923), A Noite Humana (1928), Novas Estrelas (1940), Mar de Cristo (1957), O Pão da Ceia (1964). Escreveu também a obra inserida na literatura de viagens Oiro e Cinza (1946), Poesias Completas (edição organizada por António Cândido Franco e Luís Amaro, IN-CM, 1997).
(Informação Projecto Vercial)
A paisagem alentejana é uma constante na sua obra poética, sempre convidando a alma à reflexão e à busca do infinito, tornando-se o espaço perfeito para as realizações da sua inspiração. Cria-se aí um espaço idealizado, no qual se manifesta seu lado bucólico-metafísico. Neste cenário coloca-nos o seu gosto pela luz do ocaso, do vento outonal, do culto do vago, da figura espectral e do sentimento da ausência.
(Elementos encontrados em Poesia e Prosa)
quarta-feira, julho 18, 2007
ANRIQUE PAÇO D'ARCOS - UM POETA PORTUGUÊS...
foto de Jean Jacques André
Saudade é querer viver o já vivido,
Querer amar e ter amado já…
Sentindo o coração anoitecido,
Querer beijar a luz que o sol lhe dá.
Saudade é ver fugir o bem perdido,
Não podendo ir com ele onde ele vá;
Ai, saudade afinal é ter nascido
Na certeza que a vida acabará!
Horizontes sem fim, novas paisagens…
Saudade é vago espelho onde as imagens
Têm vida para além da realidade.
Saudade é tudo enfim que me rodeia;
Um relevo de passos pela areia;
A morte, a vida, o amor, tudo é saudade…
foto de Gerhardt Thompsonz
Ó meu saudoso olhar, penumbra triste
Que da alma das coisas se enamora,
Onde o riso se extingue e aonde chora
A lágrima de tudo quanto existe.
Ó meu saudoso olhar, relembra agora
Aquela doce luz que um dia viste
Iluminar-te a vida e que persiste
Em deslumbrar-te ainda, como outrora.
Tudo é silêncio e dor; tudo é saudade.
E lembro o meu amor e o seu encanto,
Os seus olhos de estranha claridade.
Ó meu bendito amor! Bendita luz!
Por quem eu dava a vida e tudo quanto
Além da própria vida me seduz!
foto de Sissi
Esta tristeza que me envolve agora
Nem me deixa sequer pensar em mim…
Cai na terra o silêncio; e nesta hora
A minha dor vai descansar enfim.
O sol ao longe todo o céu colora
De nuvens cor de fogo e de rubim;
E as árvores também, como quem ora,
Rumorejam nas sombras do jardim.
E no silêncio desta tarde linda
Paira na terra uma doçura infinda,
Asas leves de sonho e de agonia…
Morrem ao longe as nuvens incendiadas,
Quando o silêncio e a sombra de mãos dadas
Amortalham a luz, ao fim do dia…
segunda-feira, julho 16, 2007
A MORTE DE MADRUGADA

UMA CERTA madrugada
Eu por um caminho andava
Não sei bem se estava bêbedo
Ou se tinha a morte n’alma
Não sei também se o caminho
Me perdia ou encaminhava
Só sei que a sede queimava-me
A boca desidratada.
Era uma terra estrangeira
Que me recordava algo
Com sua argila cor de sangue
E seu ar desesperado.
Lembro que havia uma estrela
Morrendo no céu vazio
De uma outra coisa me lembro:
... Un horizonte de perros
Ladra muy lejos del río...
De repente reconheço:
Eram campos de Granada!
Estava em terras de Espanha
Em sua terra ensangüentada
Por que estranha providência
Não sei... não sabia nada...
Só sei da nuvem de pó
Caminhando sobre a estrada
E um duro passo de marcha
Que em meu sentido avançava.
Como uma mancha de sangue
Abria-se a madrugada
Enquanto a estrela morria
Numa tremura de lágrima
Sobre as colinas vermelhas
Os galhos também choravam
Aumentando a fria angústia
Que de mim transverberava.
Era um grupo de soldados
Que pela estrada marchava
Trazendo fuzis ao ombro
E impiedade na cara
Entre eles andava um moço
De face morena e cálida
Cabelos soltos ao vento
Camisa desabotoada.
Diante de um velho muro
O tenente gritou: Alto!
E à frente conduz o moço
De fisionomia pálida.
Sem ser visto me aproximo
Daquela cena macabra
Ao tempo em que o pelotão
Se punha horizontal.
Súbito um raio de sol
Ao moço ilumina a face
E eu à boca levo as mãos
Para evitar que gritasse.
Era ele, era Federico
O poeta meu muito amado
A um muro de pedra-seca
Colado, como um fantasma.
Chamei-o: Garcia Lorca!
Mas já não ouvia nada
O horror da morte imatura
Sobre a expressão estampada...
Mas que me via, me via
Porque em seus olhos havia
Uma luz mal-disfarçada.
Com o peito de dor rompido
Me quedei, paralisado
Enquanto os soldados miram
A cabeça delicada.
Assim vi a Federico
Entre dois canos de arma
A fitar-me estranhamente
Como querendo falar-me
Hoje sei que teve medo
Diante do inesperado
E foi maior seu martírio
Do que a tortura da carne.
Hoje sei que teve medo
Mas sei que não foi covarde
Pela curiosa maneira
Com que de longe me olhava
Como quem me diz: a morte
É sempre desagradável
Mas antes morrer ciente
Do que viver enganado.
Atiraram-lhe na cara
Os vendilhões de sua pátria
Nos seus olhos andaluzes
Em sua boca de palavras.
Muerto cayó Federico
Sobre a terra de Granada
La tierra del inocente
No la tierra del culpable.
Nos olhos que tinha abertos
Numa infinita mirada
Em meio a flores de sangue
A expressão se conservava
Como a segredar-me: A morte
É simples, de madrugada...
Vinicius de Moraes
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