terça-feira, outubro 06, 2009

EU E TU




Eu e Tu

Dois! Eu e Tu, num ser indispensável! Como
Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo, — em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia...

Como a onda e o vento, a Lua e a noite, o orvalho
[e a selva
— O vento erguendo a vaga, o luar doirando a
[noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva —
Cheio de ti, meu ser de eflúvios impregnou-te!

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
— Nós dois, de amor enchendo a noite do degredo,

Como partes dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama...

António Feijó, in 'Sol de Inverno'


sexta-feira, outubro 02, 2009

EM BUSCA








Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,

E choro de me ver tão outro, tão mudado…

Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado

Que sofro do meu mal — o mal de que provenho.



Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,

Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,

Não sei do meu amor, saúde não na tenho,

E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.



A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto

Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,

Quando o azul começa a diluir-se em astros…



E à beira do caminho, até lá muito longe,

Como um mendigo só, como um sombrio monge,

Anda o meu coração em busca dos seus rastros…




José Duro

in Antologia de Poetas Alentejanos

Foto gentilmente cedida por Sandra Comenda


quinta-feira, outubro 01, 2009

FONTE DE INSTABILIDADE

Opinião de Paulo Martins - Jornal de Notícias

Fonte de instabilidade

O político português que mais vezes se apresentou como ardoroso defensor da estabilidade política acaba de tornar-se uma fonte de instabilidade. Logo agora que os portugueses escolheram um caminho, é a Presidência da República que abre fogo cerrado, autorizando suspeitas de que Cavaco Silva vestiu a farda, pronto a dirigir as tropas da Oposição a partir de Belém. Fazendo, afinal, o mesmo que criticou a um seu antecessor, Mário Soares, quando ele próprio chefiava o Governo.

Não passa pela cabeça de ninguém que o cenário possa ainda ser pior do que um clima de guerrilha institucional que regresse aos remotos tempos em que os encontros entre primeiro--ministro e presidente eram gravados. Porém, se levadas à letra, as palavras ontem proferidas por Cavaco Silva arrepiam qualquer mortal.

Se o presidente desconfia que gente próxima do Governo (na comunicação ao país, aludiu a "destacadas personalidades do partido do Governo") lhe anda a vasculhar os emails, então deve ser consequente. E ser consequente, nesta altura do campeonato, é não indigitar José Sócrates para o cargo de primeiro-ministro. Não é de suspeitar que o chefe de Estado ainda esteja à espera das contas finais das legislativas - faltam os votos dos emigrantes - para ver se PSD e CDS ultrapassam o PS em número de deputados e assim convidar Ferreira Leite a formar Governo com Paulo Portas? Seria um golpe de Estado institucional, claro. Mas a verdade é que a Constituição não o obriga a entregar ao partido vencedor as chaves do Executivo. Sejamos claros: um presidente que se sente objecto de ultimatos vindos do Governo pode até vir a alegar que está em causa o regular funcionamento das instituições democráticas.

Que o caldo está entornado é mais do que evidente. Cavaco manteve-se em silêncio nas vésperas das eleições, alegando que não desejava condicionar a campanha - logo, as opções dos portugueses. Ao falar depois delas, condiciona, no mínimo, o Governo ainda em funções. Até porque a sua declaração explicou sem explicar o famoso "problema de segurança".

Um exemplo: não se percebe a alusão a um email trocado entre dois jornalistas, publicado por um jornal, associada à presumível violação do correio electrónico da Presidência. E também não se percebe por que não atacou mais cedo o problema, tão grave era. Discretamente, com pinças, com recurso a especialistas em informática que tornassem inexpugnáveis os computadores de Belém e com puxões de orelhas a quem tinha de puxar. Nunca na praça pública. Se o mais alto magistrado da Nação precisa de comunicar os seus receios ao povo em matéria tão sensível como a segurança das comunicações é caso para apreensão.

terça-feira, setembro 29, 2009

HISTÓRIA ANTIGA



No meu grande optimismo de inocente
Eu nunca soube porque foi... um dia
Ela me olhou indiferentemente
Perguntei-lhe porque era... Não sabia...

Desde então transformou-se de repente
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para a frente...

Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,



E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer coisa
Mas que é tarde demais para dizê-la...


Raúl de Leôni


Imagem de Ivan Hansen

segunda-feira, setembro 28, 2009

Noites de Poesia em Vermoim - 3 Outubro 09





Clique na imagem para ver melhor



Este é o Convite para a próxima "Noites de Poesia em Vermoim" do próximo sábado.

O Tema é ADÁGIOS POPULARES.

Contamos com o vosso apoio e ajuda na divulgação deste evento.

Senhores e Senhoras da "Poesia na Net" ------ não se esqueçam de mandar os vossos trabalhos!

Então, até Sábado...

quinta-feira, setembro 24, 2009

NÉVOAS




Névoas


Nas horas tardias que a noite desmaia
Que rolam na praia mil vagas azuis,
E a lua cercada de pálida chama
Nos mares derrama seu pranto de luz,

Eu vi entre os flocos de névoas imensas,
Que em grutas extensas se elevam no ar,
Um corpo de fada — sereno, dormindo,
Tranqüila sorrindo num brando sonhar.

Na forma de neve — puríssima e nua —
Um raio da lua de manso batia,
E assim reclinada no túrbido leito
Seu pálido peito de amores tremia.

Oh! filha das névoas! das veigas viçosas,
Das verdes, cheirosas roseiras do céu,
Acaso rolaste tão bela dormindo,
E dormes, sorrindo, das nuvens no véu?

O orvalho das noites congela-te a fronte,
As orlas do monte se escondem nas brumas,
E queda repousas num mar de neblina,
Qual pérola fina no leito de espumas!

Nas nuas espáduas, dos astros dormentes
— Tão frio — não sentes o pranto filtrar?
E as asas, de prata do gênio das noites
Em tíbios açoites a trança agitar?

Ai! vem, que nas nuvens te mata o desejo
De um férvido beijo gozares em vão!...
Os astros sem alma se cansam de olhar-te,
Nem podem amar-te, nem dizem paixão!

E as auras passavam — e as névoas tremiam
— E os gênios corriam — no espaço a cantar,
Mas ela dormia tão pura e divina
Qual pálida ondina nas águas do mar!

Imagem formosa das nuvens da Ilíria,
— Brilhante Valquíria — das brumas do Norte,
Não ouves ao menos do bardo os clamores,
Envolto em vapores — mais fria que a morte!

Oh! vem; vem, minh'alma! teu rosto gelado,
Teu seio molhado de orvalho brilhante,
Eu quero aquecê-los no peito incendido,
— Contar-te ao ouvido paixão delirante!...

Assim eu clamava tristonho e pendido,
Ouvindo o gemido da onda na praia,
Na hora em que fogem as névoas sombrias
– Nas horas tardias que a noite desmaia.

E as brisas da aurora ligeiras corriam.
No leito batiam da fada divina...
Sumiram-se as brumas do vento à bafagem,
E a pálida imagem desfez-se em — neblina!


Fagundes Varela







Fagundes Varela
(1841 - 1875)

Luís Nicolau Fagundes Varela nasceu na Fazenda Santa Rita, em Rio Claro (RJ). Em 1859 transferiu-se para São Paulo, mas só conseguiu ingressar na Faculdade de Direito em 1862. Influenciado pelos últimos suspiros do “byronismo” estudantil paulistano, dedica-se à boêmia e à bebida, atraído constantemente pela marginalidade. A morte de seu primeiro filho inspira-lhe seu mais conhecido poema, “Cântico do Calvário”. Tenta concluir o curso de Direito em Recife, mas a morte da esposa o faz retornar a São Paulo. Abandona, então, a Faculdade e retorna à fazenda onde nascera, continuando a escrever poesia. Casando-se outra vez, muda-se para Niterói, onde se entrega à bebida e vem a falecer, já em estado de completo desequilíbrio mental.


LUÍS NICOLAU FAGUNDES VARELA


Nasceu em 1841, no município de Rio Claro, província do Rio de Janeiro. Depois dos estudos básicos na província natal, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (1862), casando-se no mesmo ano. Daqui por diante a vida foi-lhe um rosário de boêmia, de infelicidades, de intemperança alcoólica, mas de fecundidade poética e de extraordinária inspiração. Um ano passou em Recife (1865) continuando o curso de Direito (3º ano). Em 1866 está de volta a São Paulo, matriculando-se no 4º ano. Os sofrimentos morais levam-no a abandonar o curso e todos os compromissos sociais: só duas realidades o consolam - a poesia e a natureza. Em 1875, com trinta e quatro anos, morre de apoplexia, deixando uma esposa (segundo matrimônio), duas filhinhas e uma obra poética de fulgurações de gênio:
Noturnas (São Paulo, 1861); O estandarte auriverde (São Paulo, 1863); Vozes da América (São Paulo, 1864); Cantos e fantasias (Paris, 1865); Cantos. meridionais (São Paulo, 1809); Cantos do ermo e da cidade (Paris, 1869); Anchieta ou o Evangelho nas selvas (Rio, 1875); Cantos Religiosos (Rio, 1878) e Diário de Lázaro (Rio, 1880). Publicaram-se as Obras Completas em três volumes (Havre, 1886?), editadas pela Livraria Garnier.



quarta-feira, setembro 23, 2009

LANÇAMENTO DA ANTOLOGIA POÉTICA AMANTE DAS LEITURAS 2009



Dia 03 de Outubro, sábado, pelas 16 horas no Salão Paroquial (Mosteiro de Paço de Sousa )



Clique nas imagens, s.f.f., para ver melhor








sábado, setembro 19, 2009

LANÇAMENTO DO LIVRO DE IRENE LAMOLINAIRIE





28 de Setembro 2009 - 21,30 horas

Biblioteca Municipal da Maia

Apresentação do livro de Irene Lamolinairie

"Vidas e Sonhos"



Animação musical:


Tuna da Universidade Sénior Matosinhos/Rotary


Interpretação de saxofone por António Queirós


sexta-feira, setembro 18, 2009

PIN - UMA EXPLICAÇÃO DE TERNURA



Aos 20 de Setembro no Porto e a 10 de Outubro em Lisboa

O AMOR E O TEMPO






Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

— «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

— Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
— «Por que voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» — Nesse momento.

Volta-se o Amor e diz com azedume:
— «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!»


António Feijó (1859-1917)


terça-feira, setembro 15, 2009

SONETO






Lábios
que encontram outros lábios
num meio de caminho, como peregrinos
interrompendo a devoção, nem pobres
nem sábios numa embriaguez sem vinho:

que silêncio os entontece quando
de súbito se tocam e, cegos ainda,
procuram a saída que o olhar esquece
num murmúrio de vagos segredos?

É de tarde, na melancolia turva
dos poentes, ouvindo um tocar de sinos
escorrer sob o azul dos céus quentes,
que essa imagem desce de agosto, ou
setembro, e se enrola sem desgosto
no chão obscuro desse amor que lembro.

NUNO JÚDICE


Sessão de lançamento do livro “O Meu Cancioneiro”



O Presidente da Câmara Municipal de Viana do Alentejo, Estêvão Machado Pereira, a Biblioteca do Agrupamento de Escolas de Viana do Alentejo, o autor, José-Augusto de Carvalho, e a Temas Originais têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro “O Meu Cancioneiro” a ter lugar no Cine-Teatro Vianense, sito em Viana do Alentejo, no próximo dia 19 de Setembro, pelas 21:00. Obra e autor serão apresentados pela poetisa Conceição Paulino e pelo professor António João Valério.


terça-feira, setembro 08, 2009

SOLEMNIA VERBA

Trabalho de ISABEL FILIPE



Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.

Antero de Quental, in "Sonetos"


quinta-feira, setembro 03, 2009

MESA DA SOLIDÃO -RAUL DE CARVALHO






MESA DA SOLIDÃO


Mortas na boca as palavras demoram
A refluir aos lábios

Elas esperam que o Amor as ajude
Que o Amor lhes sirva
De ponte

Que o Amor lhes dê a conhecer
A boca que as espera


A ofegante boca que as espera .


RAUL DE CARVALHO




Raul Maria de Carvalho nasceu em Alvito, Baixo Alentejo, a 4 de Setembro de 1920. As memórias da infância passadas nesse local manifestam-se em todos os seus livros de cunho autobiográfico. Chegou a Lisboa na década de 40 e tornou-se frequentador do café Martinho da Arcada, contactando com personalidades do meio literário.

Preocupado com a condição dos mais desfavorecidos, assumiu algumas afinidades com os neo-realistas. Conjugou esta preocupação com a aprendizagem de uma liberdade surrealista. Foi colaborador das revistas Távola Redonda, Cadernos de Poesia e Árvore, de que foi co-director (1951-1953).

Em 1956 foi premiado com o «Prémio Simon Bolívar», no Concurso Internacional de Poetas de Siena, em Itália.

Morreu a 3 de Setembro de 1984, no Hospital de São João, no Porto.





Algumas obras:

As Sombras e as Vozes (1949)

Poesia 1949-1958 (1965)

Tudo é Visão (1970)

A Casa Abandonada (1977)

Elsinore (1980)

Um mesmo livro (1984)



No blog ALVITO pode ler um trabalho sobre Raul de Carvalho da autoria do Homem de Letras ANTÓNIO REBORDÃO NAVARRO

terça-feira, setembro 01, 2009

Recordando FERNANDO PEIXOTO




Colher a sensação das arestas redondas
das areias escaldantes das minhas dúvidas
respirar a maresia das ideias
que transpira na crista das ondas
das minhas incertezas súbitas
enormes rumorosas e cheias

Provar os sabores salgados
da espuma na minha mão
junto à proa do navio
e respirar os ventos desgarrados
que se espraiam na rebentação
e sentir na pele um arrepio

Impelido por ventos de desnorte
sentir na carne o desconforto
de ter um mundo imenso à minha frente
e um silvo de silêncio como a morte
a lembrar-me que está longe o porto
no oposto preciso do nascente


Penetrar no horizonte distante
nessa linha que me afasta de ti
e perceber a impotência dos braços
que me sustêm na orla hesitante
que ainda me retêm aqui
incapaz de quebrar meus próprios laços

desafiar Neptuno o deus gigante
que roça os rochedos agressivos
impelido por Zéfiro implacável
e pressentir naquele mesmo instante
que há medos de tal forma possessivos
que a vontade se torna vulnerável

Deitar-me no areal já ressequido
e queimar-me no sol do meio-dia
sonhando que é possível decifrar
o doce labirinto entretecido
nas curvas do teu corpo a melodia
que nunca me canso de escutar


e ver a tua imagem reflectida
em múltiplas vagas de frescura
que se estendem na areia do estuário
só que tu estás sempre de partida
e eu fico roendo esta amargura
de estar cada vez mais solitário

Talvez sejas somente uma quimera
um sonho uma ilusão uma utopia
ou quem sabe a minha barca de Caronte
Navegando ao longe à minha espera
te encontrarei por certo qualquer dia
banhada pelo sol no horizonte

Dia a dia porém eu continuo
sempre vinculado à mesma esperança
de escutar nas ondas o teu canto
e por isso prossigo e acentuo
meus pés sobre a areia numa dança
passeando no litoral do espanto




FERNANDO PEIXOTO


sábado, agosto 29, 2009

É TEMPO AINDA...




É tempo ainda, Amor
de retomar
a viagem que iniciámos
juntamente.

De voltar ao fluir
do nosso rio,

de recerzir o tempo
fio a fio,

de reatar o passado
no presente.

É tempo ainda, Amada
de acordar.
Redescobrir
sentidos
novos nas palavras.

Reencontrar
esquecidos
gritos nos silêncios.
Renovar
o antigo frescor das madrugadas .

É tempo ainda, Amor
de avivar
a memória de gestos
já perdidos ...

O sabor
de antigos sonhos
recriar ...

Reinventar o amor
e incendiar
a adormecida chama dos sentidos,

0 entrelaçar dos dedos
a ternura
da troca de um olhar

O estilhaçar dos medos
na aventura
dos corpos penetrar.

A procura
das bocas, numa fome
nunca satisfeita de beijar ...

É tempo ainda, Amiga,
É tempo ainda.
É tempo ainda de voltar !


ANTÓNIO MELENAS


quarta-feira, agosto 26, 2009

TUDO O QUE ONDULA





Tudo o que ondula ondula no teu corpo

a garça a flor o vinho a égua a água

ondula o barco e o arco ondula o porto

l'aura amara e a onça ondula a mágoa


Ondula o vento a vela a onda brava

e a caravela dentro da palavra


Ondula a letra e o l ondula a lua

e a roxa violeta em tua coxa


Ondula a estrela e a nave ondula o sol

ondula a ave e o azul ondula o sul


Ondula a sílaba e a chama ondula

abril e o til a flauta a flama a flâmula


Ondula a seara a saia a sarça o trigo

tudo o que ondula ondula e vai contigo


Manuel Alegre - 30 Anos de Poesia



Crédito da imagem: http://www.vivercidades.org.br/publique222/media/tamara_AndroMulherNua.jpg

quinta-feira, agosto 20, 2009

A NOITE NA ILHA




Dormi contigo toda a noite

junto ao mar, na ilha.

Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,

entre o fogo e a água.



Os nossos sonos uniram-se

talvez muito tarde

no alto ou no fundo,

em cima como ramos que um mesmo vento agita,

em baixo como vermelhas raízes que se tocam.



O teu sono separou-se

talvez do meu

e andava à minha procura

pelo mar escuro

como dantes,

quando ainda não existias,

quando sem te avistar

naveguei a teu lado

e os teus olhos buscavam

o que agora

-pão, vinho, amor e cólera -

te dou às mãos cheias,

porque tu és a taça

que esperava os dons da minha vida.



Dormi contigo

toda a noite enquanto

a terra escura gira

com os vivos e os mortos,

e ao acordar de repente

no meio da sombra

o meu braço cingia a tua cintura.

Nem a noite nem o sono

puderam separar-nos.



Dormi contigo

e, ao acordar, tua boca,

saída do teu sono,

trouxe-me o sabor da terra,

da água do mar, das algas,

do âmago da tua vida,

e recebi teu beijo,

molhado pela aurora,

como se me viesse

do mar que nos cerca.



Pablo Neruda - Os Versos do Capitão

Tradução de Albano Martins

Foto da net


sábado, agosto 15, 2009

SONETO DA VÉSPERA




Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?

Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?

Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou — fria de vida

Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...


VINICIUS DE MORAES


quinta-feira, agosto 13, 2009

QUERO FALAR-TE DESTE AMOR...





Quero falar-te deste amor, como de um vento
amordaçado na camisa; uma febre de verão
que o mercúrio não acha; um telhado esmagado
pela ideia da chuva. Quero dizer-te


que sobre ele pairaram sempre brumas e nevoeiros
e profecias de temporais maiores, como os que levam
para longe os corpos dos navios. Não há notícias


deste amor; apenas uma intriga, um recado sonâmbulo,
um temor que desmaia as pregas do vestido e um sortilégio
urdido nas paisagens suspensas de um mapa que aperto
na mão sem desdobrar. E há memórias


deste amor? A voz sem as palavras, um livro lido
às escuras, um bilhete cifrado deixado num hotel,
um velho calendário cheio de desencontros? Não,


não há memória deste amor.



Maria do Rosário Pedreira


terça-feira, agosto 04, 2009

TALVEZ

Mendigo de Rembrant




Dá-me os andrajos vis com que mendigas,
E empresta-me o teu gesto à minha mão.
Das minhas mãos faz tuas mãos amigas,
E ensina-me a cantar essa canção.

Empresta-me os ouvidos com que escutas,
Mais tristes do que as tuas amarguras,
As gargalhadas dessas prostitutas
Que choram escondidas, às escuras.

Ensina-me a passar, como tu passas,
Medindo a imensidão de mil desgraças,
Por onde a dor, e sempre a dor, persiste.

Talvez que eu me contente com bem pouco,
E fique menos pobre e menos louco,
E o céu, ao meu olhar, bem menos triste.


António Celso – Asas Cinzentas


segunda-feira, agosto 03, 2009

Um dia...





um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

José Luís Peixoto –A Criança em Ruínas



domingo, agosto 02, 2009

ROMANTISMO




As Gôndolas de Nadir Afonso

Nadir Afonso nasceu em Chaves em 1920.

Diplomou-se em Arquitectura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto.

Em 1946, estuda pintura na École des Beaux-Arts de Paris, e obtém por intermédio de Portinari uma bolsa de estudo do governo francês.

De 1946 até 1948 e em 1951 foi colaborador do arquitecto Le Corbusier, nomeadamente no projecto da cidade radiosa de Marselha, e serviu-se algum tempo do atelier de Fernand Léger.

De 1952 a 1954, trabalha no Brasil com o arquitecto Óscar Niemeyer.

Nesse ano, regressa a Paris, retoma contacto com os artistas orientados na procura da arte cinética, desenvolvendo os estudos sobre pintura que denomina «Espacillimité» e faz parte do grupo da galeria Denise René juntamente com Herbin, Vasarely, Mortensen.

Na vanguarda da arte mundial expõe em 1958 no Salon des Réalités Nouvelles «espacillimités» animado demovimento.

Em 1965, Nadir Afonso abandona definitivamente a arquitectura; consciente da sua inadaptação social, refugia-se pouco a pouco num grande isolamento e acentua o rumo da sua vida exclusivamente dedicada à criação da sua obra.

Prémio Nacional de Pintura em 1967 e Prémio Amadeo de Sousa-Cardoso em 1969. Medalha de ouro da cidade de Chaves, membro da Ordem Militar Santiago de Espada e da Academia Nacional de Belas-Artes.

Homenageado por ocasião dos 25 anos da Bienal de Cerveira em 2003 e atribuído o prémio Nadir Afonso na 2.ª feira de Arte Contemporânea do Estoril.

Sobre Nadir Afonso foi realizado um filme da autoria de Jorge Campos para a Radiotelevisão Portuguesa.

Está representado em Museus de Lisboa, Porto, Amarante, Rio de Janeiro, S. Paulo, Budapeste, Paris (Centre Georges Pompidou), Wurzburg, Berlim entre outros. Prémio Nacional de Pintura em 1967 e Prémio Amadeo de Sousa-Cardoso em 1969. Medalha de ouro da cidade de Chaves, membro da Ordem Militar Santiago de Espada e da Academia Nacional de Belas-Artes.

Artista homenageado na 2.ª Feira Internacional do Estoril e a atribuição do Prémio Nadir Afonso.






A lua é uma gôndola doirada,

Onde em sonhos de amor, um dia, me embarquei

Contigo, ó meu amor, ó linda Bela-Amada,

Que um dia imaginei!



E partimos os dois na gôndola do Sonho...

Na Veneza do Amor, onde íamos vogando,

Tudo era lento e triste e doce como um sonho,

Como o sonho de Amor que ia sonhando!



Mas perdeu-se na bruma a gôndola doirada,

Onde em sonhos de amor, um dia, me embarquei!

E morreste na espuma, ó linda enamorada,

E desfez-se, na espuma, o sonho em que te amei!



Ai, a lua é a gôndola doirada,

Onde embarquei contigo e onde, sem ti, voltei!


Anrique Paço d'Arcos



domingo, julho 26, 2009

O GRITO DA FOME





O GRITO DA FOME


Murmureja, resfolga

Sente-se, penetra.

Tomai tento

Senhores, ricos,

Abastados, soberbos,

Indiferentes e apáticos.

Tende atenção

Governantes, políticos,

Estadistas e líderes.

O grito da fome

É um grito de alma

Não se trava, não se prende

É um grito que não pára.

O grito da fome

Não suporta a indiferença

É a miséria revoltada

É a criança esfomeada,

É o idoso abandonado,

É o trabalhador desempregado.

CIDADÃOS:

ESCUTAI O GRITO DA FOME.

Lumife aos 26 de Julho de 2009


sexta-feira, julho 24, 2009

Lançamento da antologia de poesia "Entre o Sono e o Sonho - Vol2




Uma obra literária que surge com o intuito de prestigiar e distinguir

alguns poetas portugueses, integrando nomes consagrados e emergentes,

promovendo simultaneamente a criação poética contemporânea.

Este evento terá lugar no Café In (Avenida Brasília, Pavilhão Nascente,

n.º 311 - Lisboa) a 25 de Julho, Sábado, pelas 19h30.


O projecto foi criado e desenvolvido pelo Portal Lisboa e apoiado e

editado pela Chiado Editora, uma jovem casa de edição que rapidamente se

tornou numa editora de referência em Portugal.


A entrada para o evento é livre. Pelo que incentivamos todos os Autores a

convidar quem entenderem para assistir ao lançamento da obra.

quinta-feira, julho 23, 2009

Poema de: Rogério Martins Simões - Uma eternidade nos espera






Surgiu agora na net, em vídeo, um trabalho de Misteriosa do Brasil. É uma homenagem ao amigo Rogério Martins Simões que continua a deslumbrar-nos com a sua poesia no blog POEMAS DE AMOR E DOR .

Associo-me com todo o gosto a essa homenagem transcrevendo o poema e colocando o vídeo.




UMA ETERNIDADE NOS ESPERA…

Rogério Martins Simões

Quando tu e eu saltávamos em andamento,
Numa corrida estreita, para a existência,
Havia um brilho, intenso, que cegava a escuridão externa.

Falávamos em língua redonda,
Imperceptível,
Que nos deixava latejar à distância do universo das palavras.
Éramos nada!
Éramos tudo!
Frequentávamos os mesmos colégios ricos,
Onde a riqueza se media pelo contágio,
Em resultado das vidas passadas.

Fazíamos parte de um grupo,
Sem forma,
Grande aos sentidos,
E sabíamos que iríamos viajar em busca da luz.
Éramos uma luz ténue…
E procurávamos um brilho permanente.

Entrámos por uma porta estreita
Onde formas sem luz
Reproduziam uma língua quadrada,
Sem nexo, herança de uma Torre de Babel,
Que tivemos de aprender.

Estamos a ficar cansados!
Não importa…
Tomámos o caminho recto e certo
E partiremos na luz…

Falta pouco meu amor.
Uma eternidade nos espera…

Lisboa, 30 de Abril de 2009

segunda-feira, julho 06, 2009

O MEU PAÍS É UM SONHO SONHADO DE CONCEIÇÃO PAULINO

CLIQUE NA IMAGEM PARA VER MELHOR



Dia 11 de Julho, 18H00/18H30, no Salão do Flor de Infesta, na cidade de S. Mamede de Infesta
dedicado:“ à população e à terra de S. Mamede de Infesta que há |quase| 35 anos, pela alma, me cativaram e fizeram com que aqui fixasse residência.”
*
Razões da dedicatória:
“Creio necessárias algumas palavras sobre as razões porque dedico este livro à população de S. Mamede em todas as suas formas organizativas.
(…)
Tenho sessenta e quatro anos de vida extra-uterina. Destes |quase| trinta e cinco anos aqui foram vividos. Em S. Mamede de Infesta tive o meu grande envolvimento de cidadania política activa ocupando cargos autárquicos (a nível concelhio e de freguesia) bem como associativos. Aqui cresceram minhas três filhas. Boas razões creio
(…) Mas a razão maior não é esta.
Radica no passado.
(…) Deixei-me levar pelas brisas. Caminhei pelas ruas observando e cumprimentando. Escutando as conversas.
Ouvindo as vozes das almas.
Bebi ares de liberdade e na classe dominante, a operária, vi e senti O orgulho de ser gente. Um sentimento tão forte e similar ao meu e do meu amado povo Alentejano que nunca baixou a cerviz ao ter, conscientes do ser, que toda a busca aqui se centrou e cá lancei as raízes que até hoje me sustêm.”


quinta-feira, julho 02, 2009

SOPHIA - CINCO ANOS DE SAUDADE




Sophia de Mello Breyner morreu há cinco anos, cumpridos hoje.


A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.



**************** *******************


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa



****************** ********************


Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.


terça-feira, março 10, 2009

Petição para Instituir o Dia Nacional da Epilepsia

POR FAVOR ASSINEM E DIVULGUEM
PETIÇÃO PARA INSTITUIR O DIA NACIONAL DA EPILEPSIA

VIEIRA CALADO

Foto de Bruno Abreu - Olhares





NESTES DIAS DE TRANSPARÊNCIAS



Nestes dias de transparências violentadas
sonho a ardência duma árvore estóica
testemunhando os ludíbrios da paisagem,
um rio que simplesmente prossegue
e insiste em devaneios de águas claras,
no rigor dos invernos que conhece.


Subo do meu frio por escadas verticais,
um perfil amargurado de vozes interiores
que me trazem às margens da realidade,
ao alicerce da superfície das coisas
onde apenas vislumbro os excessos da luz
as cinzas, ou o fogo de vulcões extintos.


Contemplo, nas fronteiras do alvoroço,
os murmúrios de antigos violoncelos
sussurando o desígnio das águas leves
fustigando o granito das profundas fendas
da terra, num exercício demolidor.


Não sou comerciante de barros antigos
apenas reconheço o ar circundante
que prossegue dando frescura às vigílias,
na lassitude serena de entender a bruma
a descer sobre a superfície das origens.


Por isso, atento me atenho às evidências
do pólen esvoaçando ao sabor do vento,
a pura sedução das vertentes da luz
no mecanismo rigoroso dum grão de trigo.


Vieira Calado

O autor tem variada colaboração em jornais e revistas, páginas literárias, prefácios e antologias. Coordena uma página de Poesia e outra de Astronomia no "Jornal de Lagos"




sexta-feira, março 06, 2009

PARABÉNS PARA TI - POEMAS DE ALBINO SANTOS

Foto de Bruno Abreu - Olhares


O Mar expande-me a um infinito horizontal. A Montanha esmaga-me o seu peso na vertical. Perco a essência de mim com primeiro e sinto-me comprimido com a segunda. A pequenez em mim é a mesma por dissolução ou compressão. O êxtase e a humildade, a constante agitação e a imobilidade eterna.

Como o contraste me arrebata!...

I

Não sei se Mar ou se Montanha,
tenho os meus afectos repartidos
por duas paixões que mal sustento,
duas ânsias opostas nos sentidos
dois pólos de atracção no pensamento

II

Mar!
Feito de sal e azul liquefeito
de céu, de gaivotas, vendavais
de abismos profundos e mortais
que o sol escolheu para seu leito,
onde o céu se debruça a ver corais

Onde habitam lendas e sereias,
ninfas nuas e de longas tranças
que alimentam sonhos de crianças,
namorados que se amam nas areias
da imensa praia de águas mansas

Onde posso beber sol e liberdade
longe de angústias e de medos,
sentar-me no colo dos rochedos
perder-me no azul que me invade
e contar ao mar os meus segredos

III

Montanha!
Hino supremo à imortalidade,
arrasadora e telúrica erecção,
feita da substância da eternidade,
onde as pedras parecem ter vontade
de fecundar o seu próprio chão

Imponente e austera grandeza
convertida em arte e formosura,
poesia esculpida em fraga dura
que a força e o poder da natureza
com o passar do tempo mais apura

TU, que acordas o sol na hora de nascer
entre a bruma e o cheiro de jasmim,
no teu perfil agreste, sem ter fim,
repousas a grandeza do teu ser
como eu próprio repouso sobre mim!...


ALBINO SANTOS






Foto de Marta Ferreira - Olhares


Quando a luz amadurece
chegas como quem esquece
os lençóis incandescentes
onde sempre eu anoiteço…
Mas trazes sempre as sementes
da flor com que adormeço…

Assim me vem a noite,
em pequenas chamas
florescendo entre os lábios
e os dedos dóceis…

um a um, suaves,
teus gestos me poisam no peito
como faminto bando de aves…

Línguas de sal na escuridão acesa!


ALBINO SANTOS




Foto de Bela-Olhares


Um poema deve ser silencioso
como uma carícia...
Macio
como o toque dos dedos sobre a pele...
Doce
como um olhar de amor,
abrindo caminho através dos teus olhos...
Imprevisto
como o voo dos pássaros...
Imóvel
como a sombra no tempo...
Suave
como prelúdio de belas melodias...
Tranquilo
como quando tua mão descansa sobre a minha...
Ousado
como as últimas borboletas que adormecem
na erva já ressequida depois do último beijo...

ALBINO SANTOS





Foto de Nuno Manuel Baptista - Olhares

Caminho sobre um murmúrio
de vozes transparentes.
Sou a síntese de todos os ecos
que se projectam
através de mim,
os gritos que calei
para que outros irrompessem!

Na minha memória
vestida de saudade,
respiro o teu corpo
pelo fôlego das palavras
com que faço este poema.
Elas nascem límpidas
e partem depois,
húmidas de desejo...

Molham-se os meus versos,
chove-me a saudade,
inundam-me as noites,
silenciosas,
deliciosamente lascivas
como asas de pássaro
escorrendo o teu orvalho.

Um pingo mais
desse liquido ardor,
e o poema transborda
de amor…

ALBINO SANTOS





Foto de António Carreteiro - Olhares


Se de amor me falasses!
Um dia… abstractamente,
como um leve rumor
ao som de uma serenata!
Mas fala-me somente
palavras de amor,
quando a noite deixar ver
claramente
o sítio onde o teu corpo
se refracta

Se de amor me falasses!
De amor ardente
sem a alma fria
em ti tão abstracta!
Na carícia fugidia
e tão surpreendente,
que trazes nessa boca
irreverente
onde a paixão é sempre mais exacta!

Se de amor me falasses!
Nesta noite incandescente
e tão ingrata!
Do amor que se sente
e tantas vezes se mata!
Da loucura de um beijo
no teu corpo cor de prata,
onde o amor e o desejo
tantas vezes se retrata…


ALBINO SANTOS


terça-feira, março 03, 2009

JOSÉ-AUGUSTO DE CARVALHO

Foto de Zuleva-Olhares (clique na imagem para a ver em tamanho maior)



CAMINHOS

Ai, caminhos de nada e ninguém,
de fantasmas em louco vaivém!

Não encontro nem perco,
nem procuro,
para além deste cerco...
Só o longe futuro,
hoje verde, amanhã amarelo maduro

Ai caminhos de névoa, rasgados
p'los meus pés obstinados!

Na pureza das asas da infância,
a vertigem do espaço cruzei...
Desvendei
a distância
e uma física nova inventei!

Ai, caminhos de oculto segredo,
de ansiedade, fracassos e medo!

Do composto que sou não separo
qualquer parte do todo
da matéria... de argila? de lodo?
Donde venho? Onde vou? Quando paro?


José-Augusto de Carvalho

O Poeta nasceu em Viana do Alentejo, a 20 de Julho de 1937.


domingo, março 01, 2009

CONCEIÇÃO PAULINO

Foto de Ghgomas.Olhares


No meio da dor
penso em ti. Sei.
Qualquer que ela seja,
penso sempre em ti.

Se eu souber que sabes
da minha dor
invento forças
para te dizer que
a dor não dói,
ou dói pouco
para que a dor que sentes
por mim, possa
ser aliviada.Assim
invento forças
para dizer
que a dor não dói
ou dói pouco. E
sorrio-te.


Nunca o silêncio.




foto de Zé Luis - Olhares

Doem os olhos a quem, de fora,
vê. Brotam lágrimas.
Imparáveis.
Incontroláveis... mas
não apagam, nem sequer
acalmam a braseira
esfouguedada, que arde.


Assim a alma da criatura.
A criatura que tropeça nas palavras
que esbarra nos sentimentos



sábado, fevereiro 28, 2009

UM PASSEIO DE CARRO




I - UM PASSEIO DE CARRO



SAÍMOS, ela e eu, dentro de um carro,

Um ao outro abraçados; e como era

Triste e sombria a natureza em torno

Ia conosco a eterna primavera.


No cocheiro fiávamos a sorte

Daquele dia. o carro nos levava

Sem ponto fixo, onde aprouvesse ao homem;

Nosso destino em suas mãos estava.


Quadrava-lhe Saint-Cloud. Eia! pois vamos!

É um sítio de luz, de aroma e riso,

Demais, se as nossas almas conversavam,

Onde estivessem era o paraíso.



Fomos descer junto ao portão do parque.

Era deserto e triste e mudo; o vento

Rolava nuvens cor de cinza; estavam

Seco o arbusto, o caminho lamacento.


Rimo-nos tanto vendo-te, ó formosa,

(E felizmente ninguém mais te via!)

Arregaçar a ponta do vestido

Que o lindo pé e a meia descobria!


Tinhas o gracioso acanhamento

Da fidalga gentil pisando a rua;

Desafeita ao andar, teu passo incerto

Deixava conhecer a raça tua.


Uma das tuas mãos alevantava

O vestido de seda; as saias finas

Iam mostrando as rendas e os bordados,

Lambendo o chão, molhando-te as botinas.


Mergulhavam teus pés a cada instante,

Como se o chão quisesse ali guardá-los.

E que afã! Mal podíamos nós ambos

Da cobiçosa terra libertá-los.


Doce passeio aquele! E como é belo

O amor no bosque, em tarde tão sombria!

Tinhas os olhos úmidos, - e a face

A rajada do inverno enrubescia.


Era mais belo que a estação das flores;

Nenhum olhar nos espreitava ali;

Nosso era o parque, unicamente nosso;

Ninguém! estava eu só ao pé de ti!


Perlustramos as longas avenidas

Que o horizonte cinzento limitava.

Sem mesmo ver as deusas conhecidas

Que o arvoredo sem folhas abrigava.


O tanque, onde nadava um níveo cisne

Placidamente, - o passo nos deteve;

Era a face do lago uma esmeralda

Que refleti-a o cisne alvo de neve.


Veio este a nós, e como que pedia

Alguma coisa, uma migalha apenas;

Nada tinhas que dar; a ave arrufada

Foi-se cortando as águas tão serenas.


E nadando parou junto ao repuxo

Que de água viva aquele tanque enchia;

O murmúrio das gotas que tombavam

Era o único som que ali se ouvia.


Lá ficamos tão juntos um do outro,

Olhando o cisne e escutando as águas;

Vinha a noite; a sombria cor do bosque

Emoldurava as nossas próprias mágoas.


Num pedestal, onde outras frases ternas,

A mão de outros amantes escreveu,

Fui traçar, meu amor, aquela data

E junto dela pôr o nome teu!


Quando o estio volver àquelas árvores,

E à sombra delas for a gente a flux,

E o tanque refletir as folhas novas,

E o parque encher-se de murmúrio e luz,


Irei um dia, na estação das flores,

Ver a coluna onde escrevi teu nome,

O doce nome que minha alma prende,

E que o tempo, quem sabe? Já consome!


Onde estarás então? Talvez bem longe,

Separada de mim, triste e sombrio;

Talvez tenhas seguido a alegre estrada,

Dando-me áspero inverno em pleno estio.


Porque o inverno não é o frio e o vento,

Nem a erma alameda que ontem vi;

O inverno é o coração sem luz nem flores,

É o que eu hei de ser longe de ti

II

Correu um ano desde aquele dia,

Em que fomos ao bosque; um ano, sim!

Eu já previa o fúnebre desfecho

Desse tempo feliz, - triste de mim!


O nosso amor nem viu nascer as flores;

Mal aquecia um raio de verão

Para sempre, talvez, das nossas almas

Começou a cruel separação.


Vi esta primavera em longes terras,

Tão ermo de esperanças e de amores,

Olhos fitos na estrada, onde esperava

Ver-te chegar, como a estação das flores.


Quanta vez meu olhar sondou a estrada

Que entre espesso arvoredo se perdia,

Menos triste, inda assim, menos escuro

Que a dúvida cruel que me seguia!


Que valia esse sol abrindo as plantas

E despertando o sono das campinas?

Inda mais altas que as searas louras,

Que valiam as flores peregrinas?


De que servia o aroma dos outeiros?

E o canto matinal dos passarinhos?

Que me importava a mim o arfar da terra,

E nas moutas em flor os verdes ninhos?


O sol que enche de luz a longa estrada,

Se me não traz o que minh'alma espera,

Pode apagar seus raios sedutores:

Não é o sol, não é a primavera!


Margaridas, caí, morrei nos campos.

Perdei o viço e as delicadas cores,

Se ela vos não aspira, o hálito brando,

Já o verão não sois, já não sois flores!


Prefiro o inverno desfolhado e mudo,

O velho inverno, cujo olhar sombrio

Mal se derrama nas cerradas trevas,

E vai morrer no espaço úmido e frio.


É esse o sol das almas desgraçadas;

Venha o inverno, somos tão amigos!

Nossas tristezas são irmãs em tudo:

Temos ambos o frio dos jazigos!


Contra o sol, contra Deus, assim falava

Dês que assomavam matinais albores;

Eu aguardava as tuas doces letras

Com que ao céu perdoasse as belas cores!


Iam assim, um após outro, os dias.

Nada. - E aquele horizonte tão fechado

Nem deixava chegar aos meus ouvidos

O eco longínquo do teu nome amado.


Só, durante seis meses, dia e noite

Chamei por ti na minha angústia extrema;

A sombra era mais densa a cada passo,

E eu murmurava sempre: - Oh! minha Ema!


Um quarto de papel - é pouca cousa;

Quatro linhas escritas - não é nada;

Quem não quer escrever colhe uma rosa,

No vale aberta, à luz da madrugada.


Mandam-se as folhas num papel fechado;

E o proscrito, ansiando de esperança,

Pode entreabrir nos lábios um sorriso

Vendo naquilo uma fiel lembrança.


Era fácil fazê-lo e não fizeste!

Meus dias eram mais desesperados.

Meu pobre coração ia secando

Como esses frutos no verão guardados.


Hoje, se o comprimissem, mal deitava

Uma gota de sangue; nada encerra.

Era urna taça cheia; uma criança,

De estouvada que foi, deitou-a em terra!


É este o mesmo tempo, o mesmo dia.

Vai o no tocando quase ao fim;

É esta a hora em que, formosa e terna,

Conversavas de amor, junto de mim.


O mesmo aspecto: as ruas estão ermas,

A neve coalha o lago preguiçoso;

O arvoredo gastou as roupas verdes,

E nada o cisne triste e silencioso-


Vejo ainda no mármore o teu nome,

Escrito quando ali comigo andaste.

Vamos! Sonhei, foi um delírio apenas,

Era um louco tu não me abandonaste!


O carro espera: vamos. Outro dia,

Se houver bom tempo, voltaremos, não?

Corre este véu sobre teus olhos lindos,

Olha, não caias, dá-me a tua mão!


Choveu; a chuva umedeceu a terra.

Anda! Ai de mim! Em vão minh'alma espera.

Estas folhas que eu piso em chão deserto

São as folhas da outra primavera!


Não, não estás aqui, chamo-te embalde!

Era ainda urna última ilusão.

Tão longe desse amor fui inda o mesmo,

E vivi dous invernos sem verão.


Porque o verão não é aquele tempo

De vida e de calor que eu não vivi;

É a alma entornando a luz e as flores,

É o que hei de ser ao pé de ti!



Machado de Assis


"Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839 no Morro do Livramento(RJ) e teve todas as condições favoráveis para dar errado na vida: pobre; filho de um pintor de paredes com um lavadeira portuguesa; neto de escravos alforriados; e, ainda por cima, epilético.

No entanto, graças a seu talento e a uma enorme força de vontade, superou todas essas dificuldades e tornou-se em um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

A infância de Machado de Assis não foi nada fácil. Perdeu sua única irmã quando tinha apenas seis anos, quatro anos depois sua mãe morreu e, passado algum tempo, perdeu o pai. Para sobreviver, ajudou a madrasta a vender doces.

Face a tantas dificuldades não é de se estranhar que não tenha frequentado regularmente a escola. Sua instrução veio por conta própria, graças ao interesse que tinha em todos os tipos de leitura.

Aos 16 anos empregou-se na tipografia de Paula Brito, onde era publicado o jornal "Marmota Fluminense". Em 21 de janeiro de 1855, Machado publicou, nesse jornal, o poema "Ela". Nada de excepcional, era apenas a sua estréia no mundo literário. A partir daí sua carreira teve uma rápida ascendência e em pouco tempo passou a ser colaborador em vários jornais da época. O escritor Machado de Assis ganhava popularidade e cada vez mais se distanciava de Joaquim Maria, menino do subúrbio. Nas roupas, na postura, na expressão. Os meios literários da Corte tornavam-se, pouco a pouco, terreno conhecido para ele e ele tornava-se cada vez mais conhecido nesse terreno.

(…)

Em 29 de setembro de 1908 Machado de Assis faleceu em sua casa situada na rua Cosme Velho


Foto de Rita Teixeira - Olhares

terça-feira, fevereiro 24, 2009

RUI KNOPFLI





GRITARÁS O MEU NOME


Gritarás o meu nome em ruas
desertas e a tua voz será
como a do vento sobre a areia:
um som inútil de encontro ao silêncio.

Não responderei ao teu apelo,
embora ardentemente o deseje.
O lugar onde moro é um obscuro
lugar de pedra e mudez:

não há palavras que o alcancem.
gelam-lhe os gritos por fora.
Serei como as areias que escutam
o vento e apenas estremecem.

Gritarás o meu nome em ruas
desertas e a tua voz ouvirá
o próprio som sem entender,
como o vento, o beijo da areia.

Teu grito encontrará somente
a angústia do grito ampliado,
vento e areia. Gritarás o meu
nome em ruas desertas.


Rui Knopfli (1932 - 1998)





Rui Knopfli nasceu em Inhambane, em 1932 e viveu em Moçambique até 1975. Foi delegado de propaganda médica, poeta, crítico literário e de cinema. Opositor do regime colonialista, colaborou activamente na imprensa independente, casos de A Tribuna e A Voz de Moçambique. Lançou, com João Pedro Grabato Dias, os cadernos de poesia Caliban (1971-72), que reuniram colaboradores como Jorge de Sena, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Fernando Assis Pacheco, José Craveirinha e Sebastião Alba. Dirigiu o caderno Letras & Artes (1972-75), da revista Tempo. Traduziu e publicou poetas como T. S. Eliot, Blake, Sylvia Plath, Kavafis, Dylan Thomas, Yeats, Robert Lowell, Pound, René Char, Apollinaire, Octavio Paz e Reverdy. Demite-se do jornal A Tribuna , por objecções de natureza ética, e deixa Moçambique em Março de 1975. Em Julho do mesmo ano radica-se em Londres onde exerceu o cargo de conselheiro de imprensa (1975-97) junto da Embaixada de Portugal na capital britânica. Em 1984 recebeu o prémio de poesia do PEN Clube. Em Portugal tem colaboração dispersa no JL e nas revistas Colóquio-Letras e Ler. Encontra-se representado em algumas antologias, designadamente em Contemporary Portuguese Poetry (Manchester, 1978) e no The Penguin Book of Southern African Verse (Londres, 1989).. Em Bruxelas foi publicado Le Pays des Autres (1995), volume que colige os três primeiros livros. A sua obra é fortemente influenciada pelas suas vivências europeias e africanas, revelando uma forte originalidade e um tom eminentemente coloquial. Morreu em Lisboa em 1998. Em 2003, a empresa nacional casa da moeda, publicou uma antologia dos seus poemas, intitulada “Obra Poética”.

Bibliografia: O País dos Outros (1959), Reino Submarino (1962), Máquina de Areia (1964), Mangas Verdes com Sal (1969), A Ilha de Próspero (1972), O Escriba Acocorado (1978), Memória Consentida (1982), O Corpo de Atena (1984) e O monhé da cobras (1997).



quinta-feira, fevereiro 19, 2009

CARLOS DE OLIVEIRA




Carta da Infância




Amigo Luar:
Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.


Carlos de Oliveira (1921 - 1981)
in Trabalho Poético


Carlos de Oliveira, nasceu a 10 de Agosto de 1921 em Belém do Pará, filho de emigrantes portugueses no Brasil. Passou a infância nos terrenos pantanosos e arenosos da região da Gândara. Este contacto precoce com o mundo rural e com a pobreza marcou profundamente a sua obra e influenciou a sua ligação ao neo-realismo. Formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde estabeleceu amizade e solidariedade ideológica e política com Joaquim Namorado, João Cochofel e Fernando Namora, entre outros. Estreou-se com Turismo (1942), uma colectânea de poemas, e com o romance Casa na Duna (1943). Atingiu reconhecimento público na área da poesia e da ficção. Escreveu o célebre romance Uma abelha na Chuva em 1953. Morreu em Lisboa no dia 1 de Julho de 1981.



Obra poética: Turismo, “Novo Cancioneiro”, Coimbra, 1942; Mãe Pobre, Coimbra, 1945; Colheita Perdida, Coimbra, 1948; Descida aos Infernos, Porto, 1949; Terra de Harmonia, Lisboa, 1950; Cantata, Lisboa, 1960; Sobre o Lado Esquerdo, Lisboa, 1968; Micropaisagem, Lisboa, 1968; Entre Duas Memórias, 1971 (pelo qual lhe é atribuído no ano seguinte o Prémio de Imprensa) ; Trabalho Poético, poesia reunida, Lisboa, 1976 e 2003(Assírio & Alvim)




Foto de Xã - Olhares

sábado, fevereiro 14, 2009

ANGELA SANTOS

Foto de Paulo César



ÁGUAS MANSAS

Clareou à luz do teu olhar
o dia que passa nas asas de um pássaro
azul
e logo se abrem as portas para o inaudito
onde o sopro de um anjo
revela a condição de seguir
rumo ao que houver do outro lado,
avesso da noite, luz que se oculta
e revela o azul purpura
da secreta beleza que chega nas dobras da noite
É então que me aconchego
e perscruto os sinais que sobem do centro
da vida que guardas na cadencia do teu peito
no sopro tranquilo.

E como um navio rasgando a calmaria
adormeço à tona dos teus olhos de água.


INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...